Fungo agressivo chega à América do Sul e ameaça bananas

economia
08.09.2019, 13:00:00
Atualizado: 08.09.2019, 18:03:48

Fungo agressivo chega à América do Sul e ameaça bananas

Fungo ameaça plantações em todo o Brasil

Se algum dia você já teve o prazer de experimentar uma banana-maçã tradicional deve estar sentindo falta dela nas prateleiras. Não é apenas impressão. É que esta variedade de banana, de sabor adocicado, pequeno porte, textura macia e aveludada, tem sido cada vez mais rara nos mercados.

Ao longo das últimas duas décadas, a versão mais antiga da fruta vem sendo dizimada por um fungo. Chamado de fusarium, ele é o responsável por provocar a Murcha da Bananeira, também conhecida como Mal do Panamá. A doença fez desaparecer todas as plantações comerciais da banana-maçã no Brasil.

A doença é provocada pela raça 1 do fusarium. Desde que foi identificado pela primeira vez, no fim do século XIX, na Oceania, ele já destruiu plantações de banana-maçã em várias partes do mundo. Quase 150 anos depois de identificado, os cientistas ainda tentam encontrar uma solução definitiva para combater o fungo, já que não existe opção de controle químico.

“Atualmente, a gente convive com a raça 1 do fungo em todas as regiões. O que se faz é o manejo com controle biológico e tratos culturais para minimizar os efeitos. O fusarium é um habitante que se instala no solo e produz estruturas de resistência. Estudos indicam que ele é capaz de permanecer por mais de 30 anos no solo, mesmo depois da erradicação do pé. Daí a dificuldade de combate”, afirma o fitopatologista Fernando Haddad, pesquisador da Embrapa Mandioca e Fruticultura, em Cruz das Almas.

Fernando Haddad reconhece preocupação com a presença do Fusarium nas lavouras, mas descarta desabastecimento total de banana (Foto: Alessandra Vale / Embrapa)

DE LESTE A OESTE

A primeira versão do fusarium foi identificada pela primeira vez na Austrália em 1876. Depois, já entre as décadas de 1900 e 1960, ele provocou a devastação das bananeiras entre a Costa Rica e o Panamá. Nesta região da América Central, o fungo causou a destruição de mais de 40 mil hectares da fruta, e a doença ganhou o apelido de Mal do Panamá.

No Brasil, o fungo foi identificado pela primeira em 1930 e obrigou os exportadores de banana a trocarem as variedades tradicionais por outras mais resistentes. Foi nesta época que as bananas do tipo maçã, pertencentes ao grupo Gros Michel, mais vulnerável ao fungo, começaram a perder espaço no mercado e passaram a ser substituídas no campo pelas bananas do grupo Cavendish, como a nanica, nanicão e a banana d´água.

A mudança ocorreu em todo o país. Na região de Bom Jesus da Lapa, no oeste da Bahia, que reúne alguns dos maiores produtores do Brasil, não foi diferente.

“Aqui na nossa região não existe nem mais um pé de banana-maçã. Ninguém mais cultiva, há muito tempo”, afirma Ervínio Kogler, presidente da Associação de Produtores de Banana da Bahia.

A entidade reúne cerca de 955 produtores rurais no Projeto Formoso. Atualmente, dos 9 mil hectares de banana cultivados na região, cerca de 20% são de banana-nanica, e 80% de banana- prata.

A DOENÇA

As plantações de banana se espalham por mais de 500 mil hectares no Brasil. O fusarium 1 já está presente em todas as regiões produtoras.

O fungo atua no solo e se espalha pela área cultivada. Primeiro, ele se instala nas raízes da bananeira. Depois, sobe pelo pseudocaule através dos feixes, e assim ocupa os veios da planta, entope o sistema vascular central da planta e impede a circulação de água e nutrientes.

“O fungo coloniza o rizoma da bananeira e impede a chegada de nutrientes. Sem alimentação, as folhas mais velhas começam a ficar amareladas, das bordas até as nervuras, e depois as outras folhas começam a murchar. É o que chamamos de efeito guarda-chuva fechado. Em seguida a planta para de produzir frutos e morre”, explica Haddad.

Os cientistas fazem questão de afirmar que o fungo não causa mal nenhum ao ser humano, e as frutas podem ser consumidas normalmente.

“O fungo só prejudica a bananeira e a produção. Ele não infecta os frutos e não causa nenhum problema à saúde das pessoas. Não é necessário parar de consumir banana”, completa o cientista.

Apesar do alerta dos cientistas, em alguns lugares por onde passou, o fungo chegou a provocar dúvidas no consumidor. Recentemente, na Colômbia, para provar que o fungo não faz mal à saúde e combater o pânico, o presidente do país se viu obrigado a ocupar a rede nacional de comunicação e comer ao vivo o fruto, dispersando assim qualquer informação equivocada sobre a atuação do fusarium na saúde do consumidor.

A SUBSTITUTA

Enquanto os produtores rurais substituíam a banana-maçã por outras mais resistentes ao fusarium, os pesquisadores passaram a buscar soluções na ciência. A ideia era salvar a espécie, ou criar uma fruta com sabor e aroma parecidos.

Foi desta forma que os pesquisadores da Embrapa Mandioca e Fruticultura, com sede em Cruz das Almas, no recôncavo baiano, desenvolveram uma variedade mais resistente ao fungo, a banana BRS Princesa. Ela é parecida com a banana-maçã original, mas com sabor ligeiramente menos adocicado e um pouco menos aveludada e comprida. Além de ser resistente à murcha do fusarium, a princesa enfrenta bem os causadores de outras doenças comuns nos bananais, como a sigatoka amarela e negra, que também vêm provocando danos graves nas plantações brasileiras.


BRS princesa tem sabor e aroma parecidos com o da banana maçã. Variedade é cultivada em várias partes do Brasil. (Foto: Ivisson Costa / Embrapa)

“A BRS Princesa começa a ocupar o seu nicho de mercado no segmento de bananas do tipo maçã, que praticamente não se consegue produzir mais e estão fadadas à extinção por sua alta susceptibilidade ao fungo causador da murcha de fusarium,” conta o pesquisador Edson Perito Amorim, coordenador do programa de melhoramento genético da Embrapa.

Outra vantagem da nova variedade é que ela é mais tolerante ao frio, exige menos água e vem sendo considerada mais vantajosa e lucrativa por ser capaz de gerar até 40 toneladas de frutas por hectare. A princesa já vem sendo cultivada há cerca de seis anos por agricultores do baixo sul da Bahia, nos municípios de Tancredo Neves e Teolândia.

Nos mercados, muitos feirantes chegam a chamar a princesa de “falsa maçã”, mas, definitivamente, é ela que tem atendido os consumidores que gostam da fruta.

“Uma pessoa menos atenta nem percebe a diferença. Muita gente ainda chega aqui e pergunta se tem aquela banana pequeninha, mais gordinha e macia. Mas, o consumidor acaba levando esta princesa mesmo. A diferença é pequena”, afirma Antônio dos Santos, vendedor na Feira de São Joaquim, em Salvador.

Outra linha de pesquisa desenvolvida pelos cientistas da Embrapa envolve o melhoramento genético da própria banana-maçã original. Um dos experimentos mais curiosos está sendo realizado na sede da Embrapa em Cruz das Almas. 

Em busca de variedades de banana-maçã resistentes ao fusarium, cientistas mantêm experimentos até em caixas d´água (Foto: Georgina Maynart)

Para ter certeza que o solo não estava contaminado, os cientistas esterilizaram várias toneladas de terra e colocaram todo o material em caixas d´água, iguais às usadas nas residências. Depois plantaram, dentro dos tanques, mudas de banana-maçã original. O objetivo é estimular o desenvolvimento de exemplares mais resistentes e verificar dispositivos que possam combater os fusarium. O estudo já dura mais de dez anos e não tem prazo para ser concluído.

NOVA AMEAÇA: FUSARIUM 4

Agora, uma outra versão do fungo, o TR4 tropical, conhecido também como raça 4 do fusarium, ameaça provocar mais estragos nos bananais da América Latina. Além de ser perigoso para as variedades de banana já atingidas pela raça 1, ele também é um risco para as plantações da banana-prata e do grupo Cavendish, como a nanica, que representam hoje mais de 90% das bananas plantadas no Brasil.

Depois de percorrer várias partes do mundo, o fungo 4 está cada vez mais perto do Brasil. No primeiro semestre de 2019, autoridades colombianas anunciaram a presença do fungo em uma fazenda do norte do país.

“Esta raça 4 do fungo ataca bananas do tipo Cavendish e é mais agressiva e virulenta para todas as variedades suscetíveis ao fungo. A grande preocupação é que o mesmo problema que tivemos no passado com a banana-maçã ocorra também com as Cavendish no presente momento. Torcemos que esta enfermidade fique restrita à Colômbia e estamos em contato direto com os técnicos de lá para ajudar nesta contenção. Além disso, já estamos explorando estudos em variedades selvagens que se mostraram resistentes a este fungo. Acreditamos que não existe possibilidade de desabastecimento do mercado”, explica o pesquisador da Embrapa.

O TR4 é mais agressivo do que o fusarium raça 1. Fungo chegou a América do Sul este ano ( Foto: Miguel Dita / Embrapa)

O TR4 foi detectado pela primeira vez em 1990 na Indonésia e na Malásia. Depois chegou à China em 1996, e um ano depois, em 1997, na Austrália. De lá para cá não parou de avançar. Provocou estragos nas plantações de Taiwan, Filipinas, Jordânia, Moçambique, Paquistão, Líbano, Vietnã, Laos, Israel e Mianmar. Até que este ano chegou finalmente à América do Sul.

Com a ameaça já presente na Colômbia, o governo brasileiro está intensificando o Plano de Contingenciamento contra o Fusarium.

As autoridades federais devem lançar nos próximos dias um alerta fitossanitário para evitar a entrada desta nova raça do fungo no Brasil. De acordo com o Ministério da Agricultura, o alerta vai orientar os fiscais sobre a adoção de medidas contra a disseminação, como o controle das fronteiras e o transporte de mudas de outros países onde o fungo já está presente.

“Como o solo contaminado ajuda a disseminar a doença, é importante que viajantes dessas regiões limpem o que fica de terra nos sapatos e lavem as roupas antes de embarcar de volta ao Brasil”, afirma Ricardo Kobal, chefe do departamento de Divisão, Prevenção, Vigilância e Controle de Pragas do Departamento de Sanidade Vegetal do Ministério da Agricultura.

Na Bahia, o segundo maior produtor do Brasil, depois de São Paulo, os fiscais da Agência de Defesa Agropecuária (ADAB) já estão intensificando o programa de vigilância ativa. O programa prevê vistorias constantes nas plantações comerciais do estado, coleta de amostras, e levantamento fitossanitário específico para detecção de pragas da banana. Nos próximos quinze dias, o órgão também vai lançar um plano de prevenção.

“São várias ações para dificultar a entrada do fungo. É preciso tomar muito cuidado, principalmente com as mudas trazidas de fora do país, não só de banana, mas também de flores como a helicônia, que é hospedeira. A preocupação é muito grande. Temos colhido amostras nas principais regiões produtoras, como Bom Jesus da Lapa, no oeste, e Teolândia, no baixo sul, para garantir a sanidade das plantações”, afirma Danúzia Maria Vieira Ferreira, coordenadora do Projeto Fitossanitário da Banana da ADAB.

Nos países onde já foi identificado, o TR4 vem gerando grande perdas. Em Taiwan, a geração 4 do fungo provocou a diminuição drástica da produção anual da fruta, de 60 mil caixas para 6 mil. Na China, o fungo já se espalhou por mais de 155 mil hectares e provocou a queda das exportações.

“A maior arma ainda é não deixar a praga entrar no território, até porque se ela se instalar a estratégia de controle vai ser muito difícil”, completa Danúzia.

Bananeira afetada pelo fusarium para de receber nutrientes e fica com as folhas secas, deixando de produzir frutos (Foto: Miguel Dita / Embrapa)
Murcha do fusarium deixa o sistema vascular da bananeira cheio de manchas e impede a circulação dos nutrientes. (Foto: Léa Cunha / Embrapa)

Os efeitos econômicos das pragas podem ser gigantescos. O Brasil é o quarto produtor mundial de banana, atrás apenas da Índia, China e Indonésia. Dos pomares brasileiros saem quase 7 milhões de toneladas da fruta por ano.

E mesmo sem a presença de vilões letais, como o fusarium 4, os produtores brasileiros já enfrentam vários problemas.

“A bananicultura tem enfrentado uma crise nos últimos anos. O gasto com energia subiu muito e os preços de venda não acompanharam os custos de produção. Por isso muitos agricultores estão diversificando as lavouras, cultivando por exemplo tangerina e limão. Nós esperamos que as autoridades evitem a entrada deste novo fungo, senão vai ser um impacto muito grande no setor”, afirma o agricultor Ervínio Kogler.

Os consumidores também torcem para que o controle das doenças seja eficiente. Outras doenças, como a sigakota negra, e as intempéries climáticas, como os períodos de estiagem ou de excesso de chuva, também têm provocado oscilações na produção e aumentos consecutivos de preços nas grandes cidades.

Na Bahia, problemas como estes fizeram o preço subir do ano passado para cá. Apesar de uma leve queda de 7,89% no último mês, o Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese) divulgou que nos últimos 12 meses o preço médio da banana ficou 37,86% maior na capital baiana. A elevação do preço no varejo teria sido influenciada, principalmente, pela baixa oferta da banana nanica e o elevado volume da fruta direcionado para exportação. O Brasil exporta banana para 43 países, principalmente Uruguai, Argentina, Holanda e Espanha.

Ainda de acordo com o Dieese, a dúzia da banana-prata está custando em média R$ 3,86 em Salvador. A Bahia produz cerca de 820 mil toneladas de banana por ano.

Equipes da Agência de Defesa Agropecuária da Bahia estão intensificando as vistorias nas plantações de banana (Foto: ascom ADAB)

ROTEIRO DO TR4 TROPICAL NO MUNDO (Fusarium raça 4):

* 1990 – Indonésia e Malásia

* 1996 - China

* 1997 – Austrália

* 2003 – Taiwan

* 2008 – Filipinas

* 2012 – Jordânia

* 2013 – Moçambique

* 2014 – Paquistão e Líbano

* 2017 – Vietnã e Laos

* 2018 - Israel e Mianmar

* 2019 – Colômbia


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