Gênio da cidade baixa: aluno do IFBA é aprovado em curso de Geologia em universidade alemã

salvador
17.06.2021, 05:00:00
Atualizado: 17.06.2021, 20:04:41
Felipe Petilo sonha em estudar na Alemanha (Foto: Nara Gentil)

Gênio da cidade baixa: aluno do IFBA é aprovado em curso de Geologia em universidade alemã

Sem recursos para arcar com a viagem, jovem faz vaquinha nas redes sociais

Em momentos como o que vivemos, o jornalismo sério ganha ainda mais relevância. Precisamos um do outro para atravessar essa tempestade. Se puder, apoie nosso trabalho e assine o Jornal Correio por apenas R$ 5,94/mês.

Cria da cidade baixa, o estudante Felipe Petillo, 19 anos, que mora no Bonfim há 10 anos e residia antes nos bairros Caminhos de Areia e Jardim Cruzeiro, já tem até data limite para deixar o local onde nasceu e cresceu rumo às terras alemãs, mais especificamente para cidade de Hamburgo. É que ele, que é de família humilde e se formou no IFBA onde fez o ensino médio integrado ao curso técnico de Geologia por quatro anos, foi convidado para ingressar no Studienkolleg Hamburgo, que faz parte de um dos programas de graduação mais respeitados quando o assunto é Geologia. 

Convite que deseja aceitar, mesmo depois de ser aprovado em primeiro lugar pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) no mesmo curso da Universidade de São Paulo (USP), avaliado como um dos melhores do Brasil na área.


Autodidata em línguas

E a mala poderia estar até pronta porque o estudante está mais que preparado. Além da seleção para o curso, Felipe, que é autodidata em línguas estrangeiras e já tinha fluência em inglês, espanhol, italiano e latim, acaba de conseguir a certificação de fluência também em alemão, uma das exigências da universidade. 

Sem condições de pagar cursos, Felipe aprendeu cinco idiomas por hobby em casa. "Para aprender cada língua foi um processo diferente, mas normalmente eu via conteúdo pela internet, conversava com nativos por aplicativo de mensagens pra treinar, assistia série nestes idiomas e lia muitos livros também, até de gramática mesmo", revela ele, que precisou de um ano para aprender inglês, espanhol, italiano e latim como passatempo e alemão também em um ano para ser aprovado no curso na Alemanha.

A primeira língua que dominou foi o inglês, quando ainda tinha 11 anos. Depois surgiu o interesse no Espanhol, no Italiano e no Latim. E, apesar de ter como uma diversão, ele tinha um tempo médio de dedicação ao aprendizado de línguas. "Eu ficava estudando de uma a duas horas por dia. E era todo dia mesmo porque, pra mim, não era um trabalho, sabe? Ficava imerso naquilo porque achava divertido descobrir as outras línguas, não me cansava por isso", relata Felipe.


Vaquinha

A única coisa que ainda impossibilita a ida do estudante para Europa são os custos da viagem, que ficaram ainda mais altos com a proibição de viagem direta do Brasil para a Alemanha por conta da situação da pandemia em território brasileiro, o que o fez abrir uma vaquinha nas redes sociais para arrecadar R$ 15 mil, valor referente a tudo que precisa para chegar em Hamburgo.

A arrecadação nas redes começou na segunda-feira (14) e reuniu 7% do valor, quantia bem abaixo do necessário para que ele consiga viajar. De acordo com o estudante, os custos não se limitam às passagens. "É um valor que não dá pra juntar com todos da família porque não é só o valor da passagem pra lá. Tem hospedagem, seguro de saúde que é obrigatório, inscrição na universidade, muita coisa", conta Felipe. A quantia só chegou a essas cifras graças a impossibilidade de ir diretamente para Hamburgo, precisando parar antes e fazer quarentena em um país que está aberto para o Brasil. 

Felipe explica que o ponto de parada já está definido caso consiga arrecadar o valor. "Vou ficar na Sérvia cumprindo quarentena porque é o mais barato entre países abertos. Só que aulas começam no dia 9 de agosto e eu posso chegar, no máximo, até o dia 21 de agosto. Contando com o tempo da quarentena, precisaria sair antes do dia 6 de agosto para conseguir estar lá a tempo", explica ele, que afirma que, em um mundo ideal, a meta seria chegar no país antes das aulas começarem para não perder nada.


Seleção rigorosa

Apesar de complicada, a missão de arrecadar o valor está longe de ser a etapa mais difícil do processo de ingresso do estudante oriundo de escola pública, que teve a vida escolar e os projetos científicos avaliados para ser convidado. "Pra fazer inscrição, você precisa ter a certificação de fluência no alemão e apresentar seus documentos da escola traduzidos como notas e trabalhos, que eles analisam. Tem uma prova também, mas por conta da pandemia não tá rolando. Então, eles avaliaram o meu currículo e o meu alemão para decidir me convidar", diz Felipe.

Ele, no entanto, não vai entrar diretamente na Universidade de Hamburgo e sim numa parte dela, que é o Studienkolleg, curso de um ano para estrangeiros que antecede e prepara os alunos para os métodos de ensino da instituição. "Pra uma pessoa estrangeira estudar na Alemanha, não dá pra ir direto pra universidade, tem que passar pelo Studienkolleg antes. É próprio para estrangeiros que passam um ano com ensinos de alemão mais avançado e outras matérias que te ajudam a se situar no ambiente de ensino de lá", conta Felipe, que depois desse ano, passará três anos na universidade para se formar.

Uma conquista que, há quatro anos, não estava nem nos sonhos do soteropolitano. Isso porque, para o morador da cidade baixa, a paixão pela Geologia não vem desde crianças, como em alguns casos. "Não é uma coisa de pequeno. Tudo começou com o IFBA. Quando eu fiz a prova pra entrar lá, precisei optar por um curso técnico que a gente faz integrado ao ensino médio e acabei optando pela Geologia. A partir disso, eu me apaixonei pela área e vi como a coisa que eu queria fazer da vida", relata. 


Importância do IFBA

Ao falar do local em que cursou o ensino médio e deu os primeiros passos no que um dia será sua profissão, Felipe diz que o IFBA foi fundamental para que ele desenvolvesse ainda mais gosto pelos estudos e chegasse onde está agora. "Eu já gostava de estudar antes, mas o IFBA me ajudou a estruturar muito isso, a ter contato com a ciência e ter contato também com projetos científicos, criar gosto pelo conhecimento. Foi uma base muito boa que aumentou minhas possibilidades de chegar onde eu queria", conta o estudante, que não economiza elogios para os professores e o ensino da instituição.

*sob supervisão da chefe de reportagem Perla Ribeiro

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas