Golpe das mandalas: 'Usaram um discurso espiritual e feminista para lesar pessoas'

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21.03.2021, 05:30:00
Amabel Crysthina Mota se surpreendeu com a sofisticação do discurso do esquema, que usa elementos espirituais e pautas atuais, como sororidade e economia solidária (Foto: Paula Fróes/ CORREIO)

Golpe das mandalas: 'Usaram um discurso espiritual e feminista para lesar pessoas'

É cilada, mana! Saiba quem é a defensora pública da Bahia que recebeu denúncias de mulheres de todo o país, enganadas por esquema suspeito de pirâmide financeira

Elas procuravam acolhimento, sororidade, uma rede de apoio de mulheres para outras mulheres. Porém, se depararam com o contrário: não tinha nada de sagrado, muito menos de feminino. “Eram histórias impactantes. Pegaram um discurso espiritual e feminista em um momento de fragilidade e usaram para lesar pessoas. A Defensoria percebeu logo de cara que o nosso papel era o de acolhimento”. 

Essa foi a primeira reação da defensora pública do Estado da Bahia, Amabel Crysthina Mota, 35 anos, quando ouviu o relato de vítimas do esquema de pirâmide financeira das mandalas da prosperidade do grupo Tear dos Sonhos, que tem integrantes não só no Brasil, mas em outros países. Antes de chegar até a defensoria, a mobilização começou nas redes sociais em um grupo criado por baianas, que conta com 1,4 mil mulheres de vários estados, o que estimulou a coleta de testemunhos.  

A partir daí, o Núcleo de Defesa das Mulheres (Nudem) do DPE-BA, realizou uma reunião online ainda no final do ano passado, da qual participaram 30 mulheres. Até o momento, 11 delas registraram seus relatos por e-mail e foram assistidas com assessoria jurídica pela defensoria que, pela primeira vez, em mais de 10 anos de atuação, registrou casos de violência dessa natureza. 

Amabel foi quem recebeu essas queixas. Inclusive, ela lembra que chegou a ser convidada, em 2017, para fazer parte de uma mandala. “Eu mesma fui chamada para integrar o Tear dos Sonhos, depois de uma viagem que fiz para o Peru com a proposta do sagrado feminino. Tinha curiosidade em saber mais, porém, quando falaram em dinheiro, eu achei muito estranho e não aceitei participar”. 

Cearense, formada em Direito pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e defensora pública desde 2012, Amabel iniciou o trabalho de acolhimento, mas desde o começo do ano ela passou a ser  titular do 8º DP da Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente, enquanto o Nudem segue agora, sob a coordenação da defensora Viviane Luchini Leite. As denúncias podem ser feitas nos canais remotos 129 ou 0800 071 3121 e no e-mail  nudem@defensoria.ba.def.br.  

“Quando a gente é mulher atendendo outras mulheres é muito pesado. Ao ter acesso aos relatos, busquei mais informações e vi a magnitude disso nas redes sociais, quando me deparei com vários grupos de vítimas. Precisávamos intervir. O medo de denunciar ainda é muito grande”.  

A Defensoria deu assistência aos casos baianos e encaminhou as mulheres que não são daqui, para os órgãos de outros estados.  O próximo passo é iniciar uma campanha, como acrescenta Amabel: “A ideia é promover rodas de conversas online com vítimas, psicólogos e educadores financeiros. Queremos pautar isso no debate público e construir um material informativo”. 

Fogo, vento, terra, água 
Mas afinal, o que é o Tear dos Sonhos e as mandalas da prosperidade?  O que mais surpreendeu a defensora foi a sofisticação do discurso, que se utiliza de elementos espirituais e pautas atuais, como sororidade, sagrado feminino  e economia solidária ou colaborativa, para convencer as mulheres a participarem da mandala e contribuírem financeiramente. Ela explica como funciona o esquema.

“Sou chamada por alguém próximo com todo um discurso espiritual. Para isso é necessário pagar de R$ 5.004 e recrutar duas novas ‘manas ou hermanas’ - como elas chamam - com a proposta de retorno financeiro de R$ 40 mil para realizar um sonho”. 

Na prática, oito pessoas precisam entrar no sistema até alcançar esse topo. “Uma hora essa pirâmide vai ruir. Por mais que se diga que 'ninguém solta a mão de ninguém', se não tiver dinheiro, todo mundo solta, sim”, argumenta. Ao fazer a entrega da quantia, a mulher é chamada de fogo. Então, ela se torna vento com a missão de convencer outras duas mulheres. Quem ajuda nessa função é a mulher terra que orienta o discurso e sustenta a mandala.  

A mulher se transforma em água quando chega ao topo com o ganho oito vezes maior do que o valor que usou para ‘acender’ a energia.

“O foco são mulheres que viveram alguma situação de fragilidade. Elas contaram que se sentem constrangidas em denunciar. Outras, têm vergonha por serem enganadas. Quem sai é acusada de falsa, mercenária”. 

O CORREIO tentou entrar em contato por e-mail com os  advogados que representam a Tear, no entanto, não obteve retorno. Na sua página na internet, a Tear dos Sonhos se descreve como um “projeto de ajuda mútua. Jornada de autoconhecimento, transformação pessoal e empoderamento”.

Efeito pandemia
O esquema da pirâmide financeira não é novo. O que preocupa é o crescimento de casos nesse momento de pandemia. Segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública, em 2019 foram 53 casos em todo país. No ano seguinte, o número mais que dobrou chegando a 136 registros. Até março de 2021, já são 24 casos – quase metade do ano de 2019.  

Em setembro do ano passado, o relatório final da reunião da Comissão Especial de Pirâmides Financeiras do Conselho Nacional de Defesa do Consumidor (CNDC) apontou para esse aumento. “Valores pagos em decorrência das rescisões trabalhistas podem ter contribuído. A diminuição da Selic (taxa básica de juros) também empurrou os consumidores para maiores riscos”, escreveu o Ministério. 

Em São Paulo, já existe um processo criminal que acusa a Tear dos Sonhos de promover pirâmide financeira. De acordo com o Tribunal de Justiça do Estado (TJSP), o caso está na fase de inquérito e ainda não consta decisão. A pirâmide financeira é considerada crime contra a Economia Popular, previsto na Lei 1.521/51. Quem esclarece é advogado especializado na área criminal, Rodrigo Leitão. “A pena prevista é de detenção, de seis meses a dois anos, e multa”. 

A economista e coordenadora do programa de Serviços Financeiros do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), Ione Amorim, reforça o alerta: “Ignore, desconfie de propostas com promessas de retorno elevado, mesmo que receba relatos de conhecidos e até de famosos. É fundamental também denunciar a organização e advertir parentes e amigos”, complementa. O especialista da Proteste Associação de Consumidores, Rodrigo Alexandre, concorda. “São esquemas com estratégias encantadoras para alcançar objetivos fraudulentos”. 


CONFIRA ALGUNS RELATOS DE EX-INTEGRANTES DAS MANDALAS DA PROSPERIDADE

“No início é magia, um sonho, uma fantasia”

Quando eu decidi entrar na mandala da prosperidade, eu queria esse sentimento de pertencer. No início é magia, um sonho, uma fantasia. Já entramos com a recomendação de não olhar a internet, porque o que está lá é para atacar o movimento e destruí-lo. O discurso é muito bem montado, tem embasamento filosófico, uma linguagem. Quando me dei conta do que realmente estava acontecendo foi um momento de muita escuridão, por eu ter me enganado e, pior ainda, por ter reproduzido o discurso e enganado outras pessoas. Estava na posição de 'água', na hora de receber, mas, não me sentiria bem em saber que, o que aquelas mulheres me deram, elas poderiam não receber de volta. Que vergonha.  Saí do movimento, não recuperei o que paguei para fazer parte e sofri retaliações. (Sara*)

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“Se aproveitam das fraquezas”   
Há quase um ano, fui convidada a participar do grupo que se vendia como uma proposta de economia colaborativa, a fim de ajudar mulheres a realizar seus sonhos. A todo o momento é feito um processo de assédio moral e de muita pressão para alcançar as metas. O dinheiro é dado como “doação” e nunca há espaço para recebê-lo de volta. Se aproveitam das fraquezas, ao invés de apoiá-las. Muitas mulheres permanecem ali mesmo se arrependendo, simplesmente porque não há outra forma de reaver o dinheiro senão seguir na mandala.  (Arlinda*)

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“Ainda estou com o psicológico abalado” 
Apaguei todos os arquivos e dados e faço diversos tratamentos psicológicos até hoje. Tem mais de um ano que deixei a mandala e ainda estou abalada. Todo receio é o de me relacionar com as pessoas e ser enganada. Perdi uma amiga para esse movimento. Ela estava em ‘água’ e tinha o sonho de viajar. Durante a 'realização' desse sonho, ela sofreu um acidente e faleceu. A família não tinha condições financeiras. Pedimos apoio as mulheres da mandala e elas se recusaram. Foi muito triste. Eu era ‘vento’ da mulher que morreu. Tenho momentos de baixa autoestima e sensação de impotência. A função do Tear é só captar dinheiro. (Joana*)


AS REGRAS DO ESQUEMA

. Qual a diferença entre pirâmide financeira e marketing multinível?   No marketing multinível há uma distribuição e venda de produtos e serviços, e a receita é gerada pelas vendas dos integrantes. Já na pirâmide não existe a venda, o esquema só se mantém se outras pessoas aderirem e pagarem por isso.  

. Quem regulamenta o mercado de investimentos no país? O registro é obrigatório em órgãos como a CVM (Comissão de Valores Mobiliários). A consulta pode ser feita no www.gov.br/cvm/pt-br.   

. Quando desconfiar? Falta de registro nos órgãos reguladores, depósitos em contas pessoais, “prova” de sucesso financeiro com foco em supostos métodos para alcançá-los, são alguns dos principais sinais de alerta.  

. O que fazer, caso seja vítima?  A pirâmide financeira configurar crime contra a economia popular. É importante registrar um boletim de ocorrência. Salvador tem uma Delegacia de Estelionato e Outras Fraudes (DREOF). Denúncias também podem ser feitas em entidades de proteção e defesa dos consumidores e na CVM. A Defensoria Pública do estado é mais um recurso para quem precisa desse acolhimento jurídico.   


ONDE INVESTIR R$5.004? 

Fundos de ações A analista da casa de análise de investimentos Suno Research, Gabriela Mosmann recomenda os fundos de investimento em ações: “são produtos que possibilitam mais retorno no longo prazo”. 

Fundos imobiliários Outra dica são os fundos imobiliários. “Você pode escolher alguns específicos ou mesmo optar por um fundo que tenha uma carteira mais diversificada”, completa.  


ALGUNS GOLPES FAMOSOS DE PIRÂMIDE FINANCEIRA

1. Sistema Bom (BBOM)
A empresa atuava como fornecedora de rastreadores de veículos, mas, além do pagamento mensal, exigia novos associados.  

2. Telexfree
A venda de planos de minutos de telefonia pela internet (VoIP) estava focada no recrutamento e na captação de seus recursos para e desvio de dinheiro.  

3. Fazenda Boi Gordo
A promessa era de engorda de bois e depois os lucros, pagos pela entrada de novos investidores. 

*Os personagens tiveram os nomes trocados para preservar suas identidades. Os relatos de “Joana” e “Arlinda” foram cedidos à reportagem pelo Nudem.

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