Grades serão colocadas nas janelas para evitar fugas no Hospital Espanhol

coronavírus
06.05.2020, 15:29:00
Atualizado: 06.05.2020, 20:37:28
(Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

Grades serão colocadas nas janelas para evitar fugas no Hospital Espanhol

Dois pacientes internados por covid-19 surtaram em uma semana

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(Foto: Reprodução)

O surto psicótico sofrido pelo agricultor André Saturnino de Souza, 55 anos, na noite desta terça-feira (5), quando ateou fogo no quarto e em seguida pulou do 4º andar do Hospital Espanhol, foi o segundo caso em uma semana na unidade médica destinada exclusivamente ao internamento de pacientes com a covid-19 em Salvador. 

No dia 28 de abril, um homem também surtou e conseguiu escapar do hospital saltando do 3º andar. Para evitar novas situações, a direção do Espanhol decidiu instalar grades nas enfermarias. 

“Iremos providenciar a colocação de grades nas janelas, uma vez que estes pacientes com coronavírus eventualmente podem apresentar a diminuição da oxigenação do sangue e isso pode ser responsável pelo desencadeamento desse quadro de desorientação e surto em pacientes”, declarou o secretário estadual da Saúde Fábio Vilas-Boas.

Conforme o secretário, a baixa oxigenação do cérebro se transforma em um vetor para ansiedade e distúrbios neurológicos nos pacientes. No entanto, em conversa com o CORREIO uma psiquiatra e uma psicanalista ponderaram outra razão (confira ao fim da matéria).

Foi o que aconteceu com André, que estava internado no 4º andar desde o dia 4 – ele chegou ao Hospital Espanhol regulado do Hospital Municipal de Santo Amaro, no Recôncavo. Uma sobrinha de André contou ao CORREIO que o agricultor é fumante há anos e usou um isqueiro para pôr fogo no colchão.

“Todo fumante anda com um isqueiro ou caixa de fósforo escondido em algum lugar. O que a gente não consegue entender é como é que isso passou na triagem. Meu tio chegou ao hospital com alguns pertences numa sacola”, disse ela, acreditando que o incidente poderia ter sido evitado se os objetos trazidos pelo tio fossem vasculhados por funcionários do hospital. 

Após uma varredura no quarto, foi encontrado o isqueiro. A assessoria de comunicação da Secretaria Estadual da Saúde (Sesab) informou que uma investigação interna foi instaurada para apurar em qual circunstância o objeto foi parar no local onde houve o incêndio. Por causa do incidente, 25 pacientes foram transferidos para outras unidades médicas, inclusive André, que atualmente está internado no Hospital Municipal de Salvador, na Boca da Mata.

Psicóticos
Por volta das 23h desta terça, André pôs fogo no colchão, usou o suporte do soro, que é de metal, para quebrar o vidro da janela. “Ele teve um surto psicótico. Colocou sua cama contra a porta para impedir a entrada de socorristas e jogou-se da janela do 4º andar até a laje do 3º andar da UTI e fraturou a perna. Rapidamente, os profissionais  conseguiram arrombar a porta com o uso de extintores de incêndio e debelaram o fogo no apartamento 429. O andar inteiro foi evacuado. O 3º e o 5º andar foram também evacuados e pacientes foram transferidos para outras unidades”, contou o secretário Fábio Vilas-Boas.  

Um total de 26 pacientes foram transferidos para outras unidades hospitalares para tratamento da covid-19. São elas: Hospital Ernesto Simões, Hospital do Subúrbio, Instituto Couto Maia e Itaigara Memorial. As demais áreas do Hospital Espanhol não tiveram seu funcionamento alterado.

“Hoje, ao longo do dia, faremos a operação de rescaldo. Assim que o Corpo de Bombeiros liberar esses dois pavimentos, iremos iniciar a reforma desse pavimento o mais rápido possível para ativar essas enfermarias. Por enquanto, vamos abrir a enfermaria do sexto andar, que ainda estava fechada e que não foi atingida pela fumaça e começar reocupar os leitos o mais rápido possível”, disse o secretário.

O primeiro surto de paciente no Hospital Espanhol aconteceu no dia 28, quando um homem pulou da janela do 3º andar, onde funciona uma das enfermarias. “Ele caiu no teto do refeitório. Do teto, pulou novamente e conseguiu sair do hospital. Ele passou a noite sumido”, contou uma funcionária do hospital, que preferiu não revelar o nome. 

Na manhã do dia seguinte, o homem retornou por conta própria ao Espanhol. “Ele chegou sozinho, usando a roupa do hospital, com alguns arranhões e não sabia o que tinha acontecido. Ele havia surtado. Foi colocado de volta no leito e foi oxigenado, mas à noite ele veio a óbito. A gente acredita que o fato de ter passado a noite toda sem assistência pode ter agravado a situação dele”, relatou a funcionária.

Descaso
Nascido na cidade de Camamu, no litoral sul da Bahia, André vive sozinho num sítio em Santo Amaro Purificação, Recôncavo do estado – os dois filhos dele moram em Brasília. “Ele vive na zona rural e a gente quando quer falar com ele, conta com os vizinhos porque ele é do tipo daquelas pessoas matutas, ele nem tem celular”, contou a sobrinha dele ao CORREIO. 

No dia 3 deste mês, André deu entrada no hospital municipal da cidade do Recôncavo com sintomas da covid-19, entre eles a falta de ar. No dia seguinte, foi regulado para o Hospital Espanhol, em Salvador. Logo após a internação, parentes do agricultor relatam terem sido vítimas do descaso por parte de funcionários do hospital. 

“Desde o dia do internamento, não consegui falar com ninguém no Espanhol. No meu celular tem mais de 110 chamadas para o serviço social. Quando não estava ocupado o tempo todo, chamava e ninguém atendia ou atendia, do outro lado a pessoa ficava muda. Somente hoje, quarta-feira, que consegui falar com uma assistente social. Foi quando uma delas me ligou para dizer sobre a tentativa de fuga do meu tio”, relatou.

O agricultor encontra-se em estado de saúde estável no Hospital Municipal de Salvador, onde passará por uma cirurgia por causa do fêmur quebrado na tentativa de fuga. 

Procurada, a Sesab reconheceu o problema. A assessoria informou que, antes, eram apenas duas assistentes sociais em serviços rotineiros no hospital, mas que a partir dessa quarta, o número foi dobrado. Ou seja, agora são quatro assistentes sociais recebendo os parentes dos pacientes e ligando para os familiares de todos os pacientes que foram transferidos para outras unidades.

Surto psicótico

Psicanalista clínica há 20 anos, Clarissa Lago explica que os tais surtos psicóticos pelos quais passaram estes pacientes podem ser chamados de foraclusão localizada — um termo jurídico que significa o mesmo que “fora da lei”, quando a pessoa sai do estado de respeito às convenções sociais. “É um episódio pontual”, aponta. 

Para a médica psiquiatra Sandra Peu, membra da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), o quadro do paciente não tem relação com a baixa de oxigênio no cérebro (hipóxia cerebral), como foi mencionado. A pessoa que apresenta quadro de hipóxia cerebral não teria condições motoras de mover móveis e quebrar janelas, muito menos capacidade de estruturar o pensamento para organizar um incêndio. Pelo contrário, ela teria rebaixamento da consciência, confusão mental e redução da capacidade motora.

“O quadro descrito condiz com um surto por uma doença mental. Este senhor estava submetido a vários estressores, tantos externos, como bombardeamento de informações, o tratamento em isolamento e a possível dificuldade de compreender seu adoecimento, como pela resposta inflamatória do corpo à doença”, complementa. 

Na avaliação dela, houve uma falha na avaliação do episódio com o paciente. A psiquiatra esclarece que se um paciente está numa enfermaria especializada em covid-19 e apresenta baixa de oxigênio no cérebro, a equipe rapidamente deve tomar uma atitude para sanar o problema, como intubar o paciente. 

 “Dizer que o que aconteceu foi motivado por hipóxia só vai gerar pânico na população, por causar descrédito na capacidade de tratamento da equipe daquele hospital. Além disto, reduz a percepção de risco e rapidez para intervir nas equipes de saúde e na população sobre o aumento de incidência de doença mental e surtos psicóticos graves, inclusive em pessoas muito sintomáticas com covid-19. Junto com a pandemia, cresce a onda de doença mental, que perdurará para além das ondas de infecção viral.”, conclui.

Colaborou Hilza Cordeiro

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