Hospital Português enfrenta onda de casos de covid-19 na UTI neonatal

coronavírus
02.05.2020, 05:00:00

Hospital Português enfrenta onda de casos de covid-19 na UTI neonatal

Ala da maternidade tem recém-nascido com teste positivo, dois bebês suspeitos de coronavírus e pelo menos 15 funcionários infectados
Hospital Português: um recém nascido infectado, dois sob suspeita e, entre 15 afastados, oito enfermeiros com teste positivo (Foto: Arquivo CORREIO)

Uma das mais importantes maternidades particulares de Salvador vive um surto de covid -19 na sua UTI neonatal. Um recém-nascido testou positivo para coronavírus e há suspeitas de que dois bebês foram contaminados. A hipótese sob investigação é a de que eles tenham adquirido a doença dos próprios profissionais de saúde da Maternidade Santa Maria, que integra a rede do Hospital Português, na Barra. Segundo fontes ligadas à unidade, entre 15 e 20 funcionários da mesma UTI foram afastados, parte deles por também terem resultado confirmado para o vírus e a outra por possível contaminação.

As fontes também informam que todos os funcionários do setor passaram por testes. O hospital nega a onda de coronavírus e confirma apenas o caso do recém-nascido positivado. Entretanto, ao Conselho Regional de Enfermagem (Coren), a unidade de saúde admitiu que oito enfermeiros tiveram seus exames positivos para o novo coronavírus. No prontuário médico da mãe do bebê, não há qualquer referência a infecção por covid-19.

(NOTA DO EDITOR: O Hospital Português confirmou a morte da bebê na tarde deste domingo (3). Leia mais em Morre bebê infectado por covid-19 dentro de UTI neonatal do Hospital Português)

Parte do prontuário da bebê infectada com Covid-19 (Foto: Reprodução) 

O CORREIO teve acesso com exclusividade aos prontuários médicos dos três recém-nascidos (uma menina e dois meninos) e de suas mães. A menina, que testou positivo para coronavírus, nasceu em 6 de janeiro e teve uma série de complicações por conta de uma doença congênita, evoluindo com problemas respiratórios, cardiovasculares e infecciosos. Luta pela vida há quase quatro meses. No dia 24 de março, ela foi submetida a exame para identificar coronavírus. Em 28 de março, o resultado dava positivo. “Vírus detectados: Coronavírus Sars-CoV2”, confirma o prontuário. A bebê segue em estado grave.

Resultado positivo da recém nascida (Foto: Reprodução)

Nos documentos do hospital não há qualquer indicação de que a mãe da paciente tenha testado positivo, o que reforça a ideia de que a recém-nascida foi infectada dentro da própria unidade. A então gestante passou por cesárea de urgência. Com ela, tudo transcorreu normalmente. Enquanto a criança era internada na UTI, a mãe, que mora em Placaford, recebia alta médica no dia 8 de janeiro, dois dias após dar entrada na maternidade.

A reportagem entrou em contato com a mãe da bebê, mas ela preferiu não dar qualquer declaração sobre o caso. Também não informou se passou por teste para coronavírus. “Não tenho interesse e nem condições de falar nada”, afirmou a mulher, de 30 anos.  Uma profissional de saúde, que preferiu não se identificar, disse que o hospital busca adquirir respiradores específicos para recém-nascidos infectados por covid-19.

Pelos corredores do Hospital Português, só se fala sobre esse assunto. Os funcionários estão assustados com a onda de casos. A maioria evita entrar na UTI neonatal. Ao menos três fontes ouvidas pelo CORREIO dão conta de que, somente naquele setor ,entre 15 e 20 profissionais de saúde foram afastados. Apesar disso, é difícil ter 100% de certeza que a recém-nascida pegou covid-19 dos funcionários do hospital, já que isso pode ter ocorrido em uma visita.  De qualquer forma, a infecção se deu dentro da unidade.

“Eles estão tentando abafar, mas todo mundo já tá sabendo. A gente tá evitando entrar lá na ‘neo’ (UTI neonatal) por causa da covid-19. Só entra quando não tem jeito. Do total, parece que tem 13 funcionários infectados. O resto é suspeito”, confirma uma funcionária.  “Isso só da UTI neo. Mas já teve gente de outros setores que testaram positivo”, garante.  O CORREIO tentou entrar em contato com alguns dos funcionários infectados, mas não teve resposta.

Da mesma forma, a reportagem procurou seis médicos, entre obstetras, ginecologistas e pediatras. Alguns acompanham pacientes da UTI neonatal e outros são plantonistas da unidade. Nenhum deles quis falar sobre o assunto. “Você quer que eu te dê informação do hospital, eu sendo funcionário? Quer me complicar?”, disse um obstetra que atua na unidade. Uma médica disse que não savia dos casos de covid-19 porque estava há alguns dias sem ir ao Hospital Português.       

'Caso pontual'

Em nota via assessoria de comunicação, o Hospital Português confirmou o que seria apenas “um caso pontual” de coronavírus, mas enfatizou que “não existe um surto de Covid-19 em sua Maternidade”. A unidade diz que é “referência para a capital e interior baiano e segue protocolos rigorosos na rotina de assistência materno-fetal, a fim de proteger recém-nascidos, pais e equipes assistenciais". "Hoje, a Maternidade do HP registra um caso pontual de Covid-19”, reafirma a nota. O hospital informou ainda que, até o momento, registrou um total de 66 casos confirmados da doença entre seus pacientes. Destes, 47 já tiveram alta hospitalar.

Mas, o Português não trata sobre os casos de covid-19 entre os seus colaboradores. O hospital não respondeu aos questionamentos da reportagem sobre os funcionários infectados e afastados da UTI neonatal por suspeita de coronavírus. Informou apenas que segue as diretrizes do Ministério da Saúde, “inclusive com o afastamento de profissionais com sintomas gripais como medida protetiva”. Ao Coren, porém, o hospital confirmou o afastamento de oito infectados. O conselho de enfermagem disse que vai investigar o caso e acompanhar os profissionais afastados.  

A nota destaca que, na fase atual da pandemia, o Português toma “medidas preventivas de proteção pessoal, isolamento e/ou afastamento social para evitar a ampla disseminação desta doença”. Outra medida de segurança, segundo a unidade particular, é “a disponibilização de Equipamentos de Proteção Individual (EPI) para todos os colaboradores, sem exceção”. O hospital afirma ainda que “obedece com rigor os protocolos do Ministério da Saúde (MS) para a paramentação e desparamentação da equipe assistencial, durante o uso de EPI”.

Bebês com suspeita de covid-19

Os outros dois bebês com sintomas de covid-19 estão isolados e ainda aguardam os resultados dos exames. Um deles nasceu no dia 18 de abril. Filho de mãe diabética, apresentou desconforto respiratório precoce. Levado para a UTI, segue com oscilação da frequência respiratória. Mesmo tendo febre e medicado com antibióticos, não necessita de entubação até o momento. Seu teste para coronavírus foi coletado na última terça-feira (28), no décimo dia de vida.

Parte do prontuário de bebê suspeito de Covid-19 (Foto: Reprodução)

Procurada pela reportagem, a mãe da criança disse que não lhe foi passada qualquer informação do hospital a respeito da suspeita de que seu filho está com coronavírus. Ela também não sabia dos profissionais afastados. “Se meu filho tá com suspeita de covid-19, eu não tô sabendo até o momento. Se fizeram exame de coronavírus, não foi com minha autorização”, disse a mãe, que preferiu não se identificar. “Também não informaram sobre os funcionários infectados”, completou.  

Relatório informa coleta de exame de bebê suspeito de infecção (Foto: Reprodução)

O outro bebê com suspeita de covid-19 nasceu no dia 23 de abril. Também apresentou desconforto respiratório precoce.  No dia 26, passou a apresentar febre, espirros frequentes e obstrução nasal. Pelo prontuário, os médicos consideram baixa a possibilidade de a criança estar com coronavírus. Mesmo assim, optou-se por isolamento, precauções de contato e teste para o vírus. O estado de saúde dele é estável.

Parte de prontuário do segundo bebê suspeito de infecção (Foto: Reprodução)

Governo aciona vigilância epidemiológica e sanitária

Procurada, a Secretaria de Saúde do Estado  (Sesab) informou que não havia sido notificada  sobre qualquer surto na UTI neonatal do Hospital Português. Diante dos rumores, porém, a secretaria disse ter acionado as vigilâncias epidemiológica e sanitária. A assessoria de comunicação do órgão afirmou que iria contactar a unidade para ter acesso a mais informações. "Todas as unidades hospitalares com UTI possuem uma Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH), que é responsável por fazer notificações e orientar como debelar eventuais infecções. Caso necessário, a Sesab prestará assistência técnica à unidade", diz a nota da Sesab.

A secretaria informou ainda que não tem como saber quantos casos de covid-19 existem hoje no Hospital Português, apesar da obrigatoriedade da notificação por parte da unidade. "Cabe ressaltar que todos os pacientes com diagnóstico laboratorial positivo são obrigatoriamente notificados. No entanto, a ficha de notificação é um documento confidencial da vigilância epidemilógica, cuja divulgação sempre é por município, e as análises utilizam os dados totais agregados", explica o órgão. A Sesab disse ainda que, para a realização de testes, a maioria dos hospitais privados e filantrópicos possui convênio com laboratórios, ao invés de enviarem exames para o Laboratório Central da Bahia (Lacen). 

O Hospital Português garante que notifica o estado sobre todos os casos de covid-19 na unidade:  “A Instituição segue a rotina de notificação estabelecida pela Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (SESAB) diante da configuração de caso suspeito de Covid-19 (realização de exame específico, seguida da devida orientação ao paciente) e se mantém em estado de alerta para eventuais novas notificações do novo coronavírus”.

Sociedade de pediatria: “Preocupação é com o uso inadequado dos EPIs”

A Sociedade Baiana de Pediatria (Sobape) se mostrou preocupada com o uso inadequado dos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) por parte das equipes médicas e outros profissionais de saúde, dentro ou fora das UTIs neonatais, que lidam com crianças e recém nascidos. A presidente da entidade, Dolores Fernandez, afirma que no início da pandemia, logo que surgiram os primeiros casos, houve dificuldade de racionamento dos equipamentos para os procedimentos primordiais como cirurgias e aspirações. E muitos profissionais insistiam em não se proteger.  

Mas, diz ela, no momento o problema está no uso inadequado. “Nem todos usavam máscaras como tem sido agora. Mas é preciso, por exemplo, não tocar as mãos na máscara e, se tocar, lavar imediatamente as mãos, porque a contaminação se dá nesse momento e às vezes o profissional  nem se dá conta. Às vezes tiram a máscara e colocam no queixo e inadvertidamente colocam novamente no rosto. Se tirar a máscara do rosto tem que ser descartada e lavada as mãos”, ensina Dolores.

Dolores observa que uma nova cultura de EPIs está surgindo em meio à pandemia, o que torna difícil a adaptação. “Hoje usamos máscara em todo período de trabalho, ininterruptamente. Só trocamos de máscara a cada quatro horas ou quando está úmida. Não estávamos habituados a isso.  É um novo hábito para todos os profissionais e  alguns tem uma sensação de falta ar, o que leva a mexer na máscara com frequência e se contaminar”, destaca.

O rigor da lavagem das mãos e paramentação e desparamentação ainda é um desafio. “Se não lavar as mãos, contamina o ambiente. O vírus pode permanece no ambiente de três horas a três dias. Não é fácil o rigor da paramentação e desparamentação. É ai que mora o perigo! No uso inadequado dos EPIS. É a situação que mais preocupa”, emenda. A Sobape preparou um material que não só ensina sobre o uso de EPIs, mas dá diretrizes sobre como os pediatras e outros profissionais devem agir e como deve se dar a rotina nos consultórios, atendimentos, orientações sobre aleitamento materno e etc. Até mesmo as crianças devem usar máscaras, o distanciamento social deve ser preservado e os brinquedos devem ser retirados do atendimento.  

O comunicado da Sobape diz ainda que, até o momento, a população pediátrica mostra casos com um perfil de doença leve e poucos relatos de complicações e hospitalizações, além de raríssimos casos com desfechos fatais. Estudo recente, ainda em fase de pré-publicação, analisou uma população de 2.143 pacientes pediátricos e mostrou que em 94% dos casos as crianças eram assintomáticas, com manifestações leves ou moderadas. Por outro lado, diz o estudo, as crianças podem ser importantes transmissores da doença.  

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