Intensa e envolvente, Normal People é uma adaptação perfeita para TV

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08.05.2020, 10:28:00
Atualizado: 08.05.2020, 10:42:02

Intensa e envolvente, Normal People é uma adaptação perfeita para TV

Série é baseada em livro da irlandesa Sally Rooney

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(Foto: Divulgação)

Não gosto de escrever sobre séries que ainda não chegaram ao Brasil, mas isso ficou difícil depois de assistir Normal People. Adaptação do livro homônimo de Sally Rooney (no Brasil, “Pessoas Normais”), a série foi produzida em parceria pela BBC com o serviço de streaming americano Hulu. A obra original vendeu milhares de cópias, foi traduzido em 25 línguas e recebeu aclamação da crítica.

A história é simples - uma história de amor, o primeiro, intenso, complicado, com vai e volta. E a adaptação, comandada pela própria Sally Rooney ao lado de Alice Birch, é muito bem feita.

Na trama, Marianne Sheridan é uma garota que sofre ataques permanentes na escola por ser considerada diferente, muito cheia de si e não atraente. Ela vive em uma mansão com a mãe e o irmão, uma família disfuncional e desconectada. Do outro lado está Connell Waldren, atleta caladão muito apreciado pelos colegas. Ele não ofende Marianne como os outros, mas também não a defende. Os dois estão ligados pelo fato da mãe de Connell trabalhar como diarista na casa de Marianne. 

E é lá, quando Connell espera para levar a mãe para casa, que os dois começam a conversar e acabam se envolvendo. A relação se desenrola sob um signo de sigilo que vai acabar por envenená-la, mas isso é só o começo da história. Depois acompanhamos os dois na faculdade, deixando a cidade de Sligo pela capital Dublin, quando o cenário se inverte um pouco. Agora é Marianne quem é popular e Connell tem dificuldade em fazer amigos e conhecer novas pessoas.

Embora o livro se passe em um intervalo de anos, a estrutura é episódica o suficiente para permitir que seja bem contada em uma temporada de televisão que foi amarrada de maneira perfeita. É extremamente fiel, com alguns cortes cirúrgicos que em nada prejudicam a história contada. Não ficou faltando nada.

Os doze episódios de cerca de meia hora são a duração perfeita - cada um deles acaba fazendo você desejar mais e não se espante se emendar uma maratona. Depois que você entra no clima da série, complementado com a trilha sonora algo melancólica, é difícil de sair.

(Foto: Divulgação)

O seriado tem muita nudez e cenas de sexo, mas nenhuma parece gratuita e todas são belissimamente dirigidas por Lenny Abrahamson (de O Quarto de Jack, filme indicado ao Oscar) e Hettie MacDonald. São cenas extremamente íntimas, mas muito ternas.

Um grande acerto foi na escolha dos atores principais, extremamente importantes numa série tão firmemente ancorada nos dois - praticamente o tempo todo em cena. O irlandês Paul Mescal, que até aqui só trabalhou no teatro e faz sua estreia na TV, vive Connell com charme e ao mesmo tempo mostrando suas fragilidades emocionais.

A britânica Daisy Edgar-Jones conseguiu traduzir a intensidade e também a fragilidade de Marianne, que nós vamos entendo as origens ao longo da história. Ambos têm uma atuação extremamente sensível necessária aqui.

A série nos coloca tão perto dos dois, das suas alegrias e dissabores, altos e baixos, humilhações e glórias, e de uma maneira tão honesta, que é impossível não ficar envolvido e tocado. Estamos nos aproximando da metade do ano (pois é) e até aqui essa foi a melhor série de 2020 para mim.

Além dessa história de amor envolvente, a série sinaliza para questões de privilégio, explora a sutileza do abuso e valoriza as experiências de adolescência como um molde para nossa identidade adulta. A experiência do jovem adulto é levada a sério aqui. As pessoas crescem, mudam, se encontram e se desencontram, e embora muitas relações dessa época acabem ficando para trás, deixam marcas.

O único problema foi acabar e me ver em uma abstinência grande de Connell e Marianne. Depois que acabei de ler o livro, resolvi correndo para “Conversa entre amigos”, primeiro livro de Sally Rooney, que tem o mesmo clima e ambiente, mas achei uma nota abaixo que “Pessoas Normais”. Agora, tive que me contentar em ouvir podcasts (um programa da própria BBC fez quatro, incluindo entrevista com os atores, em inglês), ouvindo a trilha sonora no repeat e relendo o livro original.


 

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