Irmãos traficantes levam terror a Arembepe

salvador
12.02.2020, 16:51:00
Atualizado: 12.02.2020, 20:07:16

Irmãos traficantes levam terror a Arembepe

Neném atua em Arembepe, Portão e Praia do Forte; o irmão é procurado por homicídio

Em momentos como o que vivemos, o jornalismo sério ganha ainda mais relevância. Precisamos um do outro para atravessar essa tempestade. Se puder, apoie nosso trabalho e assine o Jornal Correio por apenas R$ 5,94/mês.

Neném e Misa. Para além do laço fraternal que os une, os irmãos são considerados pela população como o terror de Arembepe, em Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador (RMS). Israel e Mizael Silva Santos transformaram a localidade, antes somente lembrada pelos tempos áureos de “paz e amor” por conta da aldeia hippie, numa região de guerra entre facções. Ficaram tão “famosos” que têm os rostos estampados no Baralho do Crime – ferramenta de denúncia da Secretaria de Segurança Pública (SSP-BA).

Líder da facção Comando da Paz (CP) em Arembepe, Neném é o Às de Ouro – respondia processo por tráfico de drogas e roubo em Arembepe, Portão e Praia do Forte, além de ser responsável por homicídios ocorridos nessas regiões. A polícia não confirmou a morte dele durante confronto nessa segunda-feira (10) em Arembepe – após bandidos matarem a tiros um adolescente de 16 anos, na localidade do Sangradouro, próximo à aldeia hippie. A localização de Neném é desconhecida.

Os mortos foram identificados como Alexandre Santana de Jesus, 18 anos, Jackinson dos Santos Cardoso, 22, Gabriel dos Santos Cavalcante da Rocha, 30, e Adinailton Pereira dos Santos, cuja idade não foi divulgada.

Israel Silva Santos (Foto: Divulgação Polícia Civil)

Neném foi preso no dia 11 de janeiro de 2017 em Portão, quando equipes das Rondas Especiais (Rondesp) RMS receberam uma denúncia anônima de que ele estava se deslocando de ônibus para Buraquinho. Ao descer do veículo, o traficante foi abordado e preso. Na ocasião, ele possuía mandado de prisão preventiva em aberto pelo assassinato de Iago Batista de Souza, ocorrido em 25 de outubro de 2015, em Arembepe. 

Não tão menos perigoso, Misa é o 4 de Espadas do Baralho do Crime. Ele é procurado por homicídio em Arembepe. Não há informação se ele era um dos oito bandidos que escaparam da ação da polícia dessa segunda – no dia, pelo menos 12 bandidos trocaram tiros com policiais militares e quatro acabaram mortos. 

Mizael Silva Santos, o Misa (Foto: Divulgação SSP-BA)

O CORREIO retornou a Arembepe e ouviu de moradores e comerciantes relatos sobre a vida dos dois irmãos, nascidos e criados na localidade. Eles cresceram no bairro Cocobeira, mas fizeram fama no Sangradouro, uma comunidade que surgiu há cerca de 20 anos nas proximidades da aldeia hippie. Uma das primeiras pessoas entrevistadas foi um colega de infância deles, um rapaz que hoje tem 25 anos.

Ele disse que Neném e Misa são filhos de um dono de um bar e uma cabeleireira que vivem em Arembepe. Quando pequenos, os irmãos frequentavam uma igreja evangélica. “Nessa época, o tráfico já existia, mas era só em épocas, como no verão, por causa da chegada dos turistas. Era algo muito amador”, contou a fonte. 

Integrantes da facção CP de Salvador passaram a frequentar Arempebe e começaram a recrutar jovens da região. “Eles queriam se instalar aqui porque, até então, não tinham concorrentes e Neném e Misa foram rapidamente cooptados e se tornaram lideranças aqui”, relatou a fonte. 

Ainda de acordo com ele, os irmãos passaram a comandar todo o tráfico de drogas de Arembepe e são conhecidos pela violência de como eliminam os rivais. “O Neném era o pior. Às vezes ele mesmo fazia questão de matar. Faziam um ‘tribunal do tráfico’ e as vítimas eram mortas em terrenos baldios”, declarou. 

De acordo com a fonte, há cerca de 15 dias, integrantes da facção Bonde do Maluco (BDM) se estabeleceram na localidade conhecida como Loteamento Água Viva, que fica nas imediações da entrada de Arembepe. “É um grupo formado por homens de Portão e Vila de Abrantes que se juntou para derrubar os caras daqui. Desde então, os confrontos estão sendo intensos”, relatou. 

Aldeia
O reflexo dos embates atinge em cheio o comércio local. “As pessoas não ficam mais nas ruas. Hoje, meu bar fica aberto até as 19h. Antes ficava até as 23h. É o medo que tomou conta”, disse o proprietário. A recepcionista de hotel contou que as pessoas cancelaram as reservas para o final de semana. “Com a notícia das mortes de segunda, alguns hóspedes desistiram de vir”, disse a moça.

Nas imediações do Projeto Tamar, o movimento nesta manhã era pouco. “Hoje, verão, era para isso tudo aqui está entupido de carro e ônibus e até agora (às 11h) não chegou ninguém”, disse uma funcionária, apontando para o estacionamento – o único veículo era o carro do CORREIO. “A gente tinha só esse período, que antecede o Carnaval, para faturar. Depois disso é só chuva e não vem quase ninguém. Estamos ferrados. Quando não é a chuva é o tráfico”, disse uma mulher que vende camisas personalizadas do projeto. 

Fundada há mais de 50 anos, a famosa Aldeia Hippie de Arembepe sofre com o reflexo da insegurança e isso preocupa quem vive no local. “Hoje estamos preocupados. A nossa ideologia é pregar a paz e o amor e isso tudo nos deixa tristes, porque tudo que ocorreu em Arembepe, associam à aldeia e isso reflete no turismo, pois vivemos disso. Estamos aqui há dois anos sem um assalto sequer, mas quando se fala em violência por aqui, nós da aldeia somos os primeiros a serem prejudicados pelo impacto negativo”, declarou o hippie alagoano Alceu de Arembepe, 62, proprietário do Rancho Janis Joplin.

A aldeia fica a poucos metros da comunidade do Sangradouro, reduto do CP na região – uma mata extensa é o muro entre as duas localidades. “Minha casa não tem muros e vive com a porta aberta. Eles nunca fizeram nada com a gente aqui, porque eles nos respeitam, sabem de nossa filosofia”, comentou Alceu. 

Já um outro morador da aldeia, que preferiu não revelar o nome, disse que no último final de semana, integrantes da CP circularam no local intimidando as pessoas. “Estão exibindo as armas, amedrontando todo mundo. Alguns foram mortos pela polícia na segunda”, contou. 
 

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas