Juiz afirma que João de Deus chefiava quadrilha

brasil
24.12.2018, 17:17:00

Juiz afirma que João de Deus chefiava quadrilha

Líder espiritual está preso por abuso sexual e porte de arma

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O juiz Liciomar Fernandes da Silva, que deu duas ordens de prisão preventiva contra João de Deus - por abuso sexual e por  posse ilegal de arma de fogo -, disse que as investigações policiais apontam que o médium  “chefia uma organização criminosa que atua principalmente na cidade de Abadiânia”. 

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

(Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

João de Deus é alvo de diversos inquéritos abertos pela Polícia Civil e pelo Ministério Público de Goiás para apurar denúncias de abuso sexual feitas por centenas de mulheres que o procuraram para tratamento espiritual. Ele já foi indiciado (acusado formalmente à Justiça) por uma dessas investigações.  João de Deus, que completou uma semana na cadeia anteontem, nega os crimes. Por meio de nota, a defesa do líder espiritual afirmou que o “juiz fez uma afirmação grave e sem qualquer base empírica. Essa é a verdade”.

Liciomar da Silva autorizou buscas em cinco endereços relacionados ao médium. Quatro dos mandados foram cumpridos em Abadiânia, onde fica a Casa Dom Inácio de Loyola, local dos atendimentos espirituais e onde teriam ocorrido os abusos –, e um deles em Itapaci, na região norte de Goiás. Na busca realizada na última  sexta-feira (21), a Polícia Civil encontrou pedras, que estão em análise para saber se são esmeraldas, uma arma de fogo, medicamentos e uma mala com R$ 1,2 milhão em dinheiro. Em diligências anteriores, outros R$ 400 mil em moeda nacional e estrangeiras, além de armas, também foram encontrados na casa dele, o que motivou o pedido de prisão, concedido pelo magistrado.

No fim de semana, a Superintendência de Vigilância em Saúde de Goiás (Suvisa) interditou o laboratório da farmácia que funciona na Casa Dom Inácio de Loyola. O órgão informou que lá eram produzidos medicamentos em escala industrial, atividade para a qual não tinha autorização. Relatório divulgado pela Secretaria Estadual de Saúde de Goiás (SES-GO) diz que a interdição atinge somente o laboratório, permitindo as vendas dos medicamentos. O órgão esclareceu que a farmácia tem alvará para produzir os remédios, mas não na escala em que estavam sendo feitos. 

A defesa de João de Deus nega todas as acusações de crimes sexuais. E criticou tanto as  ordens de busca quanto as de prisão. “A nova busca e apreensão foi determinada com base em denúncia anônima e foi genérica, o que é inadmissível”, afirmou o advogado Alberto Toron. 

Trabalho no feriado
A força-tarefa do Ministério Público (MP) de Goiás, que investiga as denúncias contra João de Deus não vai parar durante os feriados do final de ano. O objetivo é acelerar as investigações ouvindo o maior número de testemunhas possível. O grupo recebeu um total de 596 relatos de mulheres que se dizem vítimas, 75 foram ouvidas.

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

(Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Das 255 pessoas identificadas como vítimas, 23 tinham entre 9 e 14 anos quando o abuso aconteceu;  28 entre 15 e 18 anos, e 70 com idade de 19 a 67 anos, de acordo com os promotores que atuam na força-tarefa. Eles citam pelo menos três casos já tipificados como estupro, violência sexual mediante fraude e estupro de vulnerável.

Para os promotores, o médium se valia da fé dos frequentadores, do respeito que tinham por ele e da fragilidade das pessoas, muitas vezes, com graves doenças, para tirar proveito da situação.

Preso comum
João de Deus está preso preventivamente desde o dia 16, no Núcleo de Custódia de Aparecida de Goiânia, a 18 km da capital do estado de Goiás. A defesa já recorreu ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) e ao Supremo Tribunal Federal (STF), na tentativa de reverter a detenção para prisão domiciliar com tornozeleira. Ainda não obteve sucesso. Na condição de prisioneiro, o médium não teria  ceia especial neste Natal.  Segundo a Diretoria-Geral de Administração Penitenciária (Dgap), ele jantará “o de sempre” com outros quatro detentos do Núcleo de Custódia. A Dgap informou ainda que o cardápio é composto de “arroz, feijão, salada, carne e sobremesa”. 

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