'Lavanderia virou ferro-velho', relata funcionário sobre Hospital das Clínicas

salvador
07.11.2018, 14:47:00
Atualizado: 08.11.2018, 17:05:43

'Lavanderia virou ferro-velho', relata funcionário sobre Hospital das Clínicas

Dois dos 12 elevadores do Hupes estão parados e outros seis têm problemas

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Foram seis dias sem realizar procedimentos na ala cirúrgica do Complexo Hospital Universitário Professor Edgard Santos (Hupes), conhecido como Hospital das Clínicas, no bairro do Canela, em Salvador. Com um problema no ar-condicionado da unidade de saúde, desde a última quinta-feira (1º), os pacientes que chegaram transferidos de hospitais do interior do estado e do próprio ambulatório do complexo estavam sendo informados que um problema no sistema refrigeração do local colocava em risco qualquer tipo de intervenção.

O que impede as cirurgias, segundo a unidade, é a temperatura acima do necessário: o ideal seriam 20ºC, mas, nos últimos dias, vinha passando dos 24ºC. Na manhã desta quarta (7), o Hupes informou que a temperatura começava a ser normalizada e que começaria a retomar os procedimentos cirúrgicos. À tarde, a assessoria de comunicação declarou que procedimentos foram feitos nesta quarta, mas não informou quantos, nem de quais especialidades.

O problema no sistema de ar-condicionado, no entanto, não é o único. Ele trouxe à tona outros, bem mais antigos, que comprometem o funcionamento pleno dos serviços oferecidos no complexo, segundo funcionários ouvidos pelo CORREIO, e que deixam, muitas vezes, todos de mãos atadas.

Nas imagens enviadas por servidores da unidade, é possível ver salas que servem de depósito. Alguns espaços estão com a estrutura comprometida e o mofo se espalha. Além disso, dois dos 12 elevadores do Hupes estão parados e outros seis apresentam problemas constantes, segundo relatos de funcionários e pacientes ouvidos pelo CORREIO.

O Hupes foi procurado para se explicar sobre as denúncias dos funcionários, mas não houve posicionamento até a publicação da reportagem. Por meio da assessoria, o hospital disse que só se manifestará nessa quinta (8).

Imagens enviadas por funcionários que mostram a estrutura interna do Hupes
Imagens enviadas por funcionários que mostram a estrutura interna do Hupes (Foto: Leitor CORREIO)
Imagens enviadas por funcionários que mostram a estrutura interna do Hupes
Imagens enviadas por funcionários que mostram a estrutura interna do Hupes (Foto: Leitor CORREIO)
Imagens enviadas por funcionários que mostram a estrutura interna do Hupes
Imagens enviadas por funcionários que mostram a estrutura interna do Hupes (Foto: Leitor CORREIO)
Imagens enviadas por funcionários que mostram a estrutura interna do Hupes
Imagens enviadas por funcionários que mostram a estrutura interna do Hupes (Foto: Leitor CORREIO)
Imagens enviadas por funcionários que mostram a estrutura interna do Hupes
Imagens enviadas por funcionários que mostram a estrutura interna do Hupes (Foto: Leitor CORREIO)
Imagens enviadas por funcionários que mostram a estrutura interna do Hupes
Imagens enviadas por funcionários que mostram a estrutura interna do Hupes (Foto: Leitor CORREIO)

Problema antigo
Um funcionário, que preferiu não se identificar, disse à reportagem que o problema do ar-condicionado, que foi incapaz de refrigerar a ala cirúrgica em 20°C nos últimos seis dias – como os médicos recomendam – é antigo. A reforma na sala de hemodiálise, que fica no 5º andar do prédio do Hupes, também se arrasta por seis meses, aponta ele.

Os cerca de 40 pacientes, estima outra funcionária, que tinham atendimento em três turnos, passaram a realizar a modalidade terapêutica em outras unidades de saúde da cidade.

“Conheço uma paciente que não realiza de forma periódica porque em outras locais a demanda é muito grande”, cita a funcionária. 

Alguns espaços dentro do complexo, que poderiam estar sendo utilizados para o funcionamento de alguma especialidade médica, estão servindo, apenas, como depósito de materiais. O funcionário lembra que desde que os serviços de lavanderia e refeição foram terceirizados, a qualidade da comida e da higiene das peças utilizadas no hospital está muito inferior. 

“O local que abrigava a lavanderia, por exemplo, está sendo utilizado para armazenar ferro-velho. Tínhamos muito maquinário que estava em boas condições, mas que está encostado”, revela o colaborador. 

“O aparelho de mamografia não está em funcionamento. Estamos trabalhando apenas com uma máquina de raio-x”, completa outra funcionária. De acordo com a assessoria de comunicação do Hupes, são internados no local, todo mês, cerca de 800 pessoas. Além disso, com a capacidade de 277 leitos, acontecem, em média, 400 cirurgias, 40 mil exames e 30 mil consultas.

A diarista Luciana Oliveira, 44, precisava mostrar para sua médica um exame ginecológico. Voltou para casa com o documento médico em mãos e com a possibilidade de apresentar a análise em 2019, devido à grande demanda. “Eu tento desde setembro. Agora é só esperar”, lamenta. 

Ar-condicionado
De acordo com o superintendente do hospital, Antônio Lemos, procedimentos como cirurgias de catarata, cardiovascular, digestiva, pediátrica, entre outras, foram suspensos porque a temperatura no local estava acima do recomendado para realizar as intervenções médicas.

Ainda de acordo com ele, o sistema de condicionamento de ar do hospital foi trocado em março, depois do antigo também apresentar problemas. Não se sabe, no entanto, o que teria causado a falta de refrigeração dentro do Hupes.

O superintendente lembra, ainda, que os médicos recomendam que, para realizar qualquer cirurgia, não colocando em risco a vida dos pacientes, com possíveis infecções, a temperatura ambiente ideal é de 20°C, com a equipe médica e pacientes dentro da sala. Sem o sistema de ar funcionando, a temperatura dentro na ala cirúrgica do hospital varia, em média, entre 24,6ºC a 24,8ºC.

“Ontem (terça-feira), uma equipe da empresa licitada que instalou o ar esteve aqui para tentar solucionar o problema. Foi verificado que a temperatura estava voltando ao normal, variando entre 21ºC a 21,6ºC, o que ainda não é o recomendado, já que, com a luzes acesas, essa temperatura tende a aumentar, aumentando também o risco de alguma infecção durante o ato cirúrgico”, explicou. 

Cirurgias
A agente de saúde Ana Claúdia, 44, veio da cidade de Mata de São João, na Região Metropolitana de Salvador (RMS), na companhia do marido, o aposentado Manoel Aquilino, 74. A cirurgia do olho direito dele estava marcada para esta quarta-feira (7), mas, até o início da manhã, os dois não tinham uma resposta sobre a realização da intervenção médica. 

“É algo que tem que ser feito com urgência. A visão do lado esquerdo está muito comprometida e ele precisa muito realizar na direita. Não sabia que o ar não estava funcionando. Não fui avisa por ninguém”, disse Ana. 

De acordo com a assessoria de comunicação do hospital, os pacientes foram avisados sobre os cancelamentos dos atendimentos com até um dia de antecedência.

A dona de casa Dilma Silva, 55, também trouxe o marido, deficiente físico, para realizar procedimento de catarata. Ela também não foi avisada sobre o problema no ar. “Ele, meu marido, veio na semana passada e o médico analisou todos os exames, marcando para hoje (quarta). Até então, não posso reclamar de nada. Mas estou aguardando uma reposta”, disse a dona de casa. 
 

*com supervisão do chefe de reportagem Jorge Gauthier

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