Lesão no fígado por medicamentos como Ivermectina pode tornar covid mais grave

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13.02.2021, 08:00:00

Lesão no fígado por medicamentos como Ivermectina pode tornar covid mais grave

Pacientes que já chegam aos hospitais com problema no órgão correm mais riscos

O novo coronavírus é classificado por pesquisadores como um vírus sistêmico, ou seja, o causador da covid-19 não afeta uma só parte do corpo, mas todo ele, como explica o médico e doutor em processos Hepáticos, Maurício Souza. “O vírus pode agredir o fígado. Até porque ele (fígado) depura as impurezas que porventura entrem no corpo”, comenta.

Leia a reportagem principal: Casos de hepatites causados por Ivermectina assustam hepatologistas em Salvador

Em um paciente infectado pelo coronavírus, diagnosticado com lesão hepática por uso de medicamentos, a doença pode evoluir mais gravemente, diz o médico. Isso porque já há um ataque direto no fígado, provocado pelo vírus, e outro, indireto, pelas inflamações que acontecem no corpo durante a resposta a um corpo estranho - o coronavírus.

Casos de covid-19 podem ser mais graves em pacientes que já chegam aos hospitais com fígado lesionado (Foto: Agência Brasil)

“A gente pergunta se fez uso de alguma medicação fantástica”, contou o infectologista Fábio Amorim, do Hospital Couto Maia, sobre casos de pacientes diagnosticados com covid-19 com lesões no fígado na fase inicial da doença, sem associação com o coronavírus.

O infectologista acredita que há dois riscos adicionais provocados por medicações como a Ivermectina, se usadas para fins alheios aos originais: o efeito placebo provocado no paciente, que pode atrasar a ida dele ao hospital pela crença de que está protegido, e o agravamento da situação clínica da pessoa infectada.

A Sociedade Brasileira de Hepatologia respondeu que não identificou aumento substancial de efeitos graves provocados por medicamentos em pacientes, mas “que não atingiu grandes parcelas da população”. Os casos de hepatite medicamentosa não são de notificação compulsória, o que impede um acompanhamento sistemático. A Sociedade Brasileira de Infectologia disse que não se posicionaria sobre o tema.

Os riscos no futuro
O interesse em saber como estarão aqueles que tomaram doses excessivas de medicamentos e qual será o impacto disso a médio e longo prazo já aparece no meio científico.

O fígado apresenta, em geral, um poder de regeneração eficiente, em casos de lesões leves. Mas, mesmo crises curtas, agudas, podem deixar consequências crônicas. Toda vez em que o fígado é agredido, respostas inflamatórias surgem. E, delas, possíveis cicatrizes - as fibroses.

“Essas fibroses podem aumentar até o ponto de o fígado não aguentar, não funcionar mais”, explica Maria Isabel Schinoni, professora de Medicina da Universidade Federal da Bahia (Ufba) e responsável pelo núcleo de pesquisa clínica de Hepatologia do Hospital Universitário Professor Edgar Santos (Hupes). 

Se pessoas que fizeram uso exagerada de Ivermectina, sozinha ou combinada a outros remédios, sofrerão mais danos ao fígado, só o tempo e as pesquisas dirão, acrescenta a hepatologista. Qualquer substância ingerida em excesso, na verdade, pode causar riscos diretos ao fígado. Mesmo o consumo de paracetamol (muito usado para dor e febre), sem prescrição adequada, é uma delas. "Até um chá de boldo, se você tomar demais, pode ser danoso”, ressalta Schinoni.  

Outra preocupação é o surgimento de superbactérias, organismos que ficam resistentes a medicamentos e podem levar à morte, justamente depois da ingestão excessiva de antibióticos. O uso descontrolado da Azitromicina, supostamente contra a covid-19, pode levar ao surgimento desses organismos, frisa Ana Gales, coordenadora da pós-graduação em Infectologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que estuda superbactérias. 

A Azitromicina é recomendada para casos de infecções no trato respiratório superior, como amigdalite. A eficácia contra a covid-19 também não tem nenhum embasamento científico. Na Bahia, 20 pessoas foram diagnosticadas com superbactérias, no ano passado, segundo a Sesab. Ainda não houve casos em 2021. 

O medo da interação medicamentosa, citado pelos médicos, também acompanha Gales. Os hospitais costumam ter equipes que analisam a prescrição de antibióticos, para evitar excessos. Fora deles, é outra história. Ela justifica: “Tenho um grande temor em relação a isso. O que pode haver são efeitos colaterais agudos e de longo prazo. O resultado disso pode ser um caso tão grave que leve à morte”.

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