Lições que o coronavírus nos ensina

kiko kislansky
19.03.2020, 17:30:54
Atualizado: 19.03.2020, 17:42:07

Lições que o coronavírus nos ensina


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A gente não virou uma grande família de uma hora pra outra. A gente sempre foi. A questão é que agora o universo está nos forçando a perceber isso. É como se ele estivesse dizendo: “será que vocês vão ter que passar por isso pra aprender?”. O universo está nos forçando a compreender lições que já deveríamos ter compreendido faz tempo. Homo sapiens significa homem sábio. Precisamos honrar o nome da nossa espécie. 

Ao invés de pensar: “por que isso está acontecendo conosco?”, podemos começar a pensar “o que isto está nos ensinando?”. Fiz esse exercício e aqui compartilho algumas reflexões que surgiram. 

1.    Somos mais conectados do que imaginamos.
Estamos totalmente interconectados. Um único vírus, microscópico, gerou um caos na humanidade inteira. Os efeitos de algo que acontece do outro lado do mundo chegam até a nossa porta em um período muito curto de tempo. É quase que instantâneo. Precisamos observar os efeitos das nossas ações. Dependemos uns dos outros.  Só com o esforço de todos, poderemos vencer esta batalha. Isso é um grande ensinamento. Além de sermos conectados uns aos outros, todas as dimensões da sociedade estão conectadas de forma sistêmica. A educação afeta a saúde. A saúde afeta a economia. A economia afeta a política. E o ciclo não para. 

2.    A necessidade de compartilhar apenas notícias seguras
Uma parcela grande do medo e angústia da população é fruto da falta de informação consciente. Precisamos buscar informações em fontes seguras para realmente tomar decisões mais conscientes e responsáveis, cultivando o bem-estar de todos. Em tempos de “Fake News”, surge a necessidade absoluta de compartilharmos o caos.

3.    A única coisa permanente é a impermanência.
Tudo pode mudar a qualquer momento. Podemos ser surpreendidos por fatores que jamais imaginaríamos. É importante estarmos preparados em todos os campos das nossas vidas: emocionalmente, fisicamente, financeiramente e espiritualmente. Não dá pra esperar a crise chegar pra começar a cuidar da nossa saúde ou das nossas finanças. Precisamos construir a mentalidade 

4.    Somos mais vulneráveis e frágeis do que podemos imaginar
Achamos que somos os donos do mundo. Que podemos fazer o que quisermos com a natureza. Que podemos fazer o que quisermos com os animais. Que somos superiores. E aí, o momento de crise vem nos mostrar que somos vulneráveis e frágeis. Que não estamos no controle de nada. Que não temos o direito de achar que somos mais importantes que o nosso entorno. É hora de migrar do “egossistema” para o ecossistema. 

5.    Precisamos rever nosso sistema de educação 
“Estude. Tire boas notas. Passe de ano. Faça vestibular. Consiga um emprego. Compre seu carro. Compre seu apartamento. Case. Tenha filhos. Mande eles tirarem boas notas na escola. Mate um leão por dia e seja feliz no final de semana. Se aposente. E acabou.” Nosso sistema incentiva a inteligência intelectual e despreza outras dimensões da inteligência. Inteligência emocional, inteligência corporal e inteligência espiritual: um tripé essencial para passarmos por momentos como esse. Mas ninguém nos estimulou a desenvolvê-lo. A inteligência emocional nos ensina sobre neutralizar emoções negativas e desenvolver empatia, por exemplo. A inteligência espiritual nos ensina a compreender a interconexão entre todos nós. A inteligência corporal nos ensina a cuidar do nosso corpo com amor e respeito. Precisamos reinventar a educação e inseri-los no sistema urgentemente. O foco em tirar boas notas e passar de não vai nos ajudar a construir uma geração capaz de superar desafios como o que estamos vivendo no futuro.

6.    A crise provoca mudança de hábitos
Pessoas começaram a meditar e se conectar com a espiritualidade. Outras, começaram a se preocupar com a sua saúde, que afeta diretamente sua imunidade. Alguns, começaram a apreciar a natureza. Outros, despertaram para a importância da criatividade. A crise transforma. Provoca metamorfose. A origem da palavra crise está ligada à “momento decisivo, que antecede uma mudança”. Nesse caso, o momento decisivo é: vamos aprender com tudo isso ou viveremos um colapso ainda maior lá na frente.

7.    Precisamos valorizar o que realmente importa
Reclamamos de tudo. Focamos no negativo. Brigamos por besteira. Não dizemos “eu te amo”. Vivemos correndo. Agoniados. Estressados. Angustiados. Não estamos acostumados a desacelerar. Talvez precisemos ouvir a terra e repensar nosso ritmo. De uma hora pra outra, precisamos deixar de abraçar as pessoas, pra evitar contágio. E os abraços que não demos? E os beijos que não demos? E os carinhos que não fizemos? Agora, sentimos falta. Estamos tendo que deixar de ser humanos para relembrar o quão humanos precisamos ser. E os profissionais de saúde? Muitas vezes, não valorizamos seu trabalho. Nesse momento, eles e elas se tornam heróis e heroínas de antes dos nossos olhos.

8.    Planejamento é um pilar essencial do crescimento
Tudo pode mudar a qualquer momento. Isso nunca esteve tão claro. E quem não estava preparado? Muita gente não estava cuidando da saúde e agora está. Muita gente não estava cuidando das emoções, e agora está. Muita gente não estava pensando em planejamento financeiro, e agora está. Para crescermos como pessoas e como sociedade, precisamos sair do modo “execução” e adicionar o elemento “planejamento”. 

O grande desejo é que o corona vírus desperte o vírus da consciência e nos fortaleça. Definitivamente, não estamos passando por isso por acaso. Existe um sentido profundo por trás deste obstáculo. Sigamos juntos, acreditando, contribuindo, seguindo as orientações, fazendo a nossa parte e fazendo o que nascemos para fazer: sermos verdadeiramente humanos.
 

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