Mais duas escolas podem trocar de nome após Médici virar Marighella

salvador
01.04.2014, 10:49:00

Mais duas escolas podem trocar de nome após Médici virar Marighella

No embalo, mais duas escolas da capital se movimentam para substituir os nomes de presidentes do período militar por personagens mais “leves” da nossa história

Um quadro branco e preto com o rosto do baiano Carlos Marighella, sobre um armário na sala da diretoria, dá novos ares a uma escola no bairro do Stiep. No mural, atrás da mesa da diretora Aldair Almeida, um cartaz também exibe o rosto do revolucionário, morto em 1969, durante o governo do militar Emílio Garrastazu Médici. Sinais de que, em breve, uma mudança definitiva se instalará por ali. Desde fevereiro deste ano, o antigo Colégio Estadual Presidente Emílio Garrastazu Médici atende pelo nome de Colégio Estadual Carlos Marighella.

No embalo desta mudança, mais duas escolas da capital se movimentam para substituir os nomes de presidentes do período militar  por personagens mais “leves” da nossa história.

No recém-renomeado Carlos Marighella, muita coisa mudou, desde o fardamento até o comportamento de funcionários, alunos e professores. No dia 11 de abril, a fachada, hoje um muro amarelo, ganhará o nome do revolucionário, desfecho de uma mudança que começou no final do ano passado.

Jaqueline (de branco), coma farda que traz o novo nome da escola, pesquisou sobre Médici e Marighella (Foto: Marina Silva)



“Quando eu vi as fotos das torturas e vi o que acontecia depois do AI-5, eu fiquei um pouco chocado com quem foi o presidente Médici. Quando a escola fez o plebiscito, colocaram duas opções de novos nomes: o de Marighella e o de Milton Santos. Escolhemos Marighella”, conta o estudante Bruno Medeiros, 18 anos, que acompanhou o processo de mudança com entusiasmo.

O projeto apresentado pelo colégio à Secretaria de Educação do Estado (SEC), que  atende a mais de mil alunos dos ensinos fundamental, médio e profissionalizante, partiu de professores e da diretoria, mas motivou os estudantes. Até o desejo de mudança, concretizado com um plebiscito em dezembro de 2013, boa parte dos alunos sequer sabia quem era Médici ou Marighella. “A professora Carmem, de Sociologia, fez trabalhos. A   gente pesquisou.Agora, a gente já sabe”, diz Jaqueline Santana, 13, aluna da 7ª série.

Segundo a diretora Aldair Almeida, o processo passou por uma conscientização. “Trouxemos para a comunidade um novo conhecimento sobre o presidente Médici como ditador e também de personalidades que foram indicadas. As pessoas escolheram o nome que representava o oposto da ditadura, a negativa completa”, explica.

Colégio que homenageia Castelo Branco vota mudança ou permanência de nome no próximo dia 25 de abril (Foto: Marina Silva)



Numerosas
Embora sinalize a permanência, ainda que simbólica, de raízes do regime militar brasileiro, escolas e outros espaços públicos continuam a levar nomes de ditadores. Somente em Salvador, quatro colégios mantêm as homenagens aos presidentes do período.

O general Médici, cujo período de mandato - de 1969 a 1974 - ficou conhecido como Anos de Chumbo, ainda dá nome a uma escola municipal, em Paripe. Também há a Escola Municipal Presidente Castelo Branco, no Uruguai, além de duas estaduais: Costa e Silva, na Ribeira, e Humberto de Alencar Castelo Branco, em Periperi.

O antropólogo Ordep Serra acredita que a manutenção dessas nomenclaturas é um atentado à memória dos baianos. “Isso é uma coisa muito negativa, que deseduca. O problema é a violência que se faz ao patrimônio cultural, à memória do povo”, aponta.

Incentivo
A proposta pioneira do Carlos Marighella não ficou apenas no Stiep. Mais duas escolas estaduais em Salvador já começam a se mobilizar para  trocar o nome. É o caso do Costa e Silva, na Ribeira, e do Castelo Branco, em Periperi. Este, inclusive, já tem data para aprovar ou não a mudança na nomenclatura: o dia 25 de abril.

A proposta é que o Castelo Branco, que tem quase dois mil alunos, passe a se chamar Colégio Estadual Nelson Mandela. “Já lançamos desde dezembro para a comunidade escolar a proposta da mudança, por conta de toda a história e do que ele (Mandela) fez e também a nossa realidade, que é o bairro de Periperi, de negros, de exclusão social. Tem a questão da autoestima”, salienta a diretora Olívia Costa. Em 15 de abril, outra audiência já está marcada.

Mas, embora reuniões já tenham sido feitas, inclusive com pais, lá, há alunos que também não sabem quem foi o presidente que hoje dá nome à escola. Aluna da 8ª série, Beatriz Magalhães dos Santos, 13, conta que os professores já explicaram quem foi Castelo Branco, mas ainda há desinformação.  “A professora falou (quem foi ele), mas eu não lembro. Para mim, tanto faz. A diretora explicou o motivo e todo mundo concordou”, diz. Beatriz também afirma não saber quem foi Nelson Mandela, líder da luta antiapartheid na África do Sul.

Não são apenas os alunos que desconhecem o assunto. Há 23 anos, a fisioterapeuta Lavínia Oliveira, 34, mora em frente à escola, mas nunca lhe chamou a atenção que o lugar fosse batizado com o nome do ex-presidente militar. “Acho que deveria manter a cultura do bairro, conservar o que já existe”, considera, pensando que o homenageado era o ex-vereador da capital, José Pires Castelo Branco, morto em 2012.

Sem dor
Diretor do Costa e Silva desde 2007, o professor Jener Freire diz que a maioria dos alunos da escola desconhece a figura do marechal que presidiu o Brasil entre 1967 e 1969. Eles também não questionam o fato. “Raramente se interessam, poucos questionam isso e a maioria nem sabe quem foi um ou outro”, diz.

Mas o desejo de mudar o nome do colégio é antigo. Antes de ser escola, o prédio no Largo da Madragoa abrigava o Convento de Santa Bernadete, que teve como interna Irmã Dulce. Segundo Jener, as freiras foram expulsas pelo próprio Costa e Silva.

Por esse motivo, um dos possíveis nomes a serem apresentados pela diretoria é o da Santa Bernadete. A escola também estuda homenagear Irmã Dulce, Paulo Freire, Abdias do Nascimento e o próprio bairro da Ribeira. O diretor disse que fará a proposta ainda este mês, quando a reforma do auditório for concluída. “O que existia antes era a dificuldade de fazer. A partir do momento que a Garrastazu Médici fez e a gente viu que não foi tão doloroso, ficou fácil”, diz.

Vice-presidente do grêmio, o estudante do 4º ano do curso profissionalizante de Técnico em Enfermagem, Tasciano Silva, 19, se mostra pronto para trabalhar a ideia junto aos colegas. “A escola é um santuário democrático, não pode ter o nome de um ex-ditador. Já pensou se a Alemanha tivesse escolas com o nome de Adolf Hitler?”, questiona.

O secretário estadual da Educação, Osvaldo Barreto, afirma que o governo não faz a mudança diretamente, mas incentiva as unidades que desejam fazer. “Quando a escola tem um nome que é colocado pela comunidade dá um sentimento maior de pertencimento. Se tem uma figura que as pessoas respeitam, até o desempenho (estudantil) pode ser afetado”, argumenta.

A mudança do nome de uma escola precisa ser discutida pela comunidade escolar. Em seguida, é feita uma votação. O resultado é aprovado pelo colegiado, que envia ata à SEC solicitando a mudança. A pasta elabora e publica a portaria com a alteração. Colaborou Ana Paula Lima.


Nomes da ditadura em locais públicos podem sumir
O deputado estadual Marcelino Galo (PT), presidente da Comissão da Verdade no Assembleia Legislativa, apresenta hoje um projeto de lei que busca substituir os nomes de personagens da ditadura de espaços públicos. “Vamos trabalhar para retirar os nomes de todos os personagens nefastos da ditadura militar dos equipamentos e logradouros públicos”, diz.

Cinquenta anos após o golpe, as escolas não são as únicas a homenagearem ex-presidentes do regime. Bairros e prédios públicos da Grande Salvador também lembram os ex-ditadores. No bairro de Castelo Branco, poucos conhecem a história. Uma das exceções é o aposentado Jerônimo Santos, 73. “Já conheci assim, com esse nome, e é em homenagem a Humberto de Alencar Castelo Branco”, arremata.

No Centro, também há uma Avenida Castelo Branco, além do Acesso Costa e Silva. Em Paripe, temos uma Rua Costa e Silva e, no Candeal, uma Alameda. Na Pituba, destaque para a Rua Coronel Arthur Gomes de Carvalho, tido como torturador do regime. Em Lauro de Freitas, na RMS, há ainda uma rua Ernesto Geisel.




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