Marco Maciel fez política com diálogo e conciliação

brasil
14.06.2021, 05:00:00
Antônio Carlos Magalhães e Marco Maciel militaram juntos nas grandes causas nacionais (Arquivo Correio)

Marco Maciel fez política com diálogo e conciliação

Ex-vice-presidente ajudou a moldar história do país nos bastidores

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Marco Maciel ajudou a escrever boa parte da história recente da política brasileira. E a partir da arte da negociação, do convencimento e do exercício do poder construiu uma das carreiras políticas mais sólidas e respeitadas do Brasil. Dizia que não tinha inimigos. “Adversários, poderia tê-los, mas inimigos nunca”. A frase resume o pensamento do pernambucano, um dos mais discretos e hábeis articuladores da história recente do país, morto no último sábado .

Políticos, como ACM Neto, o vice-presidente, Hamilton Mourão, o governador João Doria (PSDB), e os ex-ministros Ciro Gomes (PDT-CE) e Mendonça Filho (DEM-PE), lamentaram a morte do político. O presidente Jair Bolsonaro decretou luto oficial de três dias em todo o país. Desde 2014, Maciel sofria de Alzheimer. Segundo familiares, ele recuperou-se da covid-19 após uma internação em março, mas retornou ao hospital em decorrência de uma infecção. Morreu de falência de múltiplos órgãos. 

“Tudo pode acontecer, inclusive nada” é uma das célebres frases atribuídas ao político. E na vida pública ele foi quase tudo mesmo. Deputado com passagem pela Presidência da Câmara, senador por dois mandatos, governador, ministro no governo de José Sarney, líder do governo no Senado de Fernando Collor, além de vice-presidente nos dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso, entre 1995 e 2002. 

Quem o conheceu diz com toda a certeza do mundo que a política brasileira hoje seria diferente se o advogado, professor de Direito Internacional Público e imortal – sim, era membro da Academia Brasileira de Letras – ainda estivesse na vida pública. Saiu de cena em 2011, quando concluiu o mandato como senador e fechou um ciclo de 44 anos na vida pública. 

Entretanto, a característica mais marcante da vida de Marco Antônio de Oliveira Maciel, falecido aos 80 anos, tem relação com aquilo que ele não foi. “É um vice que não conspira”, definiu-o certa vez FHC. E por não fazer isso, foi responsável por dar ao país estabilidade institucional enquanto ocupou o segundo cargo mais importante da República num país que ainda tinha pesadelos com golpes institucionais e se recuperava de um impeachment. 

“Morreu hoje Marco Maciel. Exerceu a vice-presidência nas duas vezes em que fui presidente. Se me pedirem uma palavra para caracterizá-lo diria: lealdade. Viajei muito, sem preocupações. Marco exercia com competência e discrição as funções que lhe correspondiam. Deixa saudades”, escreveu o ex-presidente Fernando Henrique.

Ele assumiu 87 vezes a presidência, como interino. Sentou mais tempo na cadeira presidencial do que, por exemplo, Jânio Quadros. 

Além de uma carreira respeitável, a política uniu Marco Maciel e a socióloga Anna Maria, com quem tiveram três filhos, Gisela, Cristiana e João Maurício. O contato que culminou em um casamento de 54 anos se deu a partir da necessidade do então estudante de Direito na Universidade Federal de Pernambuco fazer um acordo com outras forças políticas da vida acadêmica na disputa pela reeleição ao cargo de presidente do Diretório Central Estudantil (DCE). 

Da reeleição como líder estudantil para cá, Maciel usou como poucos a arte de negociar e se inseriu em momentos chaves na história do Brasil. Destaque para a sua participação na formação da Frente Liberal, em 1984. O pernambucano era um dos nomes que lideranças do PDS cogitavam para a disputa presidencial, mas acabou unindo-se aos dissidentes contra Paulo Maluf e a favor de Tancredo Neves, candidato de oposição ao regime militar. 

Presidente do Conselho da Rede Bahia, o ex-senador Antonio Carlos Júnior (DEM) era convencional da Frente Liberal na época. Ele lembra que Maciel e o ex-senador Antonio Carlos Magalhães fizeram um acordo. “Uma parte saiu para formar a frente, mas outros políticos, incluindo Antonio Carlos, permaneceu para convencer os parlamentares do PDS a votar em Tancredo. Só depois saíram e formaram o PFL”, lembra. 

Os partidários de Tancredo queriam como candidato a vice um nome da Frente Liberal, que posteriormente daria origem ao Partido da Frente Liberal (PFL), atual Democratas (DEM). O maranhense José Sarney, atualmente no MDB, foi o escolhido, porém a indicação dele foi para Marco Maciel. No governo Sarney, o pernambucano exerceu primeiro o cargo de Ministro da Educação, até ser transferido para a chefia da Casa Civil, até 1987. 

O presidente nacional do Democratas, ACM Neto, o papel do político pernambucano na formação do partido.

“Marco Maciel foi um dos fundadores e um dos mais importantes quadros do nosso partido. Com sua exemplar atuação na vida pública, escreveu uma história irretocável de dedicação ao nosso país”, afirmou. “Ele será lembrado para sempre pelo que fez pelo Democratas e pelo que fez pelo Brasil”, acredita. 

Homem de diálogo

O prefeito de Salvador, Bruno Reis (DEM), destacou a capacidade de diálogo de Maciel.

“Um dos fundadores do nosso partido, dedicou a vida na construção de um país melhor”, disse em mensagem nas redes sociais.

O vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB) classificou Marco Maciel como um "político com extrema capacidade de negociação e dotado de espírito público" e afirmou que ele "contribuiu para o engrandecimento do Brasil, sempre pautado pela ética e probidade".

O ex-presidente Michel Temer (MDB) lamentou a perda de quem chamou de "pacificador e cultor das instituições e do federalismo".

“Marco Maciel dignificou a classe política com seu espírito público, seu preparo intelectual e a boa prática administrativa”, afirmou.

Em nota, o ex-presidente Lula (PT) prestou sentimentos a amigos e familiares de Maciel.

O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), também lamentou. Segundo ele, Maciel foi um "homem de espírito público, aberto ao diálogo, um democrata".

O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), disse que a partida de Maciel "inflige enorme perda para a política brasileira e a arte da conciliação".

"Marco Maciel deixou marcas na história do Brasil nas últimas décadas como jurista, parlamentar, governador e vice-presidente da República. O país perde um grande brasileiro, com elevado espírito republicano", disse o presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Luiz Fux.

“No momento que o país precisa construir consensos, o Brasil perde o maior símbolo da política do diálogo: o pernambucano Marco Maciel. O Democratas perde um de seus maiores líderes. Perco um amigo, conterrâneo e exemplo de ética a ser seguido. Uma referência pessoal e política”, escreveu o ex-ministro da Educação, Mendonça Filho (DEM), em sua conta no Twitter.

O ex-governador do Ceará, Ciro Gomes (PDT), ressaltou o “espírito público” de Maciel. “Lamento a morte do ex-vice-presidente do Brasil, Marco Maciel. Homem decente e de espírito público, dignificou as melhores tradições pernambucanas na política brasileira”, disse.

Já o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PSD), declarou que o Brasil está “no auge da falta de racionalidade  e da incapacidade de construir consensos” e perde “um homem público brasileiro cuja trajetória foi marcada por essas qualidades”.

Reforçando a natureza amistosa do ex-governador de Pernambuco, Paulo Teixeira, secretário geral do Partido dos Trabalhadores (PT), disse que Maciel foi “um homem que se notabilizou pela valorização do diálogo”. Em seguida, prestou condolências à família do político.

O ex-deputado federal Ney Lopes conta que em 1975 quando foi eleito pela primeira vez tornou-se vizinho de apartamento de Marco Maciel, a quem chamava de "mapa do Chile", carinhosamente, "por parecer fisicamente com os traços geográficos do país de Pablo Neruda". 

“Maciel era liberal convicto. Tinha amizade com todos os grupos. Nunca conspirou contra as esquerdas. Tornou-se amigo pessoal de Oscar Niemeyer, comunista confesso e usava a veia do conciliador”, contou Lopes em um artigo escrito em setembro de 2020.

Convívio criou amizade de longa data 
“Um amigo da família” são as primeiras palavras do presidente da Rede Bahia e ex-senador Antonio Carlos Júnior à respeito do ex-vice-presidente Marco Maciel. Antes de ressaltar qualquer uma das qualidades do homem público, apontado por Júnior como “um mestre nos bastidores”, vêm as lembranças de décadas convivendo de maneira fraternal. 

“O senador Marco Maciel e Antonio Carlos, meu pai, fizeram muita coisa juntos por este país, mas eu também tive a oportunidade de conviver com ele durante os dois períodos em que exerci o mandato de senador”, lembra. No último período, de quatro anos, Antonio Carlos Júnior conta que pôde aprender bastante com Marco Maciel na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). 
Antonio Carlos Júnior conta que graças à capacidade de diálogo do ex-companheiro de Congresso Nacional situações com potencial para se tornarem grandes problemas acabavam sendo resolvidas sem maiores traumas. 

“Com toda a certeza, se nós tivéssemos ele na vida pública brasileira atualmente seria muito mais fácil ver esses polos antagônicos que nós vemos hoje dialogarem”, acredita. “Era um intelectual, alguém com quem a gente tinha muita facilidade de lidar e muito respeitado até pelos seus adversários”. 

O presidente nacional do Democratas, ACM Neto, diz ter aprendido muito com a trajetória do líder político. “Marco Maciel foi uma liderança capaz de motivar políticos de todas as idades. Hoje, envio toda solidariedade e carinho aos familiares e amigos deste grande líder”, afirmou. O ex-prefeito de Salvador contou que o político foi uma de suas inspirações no início da vida pública. 
 

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