Mateus Mendonça: 'Precisamos repensar nosso modelo de produção e consumo'

agenda bahia
27.08.2017, 05:30:00
Atualizado: 27.08.2017, 17:01:01
Mateus Mendonça já desenvolveu projetos com cooperativas de catadores e catadoras de material reciclável na Bahia (Acervo Pessoal)

Mateus Mendonça: 'Precisamos repensar nosso modelo de produção e consumo'

Empreendedor vai mostrar no Fórum Agenda Bahia de que forma a mobilização cidadã pode gerar ações de impacto positivo nas cidades

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O empreendedor Mateus Mendonça desenvolve, há dez anos, projetos de integração dos elos da cadeia produtiva da reciclagem, com foco na figura dos catadores e catadoras de material reciclável, o elo mais vulnerável dessa corrente.

Na Bahia, ele já trabalhou com seis cooperativas e uma indústria recicladora; além de atuar em um projeto que também acontece em Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador, de gestão de resíduos sólidos de um grande grupo varejista de alcance nacional.

Em São Paulo, onde fica o escritório da empresa da qual é cofundador, a Giral Viveiro de Projetos, está à frente de uma iniciativa inédita: a primeira rua 'lixo zero’ do Brasil. A meta é que todos os resíduos gerados pelos moradores e empreendimentos comerciais do local sejam reciclados.

Mateus é sócio-diretor de Inteligência de Recursos da Giral Viveiro de Projetos e especialista em sistemas inclusivos, participativos e descentralizados para gestão de recursos recicláveis. Atua no design de estratégias, metodologias de investimento, suporte e aprendizagem para o desenvolvimento e inserção de cooperativas de catadores e catadoras de materiais recicláveis nos sistemas de gestão de resíduos sólidos da América Latina. Também presta consultoria para grandes empresas em projetos de sustentabilidade.

Nessa conversa com o CORREIO, Mateus, que estará em Salvador para o Fórum Agenda Bahia 2017, fala sobre sustentabilidade, Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), empresas que investem em programas socialmente responsáveis e do projeto na rua Laboriosa, na Vila Madalena, que vêm demonstrando a importância do engajamento cidadão para mudanças positivas nos grandes centros urbanos, tema da sua conferência no seminário Cidades, que acontece em 30 de agosto. 

O Fórum Agenda Bahia 2017 é uma realização do CORREIO, com apoio institucional da Prefeitura Municipal de Salvador (PMS), Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb) e Rede Bahia; patrocínio da Coelba e da Odebrecht; e apoio da Revita.

Confira a entrevista completa:

A lei que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos é de 2010. Na sua opinião, de lá para cá, o que já mudou no país e o que ainda falta para que todos os municípios brasileiros possam gerenciar melhor a questão do lixo?

Mudou a consciência da população e das empresas a respeito do tema. Há também maior reconhecimento, mesmo que ainda insuficiente, do papel dos catadores e catadoras de materiais recicláveis. Aumentaram as ações do Ministério Público em torno de irregularidades frente à questão. Falta preparo técnico e aderência aos planos nacionais, estaduais e municipais. Falta também uma nova cultura que leve à descentralização, maior transparência no orçamento público e indicadores de gestão dos sistemas de limpeza urbana.

A PNRS trouxe o conceito de responsabilidade compartilhada, envolvendo desde fabricantes até comerciantes, os serviços públicos de limpeza e a população. No entanto, nessa ponta, que é a do consumo, ainda falta consciência tanto na quantidade do que é consumido quanto no descarte correto das sobras. De que forma o cidadão pode se engajar mais?

Acredito que a cultura do consumo está mudando em alta velocidade! Nos grandes centros cresce a oferta de alimentos menos processados e o relacionamento com sistemas que priorizam a relação direta com os produtores, mas isso ainda é uma cultura de nicho. Conscientizar a população acerca de hábitos alimentares mais saudáveis, consumindo menos alimentos processados e embalagens e criando uma cadeia de produtos e serviços que viabilize essa cultura é necessário. Quanto aos alimentos processados/embalados, a indústria de embalagens vem evoluindo, mas há um descompasso entre as novas tecnologias adotadas, em termos de materiais de embalagem e a indústria de reciclagem. Muitos materiais ainda são criados sem que exista a possibilidade de reinserção no sistema de reciclagem, viabilizando a economia circular. 

E o que falta para as pessoas incorporarem a cultura de produzir menos lixo?

Falta educação acerca dos impactos do “lixo” e das possibilidades de minimização desses. O ato de “jogar fora” deve ser banido da nossa cultura, pois não existe fora! A separação dos resíduos em casa em três frações (recicláveis, compostáveis e inservíveis) e o adequado sistema de coleta seletiva por parte da prefeitura com descentralização territorial, integração de remuneração de novos atores deve avançar para que a população ressignifique sua relação com o que ainda chamamos de “lixo”.

A sustentabilidade ainda é possível diante da realidade mundial e do impacto das atividades humanas sobre o planeta? O que precisa ser feito de mais urgente, principalmente em relação ao lixo que produzimos?

No último dia 2 de agosto nossa demanda anual de recursos naturais superou o que a Terra pode regenerar em 2017. Ou seja, consumimos mais do que nosso planeta pode fornecer. Reduzir a geração de resíduos, reutilizar e reciclar são medidas importantes, mas, de fato, precisamos repensar nosso modelo de produção e consumo. Reestruturar o sistema produtivo, descentralizando os cluster industriais e adotar sistemas locais de gestão de recursos e resíduos com maior nível de participação e controle social, maior transparência da origem da arrecadação e destino dos investimentos públicos e privados na execução dos serviços públicos é essencial para estabelecermos um novo modelo de gestão e governança na sociedade.

A indústria, nesse caso, está melhor adaptada às diretrizes da PNRS, até porque percebeu que a reciclagem abre outras possibilidades de negócios e gera lucro?

Em partes. As demandas de investimentos em algumas cadeias de reciclagem são elevadíssimas. Os custos logísticos são exorbitantes, dado, em partes, pelo tamanho do nosso território e pela concentração do parque fabril. Alguns materiais, como vidro e metal, utilizam as mesmas plantas fabris dos materiais virgens, mas estão concentrados regionalmente, dificultando a logística reversa de recursos recicláveis gerados em locais mais distantes, como Rio Branco, Manaus, Belém, Porto Velho… Mas, não precisamos ir tão longe. Por exemplo, recuperar os resíduos de vidro produzidos em Brasília ou mesmo em Salvador representa hoje um desafio em termos de custos. Algumas vezes é mais barato produzir material virgem que reciclar. É preciso desmistificar a versão de que o valor presente nos materiais cobre todos os custos da cadeia de logística reversa. É preciso mais investimento no serviço de limpeza urbana (coleta seletiva, segregação e beneficiamento de recicláveis). Para se ter um a ideia, um cidadão de Munique paga sete vezes mais do que um brasileiro pelo serviço. A indústria de reciclagem é rentável às custas de uma cadeia desestruturada e informal, sustentada pelo esforço e sacrifício dos catadores e catadoras de materiais recicláveis e pela informalidade dos ferros-velhos e sucateiros.

Você presta consultoria para empresas sobre sustentabilidade, gestão de resíduos e negócios de impacto social. Existe uma sensibilização maior das grandes marcas sobre a urgência de mudar a forma como a sociedade se relaciona com os recursos do planeta?

Sim, existe. Mas nem todas as empresas e mesmo consumidores/cidadãos são conscientes dos impactos que causamos com nossas escolhas. Sensibilização não basta! É preciso ação racional e investimentos. O poder público municipal tem muita responsabilidade nessa transição, pois é, constitucionalmente, o responsável pelos sistemas de limpeza urbana. Mais transparência na arrecadação e uso dos recursos (quem sabe de onde vem o dinheiro para financiar a limpeza urbana?), métricas efetivas para fiscalização dos serviços contratados (varrição, coleta, destinação) e investimentos massivos em educação ambiental e fiscalização. Só assim conseguiremos mudar nossa cultura de “jogar fora”. 

A figura do catador de reciclagem ainda é marginalizada, com a associação dessa atividade a condições de vida precárias, principalmente no Nordeste, onde ainda proliferam lixões a céu aberto. Você tem projetos voltados para os catadores, com cooperativas e estratégias de geração de negócios. Como iniciou esse trabalho e quais os resultados positivos já obtidos?

Trabalho há mais de 10 anos no desenvolvimento e integração dos elos da cadeia produtiva da reciclagem. Iniciei esse trabalho dentro de uma grande empresa de cosméticos, a Natura, que, alertada pela Anvisa dos riscos sociais existentes na mão de obra dessa cadeia, iniciou um processo de homologação e rastreabilidade dos insumos de PET Reciclado que utilizávamos em uma embalagem de cosmético. Isso aconteceu na Bahia, com mais de seis cooperativas e em parceria com uma indústria recicladora, a Bahia PET. O último resultado positivo que temos do nosso trabalho é a consolidação de uma parceria entre uma cooperativa e um grande ator do setor varejista, a Via Varejo (Casas Bahia e Ponto Frio) onde iniciamos, há dois anos, uma operação cooperada para gestão da Central de Resíduos do Centro de Distribuição Nacional do grupo, em Jundiaí. 

A Bahia também entra nessa fase?

O projeto está em expansão e também acontece em Camaçari, em parceria com uma cooperativa baiana. O projeto nos trouxe demandas de estruturação de um método de aprendizagem e, com isso, estamos lançando agora o Laboratório de Práticas em Reciclagem Inclusiva, o RecicLab. Essa iniciativa, desenhada com mais de 60 catadores conta com 16 aprendizagens essenciais para uma boa gestão e operação de cooperativas de fato. O material desenvolvido conta também com manuais de orientação dos facilitadores para inovar no método educacional e superarem os obstáculos, como por exemplo, a alfabetização, muitas vezes presentes no público de catadores e catadoras. Gerenciamos mais de 20 indicadores de resultados dentro das organizações e, um dos mais importantes, é a Renda Média gerada. A cooperativa modelo apoiada por nós tem hoje mais de R$ 2.000,00/mês/catador nesse indicador. O turn over é próximo de zero (1%). E um fundo garante todos os benefícios que um funcionário CLT teria: férias remuneradas e participação por tempo de cooperação. 

Sobre o 'Rua Lixo Zero', quando o projeto foi implementado na rua Laboriosa, na Vila Madalena? Demorou muito para engajar todos os moradores? Quais foram as maiores dificuldades e resistências?

O projeto teve início em 2015. O engajamento e resgate do senso comunitário e da convivência são os maiores desafios. Mudança de hábito, especialmente com o “lixo” não é fácil e simples. Mas não desistiremos desse grande desafio. Como sempre, convencer os moradores que separar para a coleta seletiva não demanda mais espaço; que o caminhão da coleta seletiva passa apenas uma vez por semana, mas que a fração seca não gera mal odor; que podemos compostar em conjunto na nossa composteira comunitária, na porta do escritório, foram as maiores dificuldades. 

O projeto já tem dados de quanto era gerado de lixo antes da implantação?

Por falta de recursos e incentivos, não conseguimos gerenciar a série histórica de dados. A Autoridade Municipal de Limpeza Urbana e a Prefeitura Regional não nos autorizaram na implantação de um Ponto de Entrega Voluntária de Resíduos na esquina da rua. Esses são obstáculos que também precisam ser superados. Precisamos respeitar a diversidade dos munícipes e as diferentes formas de organização da comunidade para provermos serviços adequados à população. Descentralizar é a solução.

Essa experiência poderia ser implantada em outros locais, em larga escala, como em ruas maiores e até mesmo cidades inteiras? O que seria preciso?

Com certeza! Vontade política, abertura do governo e muita energia para conversar, esclarecer, conscientizar e mobilizar a comunidade para a mudança de hábitos. Estímulos positivos como descontos no IPTU para quem destina corretamente também seriam boas iscas para a mudança! Não podemos pensar só em multa e punição.

De que forma a tecnologia e a inovação podem ajudar para uma gestão mais eficiente dos resíduos sólidos?

Smart Cities, Internet das Coisas e Big Data são conceitos chave para auxiliar essa transparência que falo e busco no setor. O governo de Barcelona tem adotado práticas exemplares nesse sentido. A informação proporciona participação qualificada dos cidadãos. 

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