Memórias póstumas de um campeão olímpico

artigo
12.08.2021, 05:04:00

Memórias póstumas de um campeão olímpico

Guimarães Rosa no conto A Terceira Margem do Rio traz uma passagem digna de anotação: “(...) e, se, por um pouco, a gente fazia que esquecia, era só´ para se despertar de novo, de repente, com a memória, no passo de outros sobressaltos”. Se todo esquecimento servir para despertar a memória que não deveria ser apagada, Adhemar Ferreira da Silva figuraria no lugar que sempre mereceu, que é o topo do pódio da história de grandes personalidades brasileiras.

 
Negro de origem pobre, primeiro bicampeão olímpico do Brasil, ator, diplomata, jornalista, estudante de direito, escultor e funcionário público. Um homem ovacionado no exterior, esquecido em um país sem memória.  Em período de jogos olímpicos, em meio a uma pandemia que deixou mais de meio milhão de brasileiros sem vidas, as histórias de atletas brasileiros tem despertado paixões e encantos, trazendo um pouco de felicidade em um momento de grande tristeza nacional. Mas antes da pequena Rayssa Leal, da determinação de Ítalo Ferreira e da superação de Rebeca Andrade, tantas outras estrelas mereciam a memória de todos nós. Não tenho dúvida de que a história de Ademar seria a maior de todas elas. 

Escolho falar de Adhemar Ferreira da Silva não somente porque não conhecia sua história, mas porque todas as brasileiras e todos os brasileiros deveriam conhecê-la. Não saber quem foi Adhemar é desconhecer a história de uma pessoa negra, de um atleta recordista, de um ator que fez parte de um elenco de um filme vencedor de um Oscar, de um menino pobre que aprendeu diversas línguas, um artista que era apaixonado pela música e pelas belas artes. Apagar a história de Adhemar é tirar a oportunidade de crianças e adolescentes sonharem com a possibilidade de mudança. Lembrar Adhemar nos livros, na televisão, nas rodas de conversas e nas redes sociais é afirmar que a história do país é feita por negros também.
 

“Um povo sem memória é um povo sem história. E um povo sem história está fadado a cometer, no presente e no futuro, os mesmos erros do passado”. Essa célebre frase da historiadora Emília Viotti da Costa sintetiza o futuro de nossa nação que não conhece a história desse brasileiro digno de homenagens, museus, documentários, estátuas e narrativas. 

Diego Pereira é doutorando em Direito Constitucional pela UnB, mestre em Direitos Humanos pela UNB, pós-graduado em Direito Público. É procurador federal e autor da obra Vidas interrompidas pelo mar de lama (Lumen Juris, 2ª Ed., 2020). É também professor em Curso de Direito, costuma escrever sobre direito, literatura e cotidiano.

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas