Mesmo com praias liberadas, soteropolitanos insistem em ir às interditadas

coronavírus
21.09.2020, 21:37:00
Atualizado: 21.09.2020, 21:51:36
(Tiago Caldas/CORREIO)

Mesmo com praias liberadas, soteropolitanos insistem em ir às interditadas

Quem foi para as praias livres de restrições, aproveitou para matar a saudade do mar

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Muitos soteropolitanos aproveitaram a reabertura das praias de Salvador nesta segunda-feira (21). Mas teve gente que, já no primeiro dia, descumpriu algumas normas estabelecidas pela prefeitura para esse retorno. Mesmo com outras praias com acesso liberado, muitos cidadãos preferiram ir para as que só abrem de terça à sexta.

Também teve gente sem máscara na faixa de areia e um pessoal que insistiu em participar de práticas esportivas coletivas. Todas essas ações estão proibidas no protocolo de retorno. Praias de Itapuã e de outros locais, como São Tomé de Paripe, Tubarão, Amaralina e Ribeira - que só foram liberadas a partir de terça - lotaram. Na Barra, pela manhã, o movimento foi tímido.

Em Itapuã, quando questionado sobre o porquê de escolher uma praia que não estava liberada na segunda-feira, um banhista, que não quis se identificar, disse não concordar com a restrição. "Aqui não pode e, em Piatã, pode? Eu não entendo e não concordo. Esse negócio de liberar apenas algumas em dias diferentes não faz sentido. Temos a mesma condição de nos proteger aqui e lá", defendeu.

Quem participava de uma roda de altinha com mais de cinco pessoas também não viu problema em descumprir os ordenamentos.

"Tá todo mundo distante um do outro", argumentou outro cidadão.

A prática esportiva só está liberada para quem realizar as atividades individualmente ou em dupla.

Sobre os descumprimentos de Itapuã, Marcelo Silva, inspetor geral da Guarda Municipal de Salvador (GCM), afirmou que o problema foi identificado em outras praias e lamentou a falta de compreensão dos banhistas.

"Em São Tomé de Paripe, Tubarão, Amaralina e Ribeira, que também não estão liberadas na segunda-feira, presenciamos algo parecido. As pessoas, mesmo com praias liberadas, insistem em descumprir as regras. Se você pensar em Itapuã, por exemplo, é fácil perceber que Piatã, que está liberada e é do lado. Difícil entender o porquê dos soteropolitanos continuarem desobedecendo as normas ainda que a cidade já esteja em processo avançado de liberação", fala.

Itapuã lotou mesmo com acesso proibido nesta segunda-feira
(Foto: Tiago Caldas/CORREIO)

O inspetor geral declarou que as ações de retirada dos banhistas por parte da GCM continuarão acontecendo em dias e praias com restrição. "A gente passou hoje fiscalizando e vai continuar passando com o cordão de agentes para se fazer cumprir as normas do protocolo de retorno. Nesse momento, a nossa ação nos dias e nas praias com restrição é ainda mais necessária e prosseguirá", garante. 

Segundo informações da Guarda Municipal,  a operação que fiscaliza o retorno dos banhistas se estende por 50km de orla e envolve 60 agentes, 12 viaturas e 6 motos. A iniciativa substitui à operação Tira o Pé da Areia, que aconteceu entre os meses de março e agosto, quando as praias permaneceram fechadas.

Volta feliz
Para quem respeitou a interdição das praias desde março e foi para as praias liberadas, o retorno foi só alegria. Com a família, acompanhado de amigos ou mesmo sozinhos, o pessoal que não quis esperar nem mais um dia para dar um mergulho no mar, tomar aquele famoso 'banho de sol' e aproveitar a brisa litorânea. Ficou com o sorriso de orelha a orelha na areia e no mar.

Sem pisar na praia desde o começo da pandemia, Eliete da Paixão, 40 anos, confessa que estava em contagem regressiva desde a notícia de reabertura. A promotora de eventos afirma que era presença garantida na orla soteropolitana antes das proibições.

"Eu estava esperando e desejando muito o retorno. Contando as horas, meu filho. Praia é a melhor coisa da cidade. Sentir essa calmaria, o vento, tomar um banho. É uma coisa gostosa demais que fazia. Aqui, na nossa cidade, tem praia e carnaval. É o que o soteropolitano ama. Não pode ficar sem", declara.

Quem também não se aguentava mais de saudade é Gisele Nascimento, 27, que foi até Piatã com o marido e a filha para aproveitar a tarde ensolarada. A autônoma aproveitou o dia de folga para voltar a frequentar a praia que costuma ir.

"Oxe, estava numa saudade danada. Pra gente, que vem sempre, foi muito duro ficar tanto tempo sem ir à praia. Seis meses fora disso aqui é uma tortura que, felizmente, passou. É a melhor coisa que a gente tem pra fazer. Trazer as crias e brincar com eles na água assim não tem preço", diz.

Gisele foi à Piatã com o marido e a filha
(Foto: Wendel de Novais/CORREIO)

E não foi só Gisele que levou os filhos para se divertir na praia. Outros pais aproveitaram a liberação para levar os pimpolhos de volta para um espaço costumeiro da criança soteropolitana. Marcos de Alcântara, 41, foi um destes. O barbeiro disse que estava com saudade, mas não se comparava aos filhos que estavam agoniados para tomar banho de mar e fazer castelo de areia.

"A ansiedade era muito grande por parte das crianças que estavam com saudade disso aqui. Eu costumava trazer eles toda a segunda-feira quando não existia esse vírus. E, com isso tudo que rolou, teve que dar uma parada, infelizmente. Bom demais ver o sorriso de felicidade de cada um na água", relata.

Marcos levou os filhos, que estavam ansiosos pelo retorno
(Foto: Wendel de Novais/CORREIO)

Andressa Falcão, 18, ficou tão emocionada com a volta que levou logo o tombo ao chegar em Piatã. "Cheguei tão agoniada pra entrar que caí no banco de areia, mas tá tudo bem comigo. Já tem muito tempo sem vir pra praia, seis meses é demais. Voltar e aproveitar tudo que esse lugar nos oferece é muito bacana. A reabertura vai acalmar os nervos de todo mundo. O ambiente daqui deixa as pessoas mais tranquilas e alivia o estresse do dia a dia", afirma a estudante de publicidade.

Andressa estava agoniada pelo retorno da praia
(Foto: Wendel de Novais/CORREIO)

Barraqueiros de volta
A alegria dos banhistas se estendeu também para quem vive do comércio realizado nas praias. Os barraqueiros, ainda que não pudessem colocar barracas na areia e tivessem seu comércio limitado às calçadas da orla, afirmaram que a volta é um avanço importante para o seguimento.

"Liberando e flexibilizando para os banhistas ajuda a gente. Pra quem depende da atividade, o retorno, mesmo com essas limitações que esperamos que deixem de existir como tempo, já é muito importante porque são passos que estamos dando rumo a volta ao normal", opina o comerciante Edinael Silva, 32.

Janete de Santana, 19, também ficou contente com a volta, mas pediu mais flexibilizações e a volta das barracas na areia mesmo que em número limitado. "Olha, eu acho que é importante a retomada das praias. A gente sobrevive daqui. A volta tá sendo razoável, as pessoas ainda estão com um pouco de medo de coronavírus. Como o movimento tá meio fraco e a gente tem todas essas limitações do protocolo, não tá sendo tão bom como poderia. Por isso, estamos pedindo pra deixar colocar pelo menos 5 ou 6 barracas na areia", solicita a barraqueira. 

Os ambulantes, que não poderiam retornar ainda, também apareceram nas areias das praias nesta segunda-feira. Ao longo do dia, foi comum ver os típicos vendedores de acarajé, queijo e picolé que sempre foram figuras cativas no ambiente praiano antes da pandemia.

Mesmo proibidos, ambulantes apareceram nas praias no retorno
(Foto: Tiago Caldas/CORREIO)

Funcionamento das praias

Fechadas: Porto da Barra, Buracão, e Paciência.
Abertas de terça à sexta-feira: São Tomé de Paripe, Tubarão, Ribeira, Amaralina, e Itapuã;
Abertas de segunda à sexta-feira: Todas as praias não citadas anteriormente;
Fim de semana e feriados: Todas as praias de Salvador fechadas;

Regras de reabertura das praias em Salvador

- O distanciamento mínimo de 1,5m entre os frequentadores deve ser observado durante todo o período de permanência nas praias; 

- O uso de máscara é obrigatório para acesso e durante toda a permanência nas praias, inclusive durante a realização de atividades físicas, com exceção feita às atividades aquáticas, momento em que o distanciamento mínimo recomendado entre as pessoas deve ser de 2m; 

- Além da permanência na faixa de areia e no mar, são permitidas atividades esportivas individuais ou em duplas, desde que os participantes usem máscaras durante todo o período; 

- Fica vedada a prática de qualquer modalidade esportiva que envolva mais de quatro participantes, a exemplo de futebol, e de atividades que gerem contato físico; 

- Recomenda-se que para a realização de atividades com uso de bolas e equipamentos lançados, os praticantes devem higienizar as mãos antes do início da atividade e limpar adequadamente os objetos utilizados antes do início e durante os intervalos; 

- Não são permitidas atividades que gerem aglomerações como piqueniques, luaus, eventos, etc.; 

- Fica proibido qualquer forma de comércio ambulante nas praias, inclusive de alimentos e bebidas; 

- Fica proibido o uso de cadeiras, ombrelones, guarda-sóis, sombreiros, caixas térmicas, instrumentos musicais e equipamentos sonoros.

*Sob orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro e da subeditora Fernanda Varela

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