Miliciano não foi morto com tiro à queima-roupa, diz polícia baiana ao contestar Veja

bahia
14.02.2020, 18:39:18
Atualizado: 15.02.2020, 09:31:20

Miliciano não foi morto com tiro à queima-roupa, diz polícia baiana ao contestar Veja

Perícia afirma que lesões causadas por tiros próximo de corpo deixam marcas de pólvora, o que não foi observado na necropsia

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Foto: Reprodução

O Departamento de Polícia Técnica (DPT) da Bahia convocou uma entrevista coletiva nesta sexta-feira (14) para esclarecer detalhes da morte do miliciano Adriano da Nóbrega. A polícia contesta a hipótese de que os dois tiros que atingiram o miliciano foram disparados a curta distância.O perito médico legista Alexandre Silva, responsável pela necrópsia do ex-tenente do Bope do Rio de Janeiro, feita em Alagoinhas, aponta que as marcas deixadas no corpo de Adriano não apresentam características de tiros à queima-roupa.

“Essa questão de 40 centímetros se aplica às armas curtas, o que não foi empregado pelo Departamento de Polícia Técnica. Neste caso, o uso foi de fuzil e a carabina. A gente pode falar que o disparo foi feito a uma distância considerada não curta”, explica o perito, em coletiva convocada após a revista Veja apresentar fotos e análises que vão de encontro com a análise do DPT.

A hipótese de que a morte não ocorreu em um revide, e sim em um ato de queima de arquivo foi levantada após o miliciano ser apontado como chefe do Escritório do Crime, grupo que atua na zona oeste do Rio. Adriano também é citado em uma das investigações de maior repercussão do MInistério Público fluminense: o suposto esquema de “rachadinha” no gabinete do senador Flávio Bolsonaro quando ele era deputado estadual.

O diretor do Instituto Médico Legal Nina Rodrigues (IMLNR), Mário Câmara, informou que disparos realizados a curta distância deixam resíduos de pólvora no corpo, o que não foi observado na necrópsia de Adriano. Somado ao fato da arma do crime ser um fuzil, Câmara afirma que o autor do tiro poderia estar a 2 metros de distância da vítima ao realizar o disparo.

“Em armas de alta energia, como fuzil, não se usa essa distância. Fuzis deixam resíduo a mais de um metro. Somando com o cano e o corpo da arma, o atirador pode estar a 2 metros de distância. Um tiro próximo deixaria zona de tatuagem, ou seja, um resíduo. Uma perfuração à distância não deixa resíduo”, pontua o diretor.

É importante ressaltar que a perícia médica não é capaz de determinar a distância em que o policial atirou contra Adriano. “Para saber a distância é necessário reproduzir o disparo com a arma do crime uma munição similar. Nesse caso, são feitos vários disparos contra um alvo e recua-se até ter o mesmo tamanho de resíduo quando o corpo foi encontrado. Qualquer coisa fora isso, é leviano”, ressalta Câmara.

A zona de tatuagem é causada pelo grão de pólvora que deixa a arma junto com o projétil. Em tiros realizados perto da vítima, o material fica alojado entre a epiderme - a camada mais externa da pele - e a derme - a parte subsequente do tecido. Este é o mesmo local em que a tinta da tatuagem é inserida - por isso, o nome.

A hipótese de que um cano de arma longa e de grosso calibre teria causado um queimadura do lado esquerdo do peito de Adriano também é refutada pelo DPT. O diretor do IML informa que a lesão é uma equimose, ou seja, uma mancha provocada por uma pancada.

Câmara afirma que a marca no corpo de Adriano tem diâmetro interno de 4 cm, diâmetro externo de mais de 12 cm e um segundo halo externo de 13 cm. De acordo com o diretor, isso refuta a hipótese de que uma arma foi encostada no peito do miliciano. “Não tem cano de arma com esse diâmetro, só se for uma bazuca”, disse.

Também não é possível determinar se a equimose foi causada de forma ativa, ou seja, com um pancada provocada por um terceiro, ou foi fruto de uma causa passiva - se Adriano caiu em algum objeto circular.

Ainda segundo o DPT, a lesão na cabeça de Adriano é corto-contusa, o que significa que foi feita por um material que machuca e corta. Ainda de acordo com o departamento, o ferimento foi realizado após a morte do miliciano.

“O ferimento da cabeça é em forma de quina, além do corte. A lesão continua em ângulo de 90 graus para baixo na região frontal da cabeça”, aponta Câmara. “O ferimento foi feito depois da morte, entre o socorro e a funerária a cabeça dele bateu em algum lugar”, afirma o diretor.

Pela necrópsia não é possível determinar a cronologia exata dos tiros ou o tempo de sobrevida de Adriano. De acordo com o perito Alexandre Silva, a médica que atendeu o miliciano informou que ele chegou ao hosital já sem vida. "Ele teve algum tempo de sobtrevida, não se sabe exatamente o tempo", afirma Silva.

A necrópsia pode apontar, entretanto, que houve um confronto policial na cena do crime. As marcas analisados pelo legista não apontam para sinais capazes de confirmar execução, ressalta Câmara. De acordo com a perícia, também não foram encontrados sinais de tortura no corpo do miliciano.

A perícia aponta que a Adriano recebeu dois tiros, um no peito esquerdo e outro acima da clavícula direita. A hipótese de um terceiro tiro na região do pescoço do miliciano, que foi apontada pela Veja, também é refutada pelo DPT.

O perito responsável pela necrópsia de Adriano aponta que a lesão abaixo da mandíbula é uma continuação do tiro que perfurou o tórax do miliciano. A perícia ainda pontua que um tiro de fuzil no queixo de uma vítima transfiguraria o miliciano, o que não ocorreu.

“O disparo no lado torácico esquerdo perfurou o tórax quebrando costelas, lacerando o pulmão e o coração. O projétil saiu na parte superior do tórax e depois entrou de novo na mandíbula. A bala para na região da mastóide (na região da orelha). A outra perfuração é no lado direito em cima da clavícula. A bala vai para a parte posterior do corpo de onde sai”, explica Silva sem deixar de salientar que o músculo não seria capaz de parar um tiro de fuzil na região do queixo.

Região vive clima de tensão após morte
Investigado pela polícia baiana por supostamente ter dado abrigo ao miliciano Adriano Magalhães da Nóbrega, o fazendeiro Leandro Guimarães desapareceu nos últimos dias, em meio a ambiente de tensão na região. Em Esplanada, o Parque Gilton Guimarães, fazenda onde Adriano se escondeu, aberto e acessível até a quinta-feira (12) foi fechado com corrente a forasteiros. A equipe do Estado tentou achar o fazendeiro. Foi recebida com temor e quase nenhuma informação por moradores.

Leandro Guimarães é uma espécie de celebridade local em Esplanada. Pertence a uma família abastada que, além de promover vaquejadas com prêmios de mais de R$ 100 mil, tem atuação política em Pojuca. Nas duas cidades, os Guimarães são figuras conhecidas. Para descobrir onde moram, basta perguntar no posto de gasolina, na lanchonete ou na beira da estrada.

Em Pojuca, um dos irmãos de Leandro, Lucas José Abreu Guimarães, é secretário de Serviços Públicos e Meio Ambiente, além de filiado ao PDT. Leandro tem filiação ativa no Podemos desde 2003 "São meninos bons", disse uma vizinha, sem se identificar.

O envolvimento - ainda nebuloso - de Leandro com o miliciano foragido da Justiça do Rio intriga moradores das duas cidades. Na fazenda de Esplanada, os funcionários demonstravam preocupação com o futuro, já que não veem o patrão desde o sábado (8). Foi quando policiais prenderam Leandro por porte ilegal de arma. Esta semana, ganhou da Justiça a liberdade, com uso de tornozeleira eletrônica e pagamento de fiança. "Leandro arranjou um problemão pra ele, vai ser difícil se explicar", disse um funcionário.

* Com orientação do chefe de reportagem Jorge Gauthier

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