'Moramos no meio da guerra’', desabafam moradores do Engenho Velho da Federação

salvador
30.06.2020, 05:30:00
Dezenas de cápsulas de bala resultado do tiroteio de sábado (Foto: Marina Silva / CORREIO)

'Moramos no meio da guerra’', desabafam moradores do Engenho Velho da Federação

Local é palco de uma disputa entre CP e BDM que já dura mais de dez anos; criança foi baleada no domingo (28)

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Na ladeira que carrega "Paz" no nome, as paredes têm marcas de tiro. Perto dali, na rua Xisto Bahia, um menino que ia na pizzaria na companhia do pai acabou atingido por uma bala perdida no último domingo (28). Esse é o retrato do Engenho Velho da Federação, em Salvador, onde o coronavírus não é a principal razão para que os moradores evitem sair de casa.

O local é palco de uma guerra entre facções que já dura mais de dez anos. O Comando da Paz (CP) controla a região mais próxima da Avenida Cardeal da Silva, enquanto o Bonde do Maluco (BDM) concentra suas operações no fim de linha. Ambas têm o objetivo de dominar o bairro e, para isso, formam bandos de até 20 “soldados” e invadem regiões controladas pela facção rival.

Buracos de bala nas paredes da Travessa Ladeira da Paz (Foto: Marina Silva / CORREIO)

A última tentativa de invasão ocorreu justamente no domingo, quando homens do CP entraram atirando nas ruas Xisto Bahia e das Palmeiras, conhecidas como Lajinha e Baixa da Égua, que são dominadas pelo BDM. Como resultado da ação, uma criança de 9 anos ficou ferida. O menino levou um tiro na perna e foi encaminhado para o Hospital Geral do Estado (HGE), de onde já recebeu alta.

“Ao colocar o pé na rua já estamos em perigo. Não tem dia, não tem hora, não tem lugar. Já teve tiroteio até meio -dia por aqui. A única maneira de ficar seguro é se trancar em casa e, ao som do primeiro tiro, correr para se esconder embaixo da mesa. Estamos piores que prisioneiros, pois na prisão há o banho de sol. Aqui nem conseguimos colocar a cabeça na janela”, conta um morador que não quis se identificar.

“Eu já vi a morte de perto. Uma vez, três homens chegaram fortemente armados e me viram na porta de casa. A sorte é que eu estava com uniforme de trabalho e disse que não tinha envolvimento, que era trabalhador. Eles disseram ‘vá, corra sua desgraça’ e eu fugi morrendo de medo de ser baleado pelas costas. Felizmente, Deus me salvou”, lembra.

Para sair em segurança, os residentes criaram uma espécie de linha de comunicação com pessoas em todas as ruas da região. Alguém só sai de casa após todos dizerem que está tranquilo. “Mesmo assim o medo continua. Meu filho mesmo me liga a cada hora perguntando se estou bem”, relata.

“O problema maior é que não temos para onde ir. Não temos dinheiro para comprar uma outra casa, se mudar, fugir. Somos obrigados a viver no meio dessa guerra", diz outro morador.

Dupla do terror
No comando da guerra, estão os “chefões” do CP na região: Kléber Nóbrega Pereira, o Kekeu, e José Henrique de Souza Conceição, conhecido antes como “Rick”, mas agora chamado de “O Pai”. Eles são amigos de infância e estudaram juntos no Colégio Estadual Henriqueta Martins Catharino. Ambos já foram presos por tráfico de drogas e homicídios.

Segundo moradores, juntos, os dois já têm mais de 200 mortes nas costas - incluindo, ao menos, quatro policiais.

“Eles são desgraçados, maus, são raça ruim”, define um morador.

Kekeu e Henrique, líderes do CP na região
 
(Foto: Bruno Wendel / CORREIO / Reprodução)

A dupla começou no tráfico agindo como matadores de elite do CP. Sua escalada ao poder na região começou em 2007, quando Eberson Souza Santos, o Pitty, foi morto pela polícia e Cláudio Eduardo Campanha assumiu a liderança da facção colocando comparsas no comando. “O Pai” e Kekeu chegaram à chefia da Baixa da Égua e do Forno após o grupo perder a “Lajinha” para o BDM.

A marca registrada de Kekeu e Pai é a violência. Moradores contam que eles costumam colocar fogo em ônibus e já chegaram a explodir uma base policial. Toda segunda-feira eles organizam um “tribunal do crime”, julgando e punindo aqueles que não seguem suas ordens.

“Pai é o pior dos dois. Todos os soldados seguem cegamente suas ordens, pois sabem que, se não obedecerem, acabam mortos na segunda-feira seguinte”, detalha outro morador.

A estratégia agressiva da dupla tem funcionado, e o BDM está enfraquecido na região, tanto que recentemente apenas o CP tem atacado. Para aumentar a sua força durante as incursões, o Comando da Paz costuma trazer homens de outras regiões que controla, como o Nordeste de Amaralina, para garantir a superioridade numérica.

O bairro é visto como estratégico por ambas as facções por estar localizado no centro da cidade, próximo a bairros nobres e universidades, além de ter acesso por avenidas movimentadas como a Vasco da Gama.

O que diz a PM
Segundo o coronel Humberto Sturaro, da Polícia Militar da Bahia (PM), o número de disputas territoriais tem aumentado no período da pandemia devido ao fato de diversos criminosos terem sido liberados dos presídios. “Agora eles querem reconquistar locais que perderam antes”, diz.

Durante este período de isolamento social, a Secretaria de Segurança Pública da Bahia (SSP) tem feito apreensões recordistas de armas e drogas, além de erradicação de plantações e laboratórios, o que enfraquece a lógica destes grupos criminosos. 

Especialista em segurança pública e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Rafael Alcadipani explica que, à medida que acontecem estas grandes apreensões, as facções terminam encontrando mais dificuldades, disputando mais drogas e aumentando as rixas. "Acredito que o aumento de apreensão prejudica, digamos assim, o mercado, gera uma maior concorrência e eles acabam disputando", completa.

Após o tiroteio de domingo, o policiamento está reforçado na região, diz a PM-BA, em nota. “Isso não adianta nada. Dois dias depois, os policiais vão embora e os traficantes voltam. É sempre esse ciclo”, lamenta um morador.

Policiamento no local foi reforçado após sábado (Foto: Marina Silva / CORREIO)

*Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro / Colaborou Hilza Cordeiro

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