Mulheres agredidas não denunciam porque têm medo

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21.05.2019, 14:00:00
Atualizado: 21.05.2019, 15:02:16

Mulheres agredidas não denunciam porque têm medo

Era noite, o céu estava coberto de nuvens pesadas. A cidade deserta, todos dormiam, quando de repente, ouve-se um grito, era Belita. 

Todos saíram para ver o que tinha ocorrido. Já não bastasse o cansaço do dia, eu teria que acudir essa mulher que intrigava a todos com seu olhar triste e as confusões diárias. O que seria dessa vez? Essa seria a pergunta que fazia sem querer sair da cama, mas a curiosidade era inerente em mim. Pulei correndo, antes que ficasse calma, não queria perder um segundo, já que tinha acordado.

Ao abrir a porta, deparo-me com uma situação extremamente diferente. Era Belita, totalmente desnuda, nunca esquecerei tal lembrança. Todos a observavam, uns com pavor, outros com desejo; alguns se perguntando o que teria acontecido para que ela aparecesse nua, sempre foi tão recatada. Restava à minha frente, a imagem de uma mulher destruída, humilhada, menosprezada, intimidada.

Sendo assim, quando olho para Belita, a vejo com medo, desesperada, até porque ali se encontra na varanda de sua casa, seu agressor, escondido. Ela o olha com certo temor e põe a chorar, me sinto solidarizada, sensibilizada com sua história. Normalmente o que se ouve nas ruas, nas redes sociais, nas páginas de jornais, e em muitas pesquisas,  como o levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, é que 536 mulheres são agredidas a cada hora.

Violências, assassinatos ocorrem por pessoas próximas, namorados, maridos e/ou companheiros, vizinhos ou desconhecidos. O que se vê são mulheres com medo, com vergonha de denunciar. Práticas como essas são feitas por todo tipo de homens, independente da cultura, raça, religião, classe social, faixa etária, que, de forma perversa, tentam silenciá-las. As motivações são diversas e, algumas vezes, apenas por necessidade de impor dominação.

Em outros tempos, acreditaria que fosse história de novela, mas infelizmente nos deparamos todos os dias com cenas parecidas. Desde os primórdios, a mulher é violentada, são construções sócio-históricas, culturais e socialmente justificadas, alimentando relações hierárquicas, sendo legitimadas pela sociedade. São diversos os tipos de agressão, sendo assim, compreende-se que não é um fato recente, isolado, muitas vezes naturalizado, minimizado, e que, em muitos casos chega a óbito. O que se percebe é o uso da força física, sexual, psicológica, moral, financeira ou intelectual contra a mulher, colocando-a em situação de risco. Constrange-na, humilham, invadem, violam a sua liberdade, inferiorizam, ameaçam, matam, um problema de saúde/ordem pública. Nossa senhora! O caso é mais grave do que parece, o que se vê são relações de poder, de um universo patriarcal.

A sociedade precisa compreender que mulheres violentadas nunca desejam passar por isso. Quando não denunciam, é porque se sentem com medo de que outras pessoas não acreditem em sua história, medo do agressor, de represálias, de serem ridicularizadas, dos seus filhos serem violentados, sentem vergonha. Algumas vezes, chegam a acreditar que, em algum momento, motivaram tal reação, e  denunciando, não haverá resultado, há também as dificuldades para denunciar o caso. Diante de todos esses fatores, muitas mulheres acabam subjugadas, continuando com seu agressor, se submetendo a diversos constrangimentos para manutenção da família. Muitas acreditam que eles podem mudar depois do pedido de desculpas, justificando a violência, por isso, elas acabam dando uma nova oportunidade a este homem que a tanto a faz sofrer. Não podemos julgá-las, mas é preciso estabelecer novo olhar para que nós, mulheres, saibamos lidar e superar a violência.

Assim como Belita, é evidente que mulheres sofrem de violência doméstica, e que de forma estereotipada, dizem que, “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher” ou, algumas vezes, ouvi-se que, “olho por olho, dente por dente”. Há quem diga que, para esse tipo de ato criminal, deveria ter a pena de morte. Cabe salientar que o número de crimes existentes não irá diminuir, mesmo quando a pena de morte for aplicada.

Não irá impedir que surjam novos casos, é preciso fazer diferente, modificando a cultura da violência estabelecida ao longo dos anos, fortalecendo os mecanismos existentes para que impeçam toda espécie de agressão, fazendo-se necessário modificar a forma em que a polícia atua, e, por mais que esteja se aperfeiçoando, ainda se encontra despreparada. É preciso criar estratégias que encorajem mulheres vítimas de violência, auxiliando-as, reconectando-as com o mundo para que compreendam que não estão sós, pois existem muitas mulheres passando pela mesma situação, mas que estão fazendo uma caminhada diferente, estabelecendo novos diálogos acerca da temática, deixando de serem sozinhas e solitárias.

Muitas são e serão as conquistas, mas tais questões precisam ser resolvidas, para além da criminalização, detenção, ou outras formas de punição. Por isso, faz-se necessário promover propostas que transformem, reabilitem também este indivíduo agressor à sociedade, partindo de práticas psicossociais, desnaturalizando qualquer forma de violência, para que nós, mulheres, não fiquem expostas.

Quando me vejo no meio de uma situação como a de Belita, de um problema que não é meu, segurando a mão de uma mulher que mal conhecia, tentando entender a forma rude como ela estava sendo tratada, noto que preciso resguardá-la, protegê-la. Foi quando tive uma ideia e, naquele instante, todos me olharam e pareciam acreditar no que falava. Acabei gritando e pedindo que pegassem aquele homem. Só vi todos correrem atrás daquele sujeito, a rua estava quase vazia, só existia eu e Belita e, em meio aquele silêncio, ela me olha e diz:

- Senhora, está vendo aquele rapaz que saiu da minha casa às pressas? Ele se julga no direito de me matar, e se não bastasse, todos vocês me olhavam, com esse olhar de desprezo. É imediata a reação ao observar meu corpo desnudo: condenando-me, chamando-me de indecente. De resto, posso falar o que for que não irão acreditar, falo de um lugar no qual conheço muito bem, sou mais uma mulher que deseja ser ouvida.

Preferi ficar ali, ouvindo Belita, pensando no quanto é importante às políticas públicas de proteção e combate à violência contra as mulheres, a SPM, a Lei Maria da Penha, das conquistas, das tentativas de reduzir a violência da realidade social, mas ainda nos deparamos com a falta do cumprimento da lei, é preciso nos modificar culturalmente.

Portanto, resolvi dar o pontapé inicial e, no meio daquele conflito, não sabia o porquê, mas só agora senti a sua dor. Estar perto da sua história, fez-me entender o seu sofrimento, e o das diversas mulheres que passam pela mesma situação, seu olhar triste saltava para fora procurando algo, penetrando-me, tudo que dizia era a verdade, ela era mais uma na estatística.
 
O relógio contava o tempo. Neste momento, renascia Belita ao gritar, pedindo socorro, breve todos retornarão e eu morreria ao seu lado.


Paula Brito é professora e escritora.

Conceitos e opiniões expressos nos artigos são de responsabilidade dos autores.
 


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