Músicas de mestres populares ganham versões modernizadas

entretenimento
15.09.2020, 06:00:00
O grupo Dona Bete e a Chegança Feminina de Arembepe está em documentário que chega na próxima semana no YouTube (fotos: Samuel Macedo/divulgação)

Músicas de mestres populares ganham versões modernizadas

Projeto Mestres Navegantes reúne produtores como Curumin , Felipe Cordeiro e Mahal

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Há dez anos, o músico e pesquisador Betão Aguiar dava início ao projeto Mestres Navegantes, que passou a registrar em CDs a música produzida e disseminada pelos mestres de cultura popular do país. De lá para cá, foram 28 álbuns e mais de 640 canções gravadas em quatro estados: São Paulo, Bahia, Ceará e Pará.

Para celebrar a primeira década do projeto patrocinado pela Natura Musical, chega hoje às plataformas de música a coletânea Mescla, com sete regravações de canções que haviam sido registradas nesses dez anos. Agora, são produzidas por artistas como Curumin, Pio Lobato, Strobo, Felipe Cordeiro e Mahal Pita.

“Esse lançamento é um novo passo para o projeto, porque mistura artistas contemporâneos com mestres populares”, diz Betão Aguiar.

Mas logo ele mesmo se corrige: “Nem gosto de fazer essa separação entre contemporâneo  e popular, porque os mestres também são contemporâneos, vivos, estão aí”.

Das sete regravações, três têm origem na Bahia. Uma delas é a faixa Seu Pastinha, de Mestre Curió e gravada agora por Mahal Pita, que trabalha com bandas como Afrocidade e já colaborou com o BaianaSystem. “Mahal pega o analógico e transforma em digital, mas sem perder as características originais. Nessa gravação, a capoeira encontra o samba reggae”, diz Betão. A versão foi aprovada pelo próprio Mestre, que costuma ser reticente com essas tentativas de 'modernização' do seu trabalho. “Curió foi discípulo de Mestre Pastinha. Ele tem 80 anos e ficou muito feliz com o resultado”, assegura Betão.

Candomblé

Ainda da Bahia, há dois pontos do candomblé, sendo um para Iansã e outro para Oxum. A captação original havia sido realizada no terreiro Ilê Axé Alaketu Oya Funan, em Muritiba. O primeiro é produzido por Juninho Costa, o Junix, junto com Andréa May. O outro é de Rafael Munhoz. “Rafael fez uma versão dançante de um canto de Iansã e talvez essa seja a faixa mais pop. Mas prefiro não chamar essas sete gravações de remix porque na verdade são uma cocriação”, diz Betão.

Betão Aguiar e Mestre Curió

Mahal diz que o convite para participar da coletânea chegou num momento importante para ele, que pesquisa o samba reggae: “Quando ouvi, senti que algo me reencontrava, sincronizou com absolutamente tudo o que estava fazendo. Mestre Curió é um griô de voz inconfundível”.

Felipe Cordeiro e Klaus Sena escolheram Forró do Remoído, da Banda Pife Carcará, enquanto o Strobo -  duo de música eletrônica formado por Léo Chermont e Arthur Kunz - optou por visitar o Bendito de Entrada, dos Penitentes e Inselenças do sítio Cabeceiras, de Barbalha (CE). O resultado é um encontro entre os cantos religiosos dos mestres cearenses com o vigor dançante das guitarradas digitais características da dupla paraense.

Também hoje, começam a chegar às plataformas digitais os álbuns originais com as mais de 640 canções gravadas nos quatro estados que Betão visitou. Antes, as faixas estavam disponíveis apenas no Soundcloud. 

Na terça-feira da semana que vem, chega ao YouTube o curta Chegança No Jardim das Belas Flores, dirigido por Betão Aguiar e Bruno Graziano. O filme é uma homenagem a dois grupos femininos de Marujada, que, inicialmente, tiveram dificuldades em ser aceitos pelos homens e precisaram vencer uma cultura machista.

“Aquelas mulheres resistiram muito e elas contam isso no filme. Tomaram a liberdade de pegar no pandeiro, mesmo contrariando o universo machista onde foram criadas”, diz Betão.

No ano em que o documentário foi gravado, 2018, as cheganças foram reconhecidas como patrimônio cultural imaterial da Bahia.

O projeto prepara também o lançamento de seu primeiro longa-metragem, Samba de Santo, que mostra três blocos afros - Ilê Aiyê, Bankoma e o Cortejo Afro - se preparando para desfilar no Carnaval de Salvador deste ano. Inicialmente, será apresentado em festivais e em novembro deve chegar ao circuito comercial ou ao streaming. “Visitamos esses blocos afros que têm tradição do candomblé e o filme acabou ganhando um tom político, sobre a negritude, sobre as dificuldades que eles passam para conseguir botar o bloco na avenida”, diz Betão, que dirige o filme.

Terreiro Ilê Axé Alaketu Oya Funan, em Muritiba



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