Na avenida, na praça, no meio do povo: o último desfile de Orlando Tapajós

salvador
18.06.2018, 17:27:00
Atualizado: 18.06.2018, 17:31:32
(Foto: Marina Silva/CORREIO)

Na avenida, na praça, no meio do povo: o último desfile de Orlando Tapajós

Familiares, artistas e foliões se despedem do construtor de trios em 'circuito da folia'

Não poderia ser de outra forma. Seu Orlando e o chapéu panamá, a camisa de lantejoulas que, nos últimos anos, se tornara sua marca, e a faixa com o nome que a folia lhe dera: Tapajós. Seu Orlando e os trios elétricos. Seu Orlando e a guitarra baiana. Seu Orlando e Armandinho, Dodô e Osmar. Seu Orlando, a praça e o poeta. Seu Orlando e aqueles que, por décadas, seguiram a alegria dos Trios Tapajós: o povo. 

Oficialmente, a despedida de Orlando Campos de Souza, aos 85 anos, foi chamada de ‘cortejo’. Mas, na prática, todo mundo sabe: foi um desfile, como os que ele estava acostumado a comandar desde 1956. Seu Orlando, que ganhou a Bahia e o mundo sob a alcunha de Orlando Tapajós, morreu na madrugada de domingo (17), no Hospital Teresa de Lisieux, depois de passar quase uma semana internado após ter sofrido um infarto na segunda-feira anterior (11). Nesta segunda-feira (18), a folia que ajudou a construir se despediu. 

Depois de ser velado no Palácio Rio Branco, na Praça Municipal, o corpo do construtor de trios elétricos Orlando Tapajós foi levado em cortejo pelo circuito do Campo Grande. Em um caminhão do Corpo de Bombeiros, o caixão foi seguido por três trios elétricos que percorreram a Rua Chile, a Rua Carlos Gomes e a Avenida Sete – até voltar à Praça Castro Alves. 

Corpo de Seu Orlando foi levado no carro dos bombeiros (Foto: Marina Silva/CORREIO)

“Ele não queria lágrimas. Ele queria alegria”, anunciava o construtor de trios Waldemar Sandes, no microfone, em cima do primeiro dos três trios. Waldemar foi pupilo de Seu Orlando. Aprendeu com ele o ofício dos trios. No entanto, antes de entrar no universo da criação das carrocerias e afins, Waldemar foi locutor do Trio Tapajós.

Foi convidado pelo próprio Orlando, quando os ex-locutores do Tapajós fundaram um novo trio e tentaram ofuscar o brilho do original. Durante todo o percurso nesta segunda, Waldemar agiu como o locutor do Tapajós. Entre uma música e outra, explica às centenas de pessoas que observavam, na rua, que aquela era uma homenagem a um homem a quem a Bahia devia muito. 

“Orlando não fazia só tocar. Do seu bolso, ele bancava capoeiristas, baianas de acarajé, fitinhas do Bonfim. Tudo isso ele fazia gratuitamente. Ele fez muito por essa terra, por isso, não é qualquer um que merece uma homenagem dessas”, disse, no microfone. 

Foto: Marina Silva/CORREIO

Chame Gente
A homenagem, de fato, não era para qualquer um. Começou com Armandinho e Aroldo Macêdo comandando o Hino ao Senhor do Bonfim na guitarra elétrica, acompanhado dos vocais de Carina Tapajós, filha de Seu Orlando. “Viva meu pai! Viva Orlando Tapajós”, disse a cantora, entre uma música e outra. 

Vieram, ainda, clássicas como We Are Carnaval e Baianidade Nagô (essa, justamente quando os trios entravam na Avenida Sete). Laurinha Arantes, a primeira cantora a comandar um bloco (o Cheiro de Amor), cantou para ele Bloco do Prazer. “Cantei muito para ele essa música”, anunciou, pouco antes de começar. André Macêdo cantou ao som dos irmãos em Chame Gente e, por fim, a guitarra ressoou com Ave Maria. 

“O negócio dele foi trio elétrico, a paixão dele”, dizia Armandinho. Filho de Osmar, Armandinho cresceu escutando o pai dizer que, se não fosse por Orlando, o trio elétrico não teria continuado.  

“Ele era um seguidor de Dodô e Osmar na forma, mas na estética ele foi inovador. Esse é o 'homem trio elétrico' e agora está formando o trio lá em cima. Dodô e Osmar era uma dupla, né? Agora, é um trio”, completou o músico. 

Laurinha, Carina, André e Armandinho participaram da homenagem (Foto: Marina Silva/CORREIO)

Lá de baixo, era difícil ficar imune. Pouca gente parecia estar seguindo o trio por todo aquele percurso, mas, de onde quer que estivessem – em casa, em lojas ou restaurantes – as pessoas saíam para observar aquele que passava. As varandas e janelas de apartamentos na Carlos Gomes, que se transformam em camarotes particulares no Carnaval, também reverenciaram. 

Algumas pessoas cantavam, erguiam os braços. A maioria – inclusive agentes de trânsito – preferia levantar o celular para registrar aquilo de alguma forma. Quando o nome de Seu Orlando era dito no microfone, vinha uma sequência de palmas. Outros davam alguma demonstração mais calorosa: uma mulher enxugava as lágrimas na Avenida Sete e, sentado em um ponto de ônibus, um senhorzinho vestido com uma camisa do Brasil e chapéu de cangaceiro levanta as duas mãos juntas, em sinal de apoio. 

A família entendia o carinho do público. “Aprendi muita coisa com meu pai, com as pessoas que passaram pela vida de meu pai. Os artistas, até aqueles que não passaram por ele, sempre tiveram referência em meu pai”, declarou o filho mais velho do carnavalesco, Orlandinho Tapajós, pouco antes do início do cortejo. 

Legado 
Seu Orlando foi o maior responsável pelo trio elétrico que o Carnaval de Salvador conhece hoje. Foi quem criou a carroceria de metal, colocou banheiro, escadas e até elevador nos carros. De acordo com a família, produziu mais de 200 trios. Ao CORREIO, em sua última grande entrevista, em janeiro, contou que tinha feito 60 Tapajós – pelo menos um por ano. Uma de suas obras mais memoráveis foi a Caetanave – o trio elétrico em forma de nave que homenageou Caetano Veloso, na volta do exílio, em 1972.

Seu Orlando recebeu o CORREIO em casa em janeiro (Foto: Evandro Veiga/CORREIO)

O Tapajós foi o primeiro trio elétrico a percorrer o Brasil. Esteve em grandes eventos – que vão desde o Círio de Nazaré, em Belém (PA), até na abertura do Carnaval do Rio de Janeiro, antes mesmo das escolas de samba. “Quando chegamos, eles não sabiam o que era trio e mandaram a gente ir na frente. Eu saí tocando e o povo enlouqueceu. Depois disso, o pessoal das escolas de samba nunca mais deixou o trio sair lá”, contou seu Orlando, ao CORREIO, em janeiro.

Na época da reportagem, a saúde de Seu Orlando já andava frágil. Era cardíaco e em 15 anos teve outros três infartos e um derrame – este último, que lhe trouxe problemas na fala e de locomoção. Além disso, convivia com um câncer de próstata. Quando contamos sua história, ele revelou que recebia apenas uma pensão de um salário mínimo e era ajudado pela família. Vivia em um apartamento alugado por R$ 500 no Imbuí.

“Eu ganhei tanto dinheiro e, no fim, fiquei sem nada. Pensava daquilo tudo não se acabar, mas se acabou”, contou, na ocasião. Na semana seguinte, sensibilizada pela história do artista, a Associação Baiana de Trios Independentes (ABTI) concedeu um benefício mensal de R$ 6 mil ao construtor de trios.

História
Por isso, quando o corpo de Seu Orlando era carregado do Palácio Rio Branco até o caminhão dos Bombeiros, a baiana de receptivo Matilde Santana, 50, gritou palavras de apoio. Ela nunca tinha visto o carnavalesco pessoalmente, mas ouviu falar de seus feitos. “Espero que a história dele continue sendo lembrada, que não seja só uma homenagem e fim”, disse.

Pessoas estenderam faixas em sinal de luto (Foto: Marina Silva/CORREIO)

A professora Maria da Graça Ferreira, 60, foi uma das admiradoras do legado de Tapajós que esteve no velório. Sem graça, ela explicou que não conhecia ninguém da família, nem sabia o nome de quem mais estava ali. Só conhecia ele: Tapajós. 

Mais cedo, sua filha duvidara que ela fosse ao velório. A resposta foi recebida com surpresa.

“Eu respondi: ‘mas é claro (que vou)’! Ele fez a alegria de muitas pessoas, fez a alegria do mundo. A gente tem muito que agradecer a ele”, explicou.  

Os irmãos Artur, 50, e Neimary Gonçalves, 52, acompanharam o percurso dos trios do início ao fim – quase que como num desfile mesmo. “Toda a família passava o Carnaval junto com ele, na Praça Castro Alves”, explicou a professora Neimary. “A gente não era amigo dele, mas é uma homenagem para alguém que foi praticamente um dos fundadores do trio”, completou Artur. 

"Do início ao fim" também foi a resposta da vendedora Maria Nascimento, 52, quando perguntada se acompanhou o cortejo. “Se fosse fim de semana, isso aqui estava cheio. Eu era criança, minha filha, criança, e acompanhava ele. Hoje tinha que ser feriado”, bradou. 

No final, diferentes pessoas abordavam a reportagem. Todas queriam falar algo sobre Seu Orlando. “Ele está em um bom lugar”, tranquilizava-se a vendedora ambulante Matilde de Oliveira, 66, que, por anos, trabalhou como cordeira. Por anos, do chão, via Seu Orlando fazendo festa no trio. 

Mesmo usando muletas e com dificuldade de locomoção, o divulgador cultural Jorge Melo, 68, não deixou de ir. Enquanto carregava vinis antigos do Trio Tapajós, todos de sua coleção pessoal, chegou a uma conclusão que lhe pareceu muito verdadeira. “Ele não morreu, só saiu do corpo. Tem uns que morrem. Ele não”.


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