Não é só música: Trio com Larissa Luz, Luedji Luna e Xênia França canta contra o assédio

carnaval
23.02.2020, 07:30:00
Atualizado: 23.02.2020, 08:14:13
(Duane Carvalho / Divulgação)

Não é só música: Trio com Larissa Luz, Luedji Luna e Xênia França canta contra o assédio

Projeto Aya Bass teve diversas ações de luta contra o machismo e racismo

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As potentes caixas de som do trio elétrico amplificavam as palavras de ordem contra o racismo e machismo ditas por três mulheres negras com o microfone. Na frente do caminhão, uma enorme faixa de prevenção ao assédio no público. E o público era completamente político, desde a roupa até a dança, passando pelo “não é não” escrito no corpo de diversas mulheres. No trio “Respeita as Mina” a música não era apenas uma forma de entretenimento, mas, acima de tudo, um canto de luta.

Puxado por Larissa Luz, Luedji Luna e Xênia França, que formam o projeto Aya Bass (termo yorubá que significa mãe rainha), o trio saiu neste sábado (22) no circuito Dodô (Barra/Ondina). Este foi o quarto ano seguido que o projeto saiu no Carnaval, sempre com a mesma mensagem de luta. 

Em 2020, por exemplo, os foliões que passavam por perto do trio recebiam um panfleto que alertava que a violência contra a mulher é crime. O encarte explicava que puxar o cabelo, segurar, beijar à força, passar a mão, xingar, humilhar e bater em razão de a mulher não ceder às cantadas são crimes que podem levar à prisão. Larissa Luz acredita que o trio tem tido sucesso e nota uma evolução nos últimos anos.

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“Algumas amigas que saem no Carnaval me contam que sentem mudanças no comportamento dos homens, que estão sendo acuados no lugarzinho deles a cada vez que a gente fala, se posiciona, brada, conquista e mostra que isso não é permitido, pois assédio é crime. Então quando o homem percebe as punições ele acaba recuando e pensando duas vezes antes de agir”, analisa.

Além do trio Respeita as Mina, outras campanhas que lutam contra o assédio e machismo têm ganhado terreno no Carnaval. A principal delas é o “Não é Não”, que está no corpo, na fantasia e no discurso das foliãs. 

(Foto: Duane Carvalho/Divulgação)

“Eu acho maravilhoso que existam essas campanhas  e elas devem aumentar, pois devemos brincar, se divertir, mas também falar sobre as nossas pautas pois os números são alarmantes. A violência contra a mulher existe, é uma realidade. Mulheres morrem o tempo inteiro na mão do marido ou namorado e todo o movimento que busca frear isso é bem vindo”, alerta Larissa.

Já a "playlist" foi formada por canções autorais das três artistas (que se revezavam no microfone), além de hits de outras artistas negras conceituadas do mundo. "Vamos fazer um repertório que prestará uma homenagem às vozes negras femininas de diferentes gerações, estados, referências estéticas. Vamos explorar um universo vasto da música negra feita por mulheres, que vão desde Beyoncé ao Ilê Aiyê, passando por Dona Onete, Elza Soares, Alcione, Lecy Brandão, Ludmilla, MC Carol”, explica Larissa.

Arrastando o povo
Quanto mais o trio andava, mais gente colava pra ver. A assistente social Alice Miranda, 38, por exemplo, só saiu no Carnaval neste sábado e exclusivamente para acompanhar as três cantoras de quem é fã. 

“A possibilidade de ver as três juntas foi fundamental para eu sair de casa e só ter a representatividade de ter mulheres negras em cima do trio já mostra que a gente não é apenas uma carne exposta ao mercado e sim que temos vontade e ela precisa ser respeitada. Então vir aqui é, acima de tudo, uma mensagem de respeito, acolhimento e luta”, afirma.

(Foto: Duane Carvalho/Divulgação)

Alice costumava frequentar o Carnaval quando era adolescente e, naquela época, ela conta que o assédio era muito maior. “Homens faziam rodinhas para acuar as mulheres, que se viam ‘obrigadas’ a beijá-los’, relembra. Ela comemora a evolução que houve nos últimos anos, mas enxerga o cenário longe do ideal.

“Hoje mesmo eu gostaria de vir com uma saia, mas tive medo e achei melhor não. Nós sabemos que estamos em uma sociedade machista onde os homens enxergam a roupa como um convite ou uma ordem que diz se pode nos tocar ou não. E se acontecer qualquer crime conosco e recorremos aos policiais, a primeira pergunta que eles fazem é sobre a roupa que estávamos vestindo. Isso é revoltante. Se um homem pode andar tranquilamente de sunga sem ser perturbado, por que uma mulher não pode vestir um biquíni?”, indaga.

Em caso de violência contra as mulheres, no circuito do Carnaval: na eventualidade do presenciamento de qualquer tipo de violência contra as mulheres, a polícia deverá fazer contato com a Ronda Maria da Penha, via rádio ou pelo telefone institucional, que conduzirá os envolvidos para a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM).
 
Em caso de estupro: o Hospital da Mulher fará o atendimento de mulheres em situação de violência, oferecendo acolhimento, avaliação da equipe de saúde e medicamentos para evitar IST/AIDS e gravidez.

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*Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro

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