Não é só no São João: por dia, 21 pessoas são internadas na Bahia por queimaduras

salvador
22.06.2019, 05:36:00
(Foto: Arquivo CORREIO)

Não é só no São João: por dia, 21 pessoas são internadas na Bahia por queimaduras

Além disso, 67 mortes em decorrência dos ferimentos foram registradas entre janeiro e maio

O São João ainda nem tinha começado oficialmente, mas os fogos de artifício já têm feito vítimas de queimaduras no estado. Foi dentro de uma casa no bairro de Lauro Passos, em Cruz das Almas, no Recôncavo baiano, que uma explosão deixou Simônidas de Castro França Júnior, 34 anos, em estado grave, na tarde da última quarta-feira (19). 

Segundo a polícia, ali funcionava uma fábrica clandestinas de ‘espadas’ – explosivos que, hoje, são proibidos em todo o estado. Simônidas, em estado grave, foi transferido para o Hospital Geral do Estado (HGE), na noite desta quinta-feira (20), onde segue internado e custodiado. 

De fato, no mês de junho, os casos de queimaduras por fogos de artifício disparam. No ano passado, aumentaram 200%, em comparação a maio – saltaram de cinco para 15. Em 2017, o pico foi ainda maior: saiu de quatro casos em maio daquele ano para 24, o que representa um crescimento de 500%. 

Mas a verdade é que as queimaduras são um problema que vai muito além dos tradicionais fogos de junho. De janeiro até abril deste ano, 2.553 pessoas foram internadas, em todo o estado, por queimaduras provocadas por diferentes substâncias, de acordo com a Secretaria da Saúde do Estado (Sesab). Isso significa dizer que, por dia, 21 pessoas são internadas por queimaduras. 

Além disso, 67 mortes em decorrência dos ferimentos foram registradas entre janeiro e maio, na Bahia – o que equivale a uma média de 13 óbitos por mês. A maioria das mortes – 47 das 67 – foi devido à exposição à corrente elétrica. Em 2019, nenhum dos óbitos aconteceu devido a queimaduras por fogos de artifício, mais comuns em junho.

 

Já no ano passado, dos 166 óbitos provocados por complicações das queimaduras, apenas dois tinham relação com fogos de artifício – um em maio, outro em junho. Em todo o ano de 2018, as mortes ocorreram, principalmente, após o contato com corrente elétrica (92 dos casos) e exposição a chamas (50 ocorrências).

“O principal motivo para termos tantas (ocorrências de) queimaduras, em geral, é a negligência, no caso de criança. Para adultos, a imprudência”, afirma o cirurgião plástico Marcus Barroso, coordenador do Serviço de Cirurgia Plástica do HGE e do Centro de Tratamento de Queimados (CTQ) da unidade. 

Casos graves 
Barroso fez um estudo analisando o número de pacientes do CTQ nos últimos 10 anos, justamente para investigar se havia aumento entre os pacientes atendidos no São João. No entanto, o cirurgião plástico descobriu que, ainda que o número de casos cresça em todo o estado, na unidade especializada, os atendimentos são constantes. 

“Eu atribuo isso ao fato de que as queimaduras no São João são geralmente superficiais, de áreas pequenas. Como nessa época muita gente está no interior, elas são tratadas na cidade de origem do paciente. Não chegam à capital”, explica. Só são transferidos para o HGE, portanto, os casos mais graves. 

No ano passado, foram apenas três ocorrências relacionadas aos festejos juninos – dois, inclusive, foram de homens que caíram dentro de uma fogueira. Sob efeito de álcool, a dupla ficou desacordada, no fogo, até que alguém viesse dar socorro. Agora, em 2019, há dois casos: além de Simônidas, uma criança foi internada por ter soltado fogos do tipo ‘vulcão’ na mão. 

“Nunca deixem uma criança manusear fogos de artifício sozinha. Precisa sempre de supervisão de um adulto que não tenha ingerido bebidas alcóolicas, que são a grande causa de acidente em adultos”, diz Barroso. 

Os acidentes mais frequentes, segundo o médico, ocorrem com bombas. Essas, porém, geralmente nem são encaminhadas ao setor de Queimados, mas ao de traumatismo. Em alguns casos, as vítimas acabam tendo partes do corpo amputadas. 

Água quente
Mas a maior parte das queimaduras ocorre com atividades cotidianas. Em crianças, em mais de 50% dos casos, o problema é causado pela água quente. Em adultos, as situações mais comuns estão relacionadas ao álcool. É recorrente, por exemplo, que pacientes sejam encaminhados ao hospital depois de acidentes com álcool substituindo o gás de cozinha. 

Com o engenheiro civil Marcos Couto, 45 anos, o acidente foi por conta de um balde de água fervente. Na semana passada, ele estava em casa, quando o recipiente virou em sua mão. Imediatamente, ele lembrou das orientações médicas para essas situações: colocou a mão debaixo de uma torneira com água em temperatura ambiente. 

Só que Marcos não foi logo ao hospital. Para completar, estava usando uma pulseira de couro no momento da queimadura. Em poucas horas, a região estava cheia de bolhas. Foi só ensse momento que ele foi à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) dos Barris. Ao chegar lá, indicaram que fosse até o HGE, onde o atendimento é especializado. 

“Já tinha passado mais de 12 horas. Fui no HGE ver o que eles diziam, se davam alguma orientação. Eles estouraram as bolhas e fizeram um curativo”, conta. Desde a última quinta-feira (20), Marcos já está sem curativo, mas segue aplicando óleo de girassol no local. Segundo os médicos, o óleo serve para ajudar na cicatrização. 

O diagnóstico final foi de uma queimadura de segundo grau – que, como o próprio nome diz, é o segundo tipo mais grave. A dor, ainda que leve, durou até os últimos dias. Agora, em pleno São João, ele não consegue não associar a queimadura que teve com os fogos de artifício. Desde criança, soltar fogos era uma de suas tradições no período junino. 

“Eu prometi que nunca mais toco em um (em fogos). Estava comentando aqui que, até para fazer café, estou com mais cuidado, tirando todo mundo de perto. Como fui no setor de Queimados, vi o povo sofrendo muito. O meu foi uma coisa simples e já foi assim, fico só imaginando uma pessoa que queima 60%, 70% do corpo”. 

Primeiros socorros
Além de lavar a região da queimadura com água corrente, o cirurgião plástico Marcus Barroso, coordenador do CTQ do HGE, explica que, caso a roupa fique grudada no local, ela não deve ser removida. Depois de 15 minutos com água da torneira, é possível cobrir a queimadura com um pano úmido. “E não devem utilizar receitas caseiras de manteiga, pasta de dente, nada disso. O ideal é procurar atendimento médico”, alerta. 

Mesmo em casos graves, o índice de óbitos do CTQ é de 5,4% dos pacientes internados - considerando que a unidade recebe justamente os pacientes graves. 

“Geralmente, pacientes vítimas de queimadura elétrica de alta tensão são extremamente graves. A queimadura por álcool é mais frequente, mas não costuma ser tão grave. Os de alta tensão costumam ser pessoas que estão trabalhando em um poste ou até mesmo fazendo um gato”, conta. 

O tratamento utilizado nos hospitais vai depender da área e da profundidade da queimadura. O HGE, inclusive, se destaca com o transplante de pele. Pelo menos três já foram feitos no hospital. O último transplante foi realizado no mês passado, quando um homem de 63 anos, vítima de uma queimadura por álcool que atingiu 50% de seu corpo, recebeu enxerto de pele nas duas pernas. 

O primeiro transplante de pele do estado foi realizado no Hospital Universitário Professor Edgard Santos (Hupes), da Universidade Federal da Bahia (Ufba), em 2014. Na época, um paciente que teve lesão por queimadura elétrica recebeu um enxerto de 2.500 cm de pele na região dorsal.

Cuidados começam antes mesmo de soltar os fogos, diz major dos Bombeiros

Quem estiver planejando soltar fogos neste São João deve tomar cuidados especiais. As orientações, segundo o major Ramon Diego Diniz, comandante do 3º Grupamento de Bombeiros Militares (Iguatemi), devem ser seguidas antes mesmo da soltura. 

O primeiro passo comprar os fogos em pontos de venda devidamente regularizados e com alvará de funcionamento. Ou seja: deve-se evitar locais como banquinhas à beira da estrada. Em Salvador, a feira de fogos autorizada está localizada em Stella Maris. Os explosivos também não devem ser estocados em casa, nem no carro. 

A dica é comprar somente uma quantidade razoável, suficiente apenas para cada dia.

“Não se deve estocar para não acontecer princípio de incêndio, explosão e queimaduras. Também não é recomendado viajar longas distâncias com fogos porque, se tiver um princípio de aquecimento no carro, uma centelha pode acionar”, diz o major, que também reforça que sacos plásticos devem ser evitados. 

Na hora de escolher os fogos, é preciso observar a classificação dos produtos, que vem indicada na embalagem. Essa indicação reflete o potencial de estampido (o barulho) e a luminosidade. 

Os de classe A, por exemplo, são indicados para criança. Os de C e D só podem ser manuseados por adultos, ainda que os tipo D precisem de um profissional com experiência no acionamento do material. 

“Na embalagem, tem a inscrição no Exército, o rastreamento do fabricante, o responsável técnico, o lote, a validade, peso bruto e a forma correta de acionamento. Essas são as orientações do produto e do fabricante. Muitos acidentes se dão porque as pessoas não seguem as orientações e nem têm curiosidade para ler”, pondera Diniz. 

Na hora da soltura, o ideal é deixar um balde com água por perto, bem como um extintor de incêndio. Outra recomendação é de nunca lançar fogos em via pública, próximo à rede elétrica, perto de escolas, igrejas, hospitais e ambientes fechados. 

“Cuidado com as crianças. Elas devem estar sempre sob a supervisão de adultos. O que pode começar no tom da brincadeira pode terminar num acidente grave. Também não tentem reacender fogos que falharam, nem soltem fogos com as mãos”

Mas se, mesmo com os cuidados, houver algum acidente, o major afirma que é preciso acalmar a vítima e prestar os primeiros atendimentos, lavando com água corrente por 15 minutos. Em seguida, a pessoa deve ser encaminhada a um hospital. 

Além de queimaduras, os fogos podem provocar traumas, hemorragias e até amputação de membros. “Se houver a amputação de membros, procure, no local onde a vítima se encontra, a parte amputada e coloque em um saco esterilizado. Em seguida, deve procurar um balde ou um cooler com gelo e colocar o material amputado nessa área. A vítima e o membro devem ser levados para o hospital”. 

Tipos de queimaduras, de acordo com a camada de pele atingida
Primeiro Grau:
Ocorre quando a lesão atinge apenas a camada mais superficial da pele, chamada de epiderme. Os sintomas são vermelhidão local, ardência, inchaço, calor local e dor. Esse tipo de queimadura pode acontecer até com as pessoas que se expõem ao Sol por muito tempo, sem proteção. Se atingir grande parte do corpo, pode ser considerada grave.

Segundo Grau: Acontece quando a lesão atinge as camadas mais profundas da pele (derme). Nessas queimaduras, é comum haver bolhas, inchaço e dor intensa. Como ocorre perda da camada superficial da pele, que protege contra a perda excessiva de água, é possível acontecer perda de água e sais minerais, além de desidratação grave. Pode ser causada pela exposição a vapores, líquidos e sólidos escaldantes.

Terceiro Grau: É quando toda a pele é atingida, inclusive tecidos mais profundos como os músculos. Pode não ser dolorosa, uma vez que as terminações nervosas que geram a dor são destruídas junto com a pele. A cicatrização geralmente é desorganizada. Normalmente precisa de cirurgias, com enxerto de pele retirada de outras regiões do corpo.
 

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