Não está fácil para ninguém: o que você tem feito para ganhar dinheiro na pandemia?

bahia
28.08.2021, 11:00:00
A fotógrafa Esperança Gadelha tira, em média, de R$ 700 a R$ 800 por rifa (Foto: Acervo Pessoal)

Não está fácil para ninguém: o que você tem feito para ganhar dinheiro na pandemia?

Diante de cenário em que 7 entre cada 10 famílias estão endividadas, rifas viram febre entre mais apertados

Quatro filhos e inúmeras contas para pagar. O chef de cozinha, Fabrício Santana, de 34 anos, ficou sem emprego em plena pandemia. Com a falta de eventos, caiu a demanda por serviços de buffet para churrasco. “O perrengue é forte quando a gente passa a viver com o mínimo do mínimo”, afirma. Entre um bico aqui e outro ali, a chance de buscar um trocado veio em forma de dezena. Fabrício começou a rifar quatro vezes por mês um Pix de R$ 250 mais um kit com hambúrguer. O extra garante algo em torno de R$ 500, que ele soma ao dinheiro da venda de quentinhas. 

“Sem ter como sair de casa, vi na rifa a oportunidade de ganhar um trocado que semanalmente poderia ajudar a suprir as necessidades e, em troca, premiar quem colaborava com o meu trabalho neste momento difícil que vivemos”. A depender da semana, ele consegue passar uns 70 números. Cada dezena custa R$ 5 e o resultado sai sempre aos sábados pela Loteria Federal.

“Cada dezena é valiosa. Envio a rifa pelo Instagram e quando estou na rua resolvendo algo, vou oferecendo para as pessoas correndo aqui pela Ribeira e em Plataforma”, completa. 

E coloca tempo difícil nisso. Quem não tem uma dívida sequer nesse momento, não viveu a crise. Segundo dados da última Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), realizada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), divulgada esta semana, mostra um novo recorde histórico de endividamento: 72,9% famílias brasileiras estão o orçamento comprometido por dívidas.  Deste montante, 25,6% têm com contas em atraso e 10,7% não terão condições de pagar. Na lista dos débitos mais comuns têm o cartão de crédito na liderança disparada, seguido do cheque especial, crédito consignado, crédito pessoal, carnês e financiamentos.

“Na pandemia, muitos têm recorrido à informalidade e investido em pequenas atividades para garantir seu sustento, por isso o acesso ao crédito é tão importante. Mas há uma necessidade grande de planejamento do orçamento familiar para que esse alívio não vire um problema ainda maior”, analisa o presidente da CNC, José Roberto Tadros. 

A rifa também é uma alternativa para a fotógrafa Esperança Gadelha, de 40 anos. Ela já está na quinta rifa de trabalhos autorais.

“É um medo de ficar sem casa, de não ter como comprar comida. De ficar sem luz, água, internet, gás. Perdi cartão de crédito e estou devendo ao banco. A pandemia me afetou de imediato. Estou fazendo rifas, primeiramente, pela vulnerabilidade financeira e por acreditar no poder da união, da solidariedade e também como uma forma de divulgar o meu trabalho”. 

Em cada um dos sorteios, ela tira de R$ 700 a R$ 800. “Tudo pelo virtual: Instagram, Facebook e WhatsApp. A pessoa escolhe um ou mais números, por R$ 20. Com esse dinheiro compro comida e, se sobrar, pago alguma conta. Cada depósito de R$ 20 me enche de amor, felicidade. Fora o dinheiro, as rifas trouxeram oxigênio, força e esperança para continuar”, diz. 

Correria 
A designer e estudante, Camila Nut Nansu, 31, é mais uma que se jogou no sistema, sorteando alguns produtos que vende no seu pequeno negócio, a Nut Criativa. Rifou livros, uma pochete, um colar e um vale compras de R$ 30 na lojinha. Cada dezena custa R$ 10.

“Aceito Pix, boleto e transferência bancária. A rifa foi a saída para momentos financeiros críticos e para conseguir movimentar algum capital inicial no meu negócio”. 

Além de conseguir uma grana para movimentar a Nut, Camila precisava trocar os óculos, já que tem um problema sério de visão. Se de um lado ela se jogou no esquema das rifas, do outro ela criou uma vaquinha virtual para conseguir comprar óculos novos. “Estavam muito velhos e com grau menor, debilitando minha visão. Meus maiores apoiadores foram amigos, professores, colegas de curso que, inclusive, disseminaram e ajudaram nas vendas. Somando a rifa com a vaquinha, consegui arrecadar uns R$ 2 mil”, afirma. 

No caso da universitária Isabelle Santana, de 21 anos, a primeira rifa que fez na vida foi para o tratamento da sua doguinha Pedrita, que estava com pneumonia. Ela conseguiu preencher mais de 50% da rifa em dois dias, quando começou a rodar na semana passada. No domingo seguinte, todos os 100 números já haviam sido comprados: uma arrecadação de R$ 1 mil. 

“Como prêmio colocamos uma cesta de café da manhã que, por ser produzida por minha mãe, não afetaria tanto os ganhos. Cada número custava R$ 10. Como eu não tinha experiência com o negócio, divulguei inicialmente para os amigos mais próximos, que foram divulgando para outros amigos e, felizmente, conseguimos preencher todas as dezenas”.  

E tem mais uma guerreira. A professora Tânia Maria Suzart, 59 anos, estava numa preocupação que só, tudo por causa das parcelas de empréstimos, que comprometiam o salário de tudo quanto era lado. Não deu outra: montou um caixa, aquela poupança informal, que todo mundo que entra vai na fé e reza para que seu ponto chegue logo. As pessoas do grupo são escolhidas a dedo, como garante Tânia, afinal, não pode ter calote, senão quebra a guia. 

“O meu caixa é dividido por pontos.  Um ponto, R$ 250, dois pontos, R$ 500. Quem fica com um ponto recebe R$ 3 mil e dois pontos, o dobro desse valor. Meu projeto é liquidar os cartões. Já fiz reformas em casa e estou pensando em comprar um carro. Várias pessoas que fazem parte do meu caixa compraram um veículo pegando vários pontos”. 

Para o CEO da Plano Educação Financeira, Ricardo Hiraki, é importante lembrar que como são feitas negociações com pessoas próximas, seja uma rifa, vaquinha ou caixa, as regras exigem o máximo de transparência nos sorteios, gestão e prazos, para não gerar aquela treta da desconfiança.  

“Vivemos uma situação de desemprego com incertezas agudas econômicas e políticas. E aí tem que ter criatividade. Outras alternativas são a realização de um bazar com itens parados em casa ou dar um ‘Google’ em serviços disponíveis em sites de frellas, por exemplo”. 

Mas se alguém sonhou na noite passada que ficava rico ou bateu algum número da sorte na mente, a gente quer dizer o seguinte: a Mega Sena acumulou e pode pagar neste sábado (28) R$ 6,5 milhões. O sorteio será realizado a partir das 20h, com transmissão ao vivo pelas redes sociais das Loterias Caixa no Facebook e YouTube. As apostas podem ser feitas até 19h nas lotéricas, no portal, ou app Loterias Caixa, além do internet banking para clientes do banco. O valor é R$ 4,50. Vai que chegou a sua hora?

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