Nascem gêmeos de casal gay gerados em útero solidário; veja vídeo

salvador
08.03.2020, 07:00:00
Atualizado: 08.03.2020, 10:03:46
Otávio e Marcel mostram Victor e Matthew após parto (Tamara Gouveia/Arquivo Pessoal)

Nascem gêmeos de casal gay gerados em útero solidário; veja vídeo

CORREIO produziu vídeo sobre parto de Victor e Matthew; pais dizem que vão incentivar contato das crianças com mulher que gerou bebês

“Senhor, qual o nome da mãe dos bebês?”, perguntou o recepcionista do hospital. Era a prova de que se tratava, de fato, de um caso raro. “Não tem mãe. Quer dizer, tem, mas não se sabe quem é. Na verdade são dois pais!”. Quando finalmente foi convencido, o funcionário liberou a visita. Ao chegar no quarto 707, eis que encontramos uma família feliz. Talvez não uma família usual, mas uma família.

Otávio e Marcel pareciam não caber em si de tanta felicidade. Casados desde 2013, finalmente puderam abraçar Victor e Matthew. Na noite anterior, entre 18h e 18h32 da última segunda-feira, eles vieram ao mundo cheios de saúde. No mês passado, como mostrou o CORREIO, o empresário Otávio Cerqueira Gouveia, 53 anos, e o consultor de imigração Marcel Cerqueira Gouveia, 31, estavam prestes a dar à luz gêmeos com um útero solidário. Uma amiga do casal gestou os bebês por nove meses.

Acompanhamos os momentos que antecederam e sucederam o parto. O hospital não permitiu que a reportagem registrasse o procedimento, mas imagens cedidas pela família complementaram o vídeo emocionante produzido pelo CORREIO (veja abaixo). Nenhum dos dois conseguiu segurar o choro quando Victor e Matthew conheceram o mundo fora da barriga. A irmã de Otávio, Tamara Gouveia, fez as fotos do parto. 

No dia seguinte, no quarto, com seus bebês no colo, Otávio e Marcel contaram o que sentiram na hora do nascimento. “Eu não consigo comparar com nenhum evento que aconteceu na minha vida. Coisa de louco!”, disse Marcel. “Eu confesso que ainda não entendi direito. Foi uma emoção imensa! Tenho outros filhos. Mas talvez pela luta toda a emoção foi maior. As coisas vinham em flashes, em câmera lenta”, descreveu Otávio, que tem um filho adotivo, o Christian, e mais três filhos de um relacionamento com uma mulher.

Matthew nasceu primeiro, às 18:30 com 3.030 kg e 46 cm. “Nosso ‘tampinha de binga’. Ele chorou sem parar. Na sala de parto, no berçário, no quarto. Até que comeu. Aí só dormiu. Ele passa a sensação de ser um bebê frágil. A sensação de proteção é imensa, contaram”, narraram Otávio e Marcel no perfil do Instagram @diariode2pais, onde contam detalhes de toda jornada desde a gravidez até os dias após o parto.

Victor nasceu às 18:32, com 3,585kg e 49 cm. “Bochechas redondas, todo fofinho. É um bebê grande. Parece forte. Quase não chorou. Só na hora que nasceu, por menos de um minuto. Depois ficou quieto. Assim como o irmão, ele dorme muito. Não acordou pra comer. Nas duas vezes tivemos que acorda-lo. 

A felicidade em forma de dois bebês
(Foto: Tamara Gouveia/Arquivo Pessoal)

Otávio e Marcel contam que surpreenderam a equipe de enfermagem. “Acostumados aos maridos desengonçados que não sabem trocar uma fralda, eles estão ‘assustados’. A gente se vira bem”. A primeira noite, narraram, foi “uma delícia”. E o amor do casal? Como ficou depois que os meninos vieram ao mundo? “Nosso amor aumentou de forma exponencial. Nos olharmos até dói o coração”. Para aqueles que ainda têm dúvidas de que dois homens não podem constituir uma família, Marcel ensina. “A gente é o exemplo de duas pessoas que se uniram em torno do amor e do respeito. E isso que é família”.

Gestora
Sempre preservada, a mulher que gerou as crianças por nove meses não aparece e prefere não falar. Na verdade, em um contrato judicial que regeu o nascimento, ela atesta que os filhos não são dela, seja geneticamente, socialmente ou moralmente. O documento, registrado em cartório, desobriga que, ao nascerem, os bebês tenham contato com a gestora. Mas, Otávio e Marcel querem fazer diferente.

E já fizeram na hora do parto. “Depois que nossos filhos nasceram, mostramos primeiro a ela. Isso nem tinha sido combinado. Não estava no roteiro. Foi um ato natural”, disse Otávio. “Eu mostrei a ela e uma lágrima desceu. Ela falou : ‘ele é lindo’”, conta Marcel. Eles admitem que, antes do parto, ela tava um pouco apreensiva. “Fragilizada e apreensiva, mas tivemos uma conversa muito boa. Foi emocionante”.

Otávio, Marcel e a amiga que gerou as crianças ainda grávida
(Foto: Tamara Gouveia/Arquivo Pessoal)

Após o parto, a mulher esteve no quarto para visitar o bebês. “Desde o parto ela tem vindo aqui visita-los e tá tudo certo”, disse Otávio, ainda no hospital. Não houve amamentação. Essa tem sido feita com fórmula em mamadeira. O empresário e o marido dizem que a amiga jamais seria privada do contato com as crianças. “Ela vai poder acompanhar tudo. Vai ser no tempo dela. A gente não sabe do mix de emoções que ela tá vivendo”.

De uma coisa o casal tem certeza: absolutamente nada do que aconteceu e foi feito ao longo de todo o processo vai ser ocultado dos meninos. “Eles vão saber de tudo. Não quero criar esse buraco na vida dos meus filhos”. Segundo os pais, durante a gestação, a gestora sempre se mostrou muito tranquila.

“Ela é uma mulher experiente e tem dois filhos. O tempo todo se mostrou consciente do papel dela”, afirma Otávio. Agora, a dificuldade é saber qual título vai ser dado a ela. “Naturalmente vai ser ‘tia’. Acho que vai acabar sendo ‘tia’”, acreditam os pais. 

Mulher não tem ligação genética com os bebês
Victor e Matthew foram gerados por fertilização in vitro. A mulher que gerou os filhos de Otávio e Marcel não tem qualquer ligação genética com os bebês. Isso porque eles buscaram o óvulo feminino em um banco de ovodoação. Ambos foram incluídos em um banco de dados que buscava óvulos com as características escolhidas por eles. O casal então escolheu altura, cor da pele e dos olhos do bebê. A mulher que doa o óvulo deve ser anônima.

O passo seguinte é saber qual sêmen vai ser usado. “Você tem as opções de escolher um ou outro como pai biológico, mas pode também misturar os dois sêmens, que foi o que fizemos. Claro, apenas um dos dois fecunda. Nossa opção foi não saber qual dos dois é o pai genético”, explica Otávio. Então, é hora de fazer a fecundação em laboratório e congelar os embriões. Após três anos de tentativas com dois úteros diferentes, além de cerca de R$ 50 mil gastos apenas com o tratamento, Otávio e Marcel finalmente ficaram grávidos.

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