Nicolelis critica diminuir público em eventos: 'Reduzir para zero pessoas faria diferença'

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15.01.2022, 10:59:00
Neurocientista e médico, Miguel Nicolelis diz que Ômicron vai impor lockdown (Foto:Divulgação)

Nicolelis critica diminuir público em eventos: 'Reduzir para zero pessoas faria diferença'

Cientista afirma que estamos em plena 3ª onda, diz que a ômicron não é leve e que ainda é cedo para pensar em fim da pandemia

Depois de quase dois anos de pandemia, o neurocientista, médico e professor Miguel Nicolelis, 60 anos, aprendeu algo que, para ele, é a "melhor meta para sobreviver": "reduzir expectativas". Em quase dois anos de pandemia no Brasil, Nicolelis se tornou uma referência para falar da crise sanitária no mundo e não escapou de um adjetivo - pessimista. Ele sabe o porquê.

"Depois de dois anos sofrendo, a maioria das pessoas está em busca de qualquer narrativa, qualquer desculpa para a luz no fim do túnel", diz.

Entre março de 2020 e fevereiro de 2021, Nicolelis coordenou o comitê científico do Consórcio Nordeste, que deveria balizar, cientificamente, decisões governamentais no Nordeste. Durante essa experiência, ele aprendeu outra coisa: "Políticos brasileiros não entendem que quando recomendamos coisas não é porque somos pessimistas".

Sem ter suas orientações ouvidas - a principal delas a aplicação de um lockdown em capitais nordestina - ele deixou o cargo.

Nicolelis trabalha, há quarenta anos, com séries temporais. Já foi considerado um dos 20 pesquisadores mais importantes de sua área pela revista estadunidense Scientific American. A experiência e os dados que estuda diariamente fazem com que ele não tenha dúvida: esta é a terceira onda da pandemia.

Na Bahia, os casos de covid-19 cresceram 269% em uma semana e já faltam testes para detectar o vírus.

"Ninguém chama de terceira onda, as pessoas evitam dramaticamente falar de terceira onda. A gente vai chamar do quê? De acidente de percurso?"

Em entrevista, Nicolelis, que faz autoisolamento em seu apartamento em São Paulo, responde como a terceira onda da pandemia vai impor um lockdown forçado, ditado pela Ômicron, os perigos de acreditar que a nova variante é leve, o que ainda é possível fazer para se prevenir e de que forma os discursos morais atravessam a pandemia.

"O discurso moral é até violento. As pessoas agridem você porque você fala que é importante e quer manter isolamento social".

A dúvida sobre quando chegará o fim pandemia, Nicolelis também responde. Sem base científica, para ele, falar do fim da pandemia "é cruel e ilude". "Nosso trabalho não é passar a mão na cabeça das pessoas. Nós vamos sair da pandemia, mas não podemos mentir". Reduzir as expectativas, como ele aprendeu, também é sobrevivência. Confira na íntegra:

Em 2020, você era muito requisitado para entrevistas. Depois, a pauta da pandemia foi esfriando. Quando você percebeu isso?

Na realidade, meu dia a dia é feito de outras coisas: fazer ciência, escrever e estudar. Quando aceitei trabalhar no Comitê Científico do Consórcio Nordeste, a minha rotina virou de cabeça para baixo. De repente, eu estava em tempo integral falando da pandemia. Continuou tudo muito doido até 2021 e, a partir daí, eu acho que o pessoal achou que a pandemia ia acabar. E eu alertava que estava acontecendo a mesma coisa nos Estados Unidos: mortes e casos caindo, mas sem que isso significasse o fim da pandemia.

Os indícios mostravam que uma variante poderia causar uma terceira onda. Eu alertava que, como tínhamos uma explosão de casos da variante Gama e o avanço da vacinação, teríamos uma janela protetiva. Para minha surpresa, acho que as pessoas pensaram que quanto menos se falasse da pandemia, mais próxima ela estaria do fim.

"Mas eu continuei fazendo meu trabalho. No começo de dezembro de 2021, eu vi que a curva dos óbitos estava voltando a subir. O registro de óbitos era um dos indicadores, já que faltavam outros dados confiáveis, do que estava ocorrendo no Brasil. Em Brasília, as Unidades de Terapia Intensiva (UTI) estavam enchendo. Eu vi o surto de gripe, mas não era o problema principal. Já era, provavelmente, o inicio da terceira onda".

Como cientista, eu tenho bastante o que fazer. Mas é evidente que numa situação tão inusitada, eu que analiso séries temporais há 40 anos não poderia deixar de contribuir. Quando eu vi que os sinais eram claros da terceira onda, comecei a soltar alarmes. As pessoas só se deram conta depois do Réveillon e a mídia já tinha mudado a pauta.

O senhor disse: ‘Vamos parar com esse papinho de que isso é leve’. Por que não queremos ver a gravidade da Ômicron?

Posso responder como neurocientista. Depois de dois anos sofrendo essa crise, a maioria das pessoas está em busca de qualquer narrativa, qualquer desculpa para a luz no fim do túnel. Infelizmente, os meios de comunicação dão voz a algumas pessoas que estão falando somente opiniões, não evidências científicas.

Uma vez que há uma narrativa que apela para nossa vontade de nos livrar do inimigo, o cérebro assimila essa narrativa e sincroniza com outras pessoas que assimilam essa narrativa. Você cria uma bolha, uma tribo que defende essa fake news. É por isso que as fake news são tao fáceis de serem disseminadas.

Quais são os perigos da Ômicron pelo quais devemos evitar essa narrativa da leveza?

Qualquer organismo capaz de infectar, em 24 horas, mais de três milhões de pessoas do mundo, é perigoso. Ninguém sabe quem vai desenvolver covid-19 crônica, uma síndrome que afeta milhões de pessoas pelo mundo, com lesão no coração, cérebro, pâncreas pós a doença. Há pessoas que desenvolvem diabetes por lesões pancreáticas causadas pela covid.

Casos de covid-19 cresceram mais de 200% em uma semana (Foto: Agência Brasil)

Esse é um vírus que eu digo que é para não se ter. Mesmo quadros leves, assintomáticos, podem te levar a quadros crônicos. Os Estados Unidos passaram a ter mais de um milhão de casos por dia.

"Das 150 mil pessoas internadas, 25 mil estão na UTI. É um número altíssimo. Não dá para falar que um barato desses é leve se você pode morrer. Voce não sabe se você vai ser o 1%. Ninguém prevê como será sua infecção".

Essa história da leveza veio da África do Sul, de uma médica que tinha pacientes infectados e jovens. E o quadro deles era leve. Mas, semanas depois, os óbitos estavam crescendo, como agora acontece nos Estados Unidos e Reino Unido. A narrativa de que a Ômicron é leve não cola, não é suportada por fatos.

Vejo o senhor sendo chamado de alarmista. Isso te desperta algo?

Há dez anos, eu respondia [risos]. Hoje, se a pessoa é ofensiva, bloqueio direto. Se a pessoa só fala besteira, silencio. Não perco tempo. Mas acho que é a terceira vez que me chamam de alarmista, e a terceira vez que o alarme vira realidade. Em março de 2020, falei que precisávamos fazer lockdown, e as pessoas falaram que eu estava perdendo alguma conexão [mental].

Naquela época, os governadores do Nordeste estavam dispostos a fazer algo. Nossa maior contribuição, enquanto Comitê Científico do Consórcio Nordeste, foi aplainar a primeira curva de óbitos.

Conseguimos fazer isso e foi por causa dessa ação na primeira onda. Quando alertei, em novembro de 2020, sobre a segunda onda que seria bem pior, os dados eram claros, ninguém queria mais fazer nada.

Isso foi determinante para sua saída do comitê?

Não estou acostumado com essa politica de fritar as pessoas. Eu pedia reuniões, as reuniões não ocorriam. Chegou em janeiro de 2021, eu disse: ou fazemos lockdown ou vai ser tragédia bíblica, para entrar na história. E não consegui sensibilizar a liderança politica do consórcio.

Me perguntei o que eu estava fazendo ali, abandonando minha vida, minha família, fiquei no Brasil para isso. Não houve nenhuma desavença. Mas sou cientista profissional e os políticos brasileiros não entendem que quando recomendamos restrições não é por sermos pessimistas.

Essa palavra, pessimismo, está em voga, né?

Um dia desses um colega deu entrevista dizendo que estava otimista que a pandemia ia acabar. Eu disse: bom, qual é o método científico otimista? Pode acabar a pandemia, o vírus mesmo pode cometer suicídio, isso já ocorreu outras vezes. Mas é imprevisível. Eu fiquei muito feliz com o trabalho que fiz no comitê.

Só que chega uma hora, quando você é profissional, que você não aceita ser tratado com nada menos do que profissionalismo. Se eu sou contratado para fazer análise de risco, e não sou ouvido, vou embora, na maior tranquilidade.

Vimos como a segunda onda foi devastadora. Era óbvia [uma terceira onda], você só precisava ter o mínimo de experiência. A Delta foi um problema no mundo inteiro, demos sorte, no Brasil, que ela chegou numa janela de imunização, mas a qualquer momento viria o repique. Mas aí abrimos de maneira desvairada, fizemos festa. A Ômicron chegou aqui num terreno fértil. Os gestores agora não têm nem coragem de mencionar a palavra lockdown.

O senhor acha possível esse lockdown finalmente ser adotado?

Nós vamos ter um lockdown reverso. A Ômicron que vai decretar o lockdown no Brasil e mundo. As pessoas estão ficando em casa porque estão doentes. Mas esse é o lockdown não é desejável. Nós temos que prevenir, mas estamos deixando o vírus ditar as regras. Esse é um dos problemas do Brasil: nós nunca estivemos um passo à frente do vírus, nós sempre estivemos passos atrás, apagando incêndios, nunca prevenindo.

"O clima para fazer qualquer lockdown é baixo e ruim. Algumas capitais do Nordeste fizeram no passado, como São Luis e Fortaleza. Em julho de 2020, alertei que Salvador precisava fazer lockdown. O prefeito à época, o ACM Neto, época achava que sabia mais do que a gente".

Até hoje sou curioso para saber qual métrica ele usou para saber mais. Salvador nunca teve um lockdown correto e muita gente morreu por causa disso, na primeira e segunda onda [Em Salvador, a adoção de lockdown se restringiu a bairros com maiores índices de infecção pela covid-19].

Ômicron tem imposto mudanças ao redor do mundo (Foto: AFP)

O lockdown que veremos, no Brasil, será o da Ômicron ditando as regras. O pior será que esse lockdown incluirá um recorde de profissionais de saúde infectados. Imagino que os profissionais de saúde estejam expostos a níveis de infecção inacreditáveis. Essa é uma das razões pelas quais deveríamos quebrar a transmissão do vírus - usando máscara, vacinando, sim, mas aumentando o isolamento social, que não existe, também.

Depois da segunda onda, foi um salve-se quem puder. Os gestores entraram numa competição para saber quem abriria primeiro. O principal culpado é o governo federal, mas a culpa não é só dele. O nível dos políticos para gerir essa crise foi de uma inépcia tremenda.

Aqui na Bahia, por exemplo, shows foram cancelados e o governador reduziu a permissão de público em eventos de 5 mil para 3 mil. Significa algo?

Não tem sentido. De onde tiraram esse número? Eu, se fosse imprensa, chegaria nele e perguntaria: qual foi o critério para abaixar esse número de cinco mil para três mil? Não tem sentido sanitário, o número saiu da cabeça de algum burocrata.

"A realidade é a seguinte: é muito claro que haverá colapso. A racionalidade pediria que em duas, três semanas, maneirássemos, cancelássemos copa de futebol, show, como foi feito bem na Bahia na primeira onda. Mas o pessoal perdeu o apetite político por essas medidas de restrição - agora só se fala de eleições, num país que está devastado".

Qual é a métrica dos três mil? Essa pergunta precisa ser feita com ênfase. Digo agora, como cientista, que isso é totalmente ineficaz. As pessoas vão continuar se contaminando. Reduzir de cinco mil para zero pessoas faria diferença.

Justiça seja feita: artistas na Bahia cancelaram shows voluntariamente, porque entenderam o momento. Eu entendo que é difícil, são dois anos dessa loucura, mas temos uma outra onda assustadora.

Essa onda vai bater o número de casos das duas ondas a qualquer momento, mesmo com toda subnotificação.

O presidente Bolsonaro disse, essa semana, que a “Ômicron” é bem-vinda. O que o senhor diria ao presidente sobre esse comentário?

Não existe vírus bem-vindo. O único vírus que seria bem-vindo é uma mutação terminal, uma mutação que destruísse o vírus. O vírus pode sofrer mutações que podem transformá-lo em não infectante, mas pode sofrer mutações que podem torná-lo mais letal. Essa fala de Bolsonaro só reforça a falta de empatia humana.

O ministro da Saúde [Marcelo Queiroga] disse, há algumas semanas, que 300 mortes de crianças era aceitável. Não consigo pensar num lugar do mundo em que esse ministro não fosse demitido.

Primeira criança de 8 anos foi vacinada na última sexta-feira (14) (Foto: TV GLOBO)

É uma prova de que as instituições brasileiras não funcionam hoje. Por isso que eu defendi, por meses, que o Supremo Tribunal Federal (STF) decretasse uma intervenção no Ministério da Saúde e criasse uma comissão presidida por especialistas de todas as áreas necessárias, com o poder para combate de pandemia. Os poderes constituídos, evidentemente, não deram ouvidos.

Quando a história da pandemia for contada, esses dirigentes vão ser julgados e muitos serão classificados como cúmplices desse genocídio que está sendo a pandemia de coronavírus. Segundo a Universidade de Washington, teremos 50 mil óbitos a mais até final de março e ai bateremos todos os recordes, de novo, e teremos um colapso hospitalar.

E quem teve chance de afastar o presidente e o ministério e não o fez terá que responder à história e aos familiares daqueles que morreram [de covid-19] ou adquiriram problemas crônicos.

Além desses dirigentes, você vê outros cúmplices?

Claro. Todos aqueles que espalham teorias conspiratórias, todo esse movimento antivacina que se proliferou. Todas essas pessoas que postam mentiras e falsidades ou que convencem seus parentes a não se vacinarem. Todos são cúmplices. A sociedade brasileira tem muitos cúmplices da pandemia. Muita gente aderiu a isso, por ignorância. Mas muita gente aderiu a isso propositalmente.

Existe um gabinete da desinformação da pandemia, inclusive formado por cientistas, com o professor de virologia da USP [Paolo Zanotto] que, segundo a CPI, faria parte desse gabinete para disseminar cloroquina. Muita gente terá que responder à história.

Eu vou te dizer: sou médico de formação, pela Universidade de São Paulo (USP). Não consigo acreditar, sinceramente, que o ministro atual era presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Como um cara que nega a ciência e atrasa vacinação de crianças foi eleito por seus pares?

Se as sociedades médicas estão sendo lideradas por gente desse tipo, estamos com um problema gravíssimo. É uma vergonha internacional. Se Queiroga tivesse vergonha, olharia no espelho e diria: deixa eu ir embora.

De certa forma, a pandemia denunciou um pouco que medicina se faz?

Nossa, em certos momentos deu vergonha de dizer que era médico no Brasil. Tive colegas de turma que isolaram a própria carreira médica, com comportamentos antiéticos e negacionistas, sem nenhuma base humana, não diria nem científica. Eu estudei com essas pessoas, conhecia dos bancos da faculdade. Como essa pessoa se transformou nisso? Assustador.

Teremos que refletir a medicina mais profundamente?

Sem dúvida. Os argumentos do Conselho Federal de Medicina (CFM) de que o médico tinha autonomia para prescrever independentemente do que afirmava ciência é um absurdo completo. Temos, sim, que fazer um debate sobre o que estamos ensinando no curso de Medicina, e até onde chega a opinião do médico e o que o mundo abraçou como a medicina baseada em evidencia.

Médicos foram acusados de negacionismo ao longo da pandemia (Foto: Sora Maia/ Arquivo CORREIO)

A sensação que dá é que alguns médicos acham estão acima das leis da natureza e do país. Os escândalos que tivemos sobre falsificação de atestados de óbito são coisas impensáveis. Vimos acontecer de monte e provavelmente está acontecendo.

O senhor é crítico da redução o número de dias da quarentena. Acha que essa redução causará ainda mais contaminações?

É a mesma coisa da redução de publico de cinco para três mil pessoas [nos eventos da Bahia]. Cadê a evidência? Isso daí está sendo baseado em estudos in vitro com variantes anteriores. Lá nos Estados Unidos, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CCDC) emitiu essa decisão [de redução da quarentena dos infectados] basicamente por conta do lockdown reverso causado pela Ômicron.

Não havia mais gente trabalhando nos hospitais, dirigindo caminhões. Nos EUA, há pessoas obrigadas a trabalhar nos hospitais infectadas e estão infectando também. De onde tiraram essas medidas?

Há pessoas que transmitem com uma semana. Teve gente que ficou em casa cinco dias, testou e deu positivo depois. O CDC está sendo metralhado nos EUA e certamente contribuiu para a confusão que se criou sobre qual é a quarentena a se seguir.

Não temos os dados contabilizados e não sabemos, ainda, qual é o número de dias mínimo para manter uma pessoa [com Ômicron] isolada. Aí a pessoa, com quatro dias, se estiver bem, vai querer sair. É a mesma coisa quando falaram: não precisa usar máscara fora, mas precisa usar dentro.

O pessoal só vai lembrar da primeira parte. Não existe imunidade de rebanho por infecção, porque se aparece variante, estamos expostos a novos antígenos.

Hoje, há críticas sobre quem flexibiliza, críticas sobre quem não flexibiliza. O senhor reflete sobre os discursos morais relacionados à pandemia?

É muito louco isso. Fazer um auto-isolamento neste momento é tentar se preservar, se você pode fazer, claro. Às pessoas que eu conheço, e são minhas amigas, digo: se você pode ficar em casa, fique, não aglomere. Tenho amigos que estão, como eu, há quase dois anos vivendo nesse modo: em casa o máximo possível, porque é o que temos como possibilidade para evitar o vírus.

"Notei isso no Twitter, que é a rede social que frequento mais: o discurso moral é até violento. As pessoas agridem você porque você fala que é importante e quer manter isolamento social. Teve muita gente que negou a pandemia e a utilidade da vacina e morreu".

O que acho curioso é que a pessoa faz o que ela quiser, mas tem a necessidade de ir lá e ofender ou desacreditar o que você está fazendo, com argumentos absurdos. Ontem, um comentarista de futebol de São Paulo queria me convencer que não tinha problema ter jogo de futebol.

O futebol tem um entorno gigantesco que produz aglomeração. E esse senhor, jornalista, não saía do meu pé, queria me convencer. O falso negativo da Ômicron é maior. Eu dizia: aí infecta um funcionário do clube, e aí, né? Mas essa religião chamada futebol está acima de qualquer racionalidade e ele achou que era um desserviço ao país parar o futebol. E olhe que sou fanático por futebol [Nicolelis é torcedor do Palmeiras], mas tem limite.

Quando permitiram a volta de jogos, eu não fui. Eu poderia ter ido, tenho cadeira cativa no estádio, no melhor lugar, e não fui. Lamento, mas tenho a vida toda para ver jogo de futebol.

Ainda é possível falar que cuidados pessoais nos previnem da covid, já que a vida continua normalmente?

Os cuidados pessoais ajudam, claro, é evidente. Tenho falado todos os dias: brasileiro nunca foi instruído a usar máscara corretamente. Falo que o Brasil tem o queixo mais protegido do mundo. Nunca houve uma campanha federal de esclarecimento: como usar máscara, como lavar as mãos.

"Essas medidas ajudam, mas as aglomerações, as festas, em ambientes fechados e mal ventilados... é questão de segundos para que a contaminação ocorra nesses ambientes. Na China, um estudo mostrou que uma pessoa infectou outra quando as duas abriram a porta ao mesmo tempo. O infectado não estava cantando, tossindo, nada".

É preciso quebrar as transmissões quebrando as aglomerações. Duas semanas ajudariam. Existe a possibilidade de a Ômicron ter uma subida expressiva, mas que dure menos. É uma possibilidade, não certeza. Então, o que custava centrar nossos esforços nessas duas semanas? Para ver como a situação ficaria.

Há preocupação, hoje, com alguma variante mais letal, inclusive para pessoas vacinadas?

Na Índia, há três filhas da Ômicron. Uma delas está sendo chamada de invisível, porque não é detectada pelos testes de PCR que temos. A chance de aparecer uma outra variante é gigantesca. E a chance dela ser mais grave é real.

É por isso você quebra transmissão de vírus na pandemia: para diminuir o número de casos que vão precisar de hospital, para diminuir as chances de mutação que levam a variantes, para diminuir doenças crônicas e para diminuir a criação de outros hospedeiros - já temos notícia de outras espécies espécies infectadas pelo coronavírus.

O senhor enxerga alguma solução ou o caminho das epidemias simultâneas não tem volta?

Esse já é um cenário sendo discutido nos organismos internacionais. Essa pode ter sido a primeira grande pandemia do século 21, mas não a última. Estamos vivendo isso. Os Estados Unidos também tiveram um surto de H3N2, mas o nosso nem sabemos direito como ocorreu, porque não houve teste.

Amigos meus, infectologistas, acreditam que muitos casos catalogados como H3N2 eram Ômicron, mas como faltavam testes, não eram casos detectados. Vamos conviver, sim, com múltiplos vírus. Mas uma coisa é conviver outra coisa é ter surtos que infectam quase quatro milhões de pessoas por dia.

A gente tem mecanismos e ferramentas para combater essas infecções, isso que é o mais chocante. O fato de as várias vacinas terem sido produzidas em menos de um ano é incrível, deveria ser manchete em todas as retrospectivas de 2021. Pouca gente falou disso, mas precisamos falar disso. Se nos não tivéssemos tido essa vacina, olha... a mortalidade teria explodido no mundo todo.

Pesquisadores israelenses apontaram para o fim desta pandemia. Você acredita que já é possível pensar num fim?

[risos] É cruel. No artigo que saiu no The Guardian [jornal britânico] nesta semana, essa tese foi totalmente desmantelada. Quem pode prever o fim? Os caras falaram algo, lá no Guardian, que eu acredito plenamente: quando você fala no fim da pandemia, você tira o foco da prevenção do que está ocorrendo aqui agora, que é uma variante nociva e letal.

Ninguém falou que ela não é letal. Falar que a Ômicron é o começo do fim é cruel para pessoas que não entendem como a biologia funciona e vão se iludir. Epidemiologistas famosos falavam que a pandemia ia acabar entre outubro e novembro de 2020. Aquilo era coach, não ciência.

Tem muita gente jogando para a torcida, mas cientista não pode jogar para a torcida, agrade ou não agrade. Outro dia, no meu Twitter, me chamaram de muito pessimista. Mas me diga o que eu falei que não se materializou? A terceira onda era algo inevitável, mas dependia da dinâmica de muitos fatores. A terceira onda, para mim, começou quando a Delta chegou ao Brasil.

"O que ocorreu é que ela abortou aqui, o que foi positivo. Mas, agora, não tem como escapar. Ninguém chama de terceira onda, as pessoas evitam dramaticamente falar de terceira onda. A gente vai chamar do quê? De acidente de percurso?".

Ontem usei uma metáfora: se você é médico e tem um paciente com doença grave, que pode ser letal, seu dever é alertar, com toda solidariedade e empatia. O paciente tem o direito de saber, o médico tem o dever de alertar.

Nosso trabalho não é passar a mão na cabeça das pessoas. Nós vamos sair da pandemia, mas não podemos mentir.

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