O batismo de Leo no Carnaval de Salvador

flavia azevedo
26.02.2020, 12:54:14
Atualizado: 26.02.2020, 13:09:05

O batismo de Leo no Carnaval de Salvador

Aos oito anos, ele aceitou curtir a festa. Com os olhos brilhando, não parava de fazer perguntas e até entrou na pipoca

Em momentos como o que vivemos, o jornalismo sério ganha ainda mais relevância. Precisamos um do outro para atravessar essa tempestade. Se puder, apoie nosso trabalho e assine o Jornal Correio por apenas R$ 5,94/mês.

Flavia e Léo, que curtiu seu primeiro Carnaval em Salvador (foto/acervo pessoal)

Tem gente que se emociona com batizado de filho na igreja, no mar, no rio, na Chapada. Tudo bem, tudo lindo, mas eu sempre quis apresentar Leo ao Carnaval de Salvador. Esperei, pacientemente, que ele crescesse um pouco e desejasse. Oito anos e achei que tava na hora. Claro, com alguns cuidados. Uma provocação ali e outra aqui, acabei escutando o que eu precisava: “mãe, quero conhecer o seu Carnaval”. Prometi e comecei a correr pra cumprir a promessa que foi em cima da hora. Eu não acreditei que ele toparia tão rápido.

Primeira providência foi nos hospedar dentro do circuito. Mensagem pra minha amiga Piti, só que eu tinha poucas esperanças, pois ela devia estar com a casa lotada. Mas tudo já começou lindo com um “venham, amiga, será um prazer!”. Uau! Senti excelentes vibes! O projeto era só olhar a rua bem cedinho, ver a passagem dos trios, uma espécie de “amostra grátis”. 

Acordamos, segunda-feira, na casa de Marcelo, o amigo com quem tínhamos ido a Maragogipe, para o Carnaval de máscaras. Logo de manhã, no deslocamento para a casa de nossa amiga, Leo conheceu o estresse do motorista do Uber, os portais de acesso ao circuito, a espera pela abertura do shopping e o fato de que não há como sacar dinheiro nas ruas e adjacências do circuito oficial. Eu tinha esquecido disso, que mico! Imperdoável. Tome-lhe cartão de débito e nenhum dinheiro no bolso. É “com emoção” que fala. Já foi embutida a primeira lição: é proibido, nesses dias, se estressar. Fomos suaves.

Piti nos buscou no shopping e já tinha um esquema armado. Disse que João (@maracujadegaveta), filho dela, deu a ideia de irmos pro camarote de D. Berna, num prédio ali pertinho, e que @RodrigoGonzagaa tinha garantido duas pulseiras. Uma pra mim e outra pra ela, porque Leo não precisava. Daí, foi só tomar as Heineken, dar risada com @pavedog e esperar, em casa, que o sol baixasse. No meio disso, recebemos a notícia de que João havia sido convidado pro camarote de Veveta. Brenda (@be_leal), a linda namorada dele, estava cansada, mas o amor é maravilhoso e ela também resolveu ir. Em poucas horas, estaríamos todos (menos Pavê, tadinho) no Carnaval.

O camarote de D. Berna era demais! Tinha espaço livre, gente feliz e gentil, além de um churrasquinho delícia bem na porta do prédio. Ali, comecei a ver os olhos do meu filho brilharem e a escutar as perguntas que nunca mais acabaram. Ivete veio no primeiro trio daquela sequência interminável. Ele pirou com tamanhos, texturas, cores, potências musicais. Pouquíssimos metros nos separavam dos trios que passavam. Alguns, ele conheceu, inclusive, confortavelmente sentado. Até que (filho de peixa, claro), ele me disse “quero ir na pipoca”. Respirei fundo e falei “seja feita a sua vontade”. 

Não o levei para a confusão, mas pertinho, numa rua do lado. Ele não curtiu o cheiro de cerveja no ar, achou abafado e já desanimava quando Piti anunciou: "sabe o camarote de Ivete? Também fomos convidados". De novo, os olhos de Leo brilharam. @carolsangallo, ao saber que Piti estava com uma amiga que levava ao filho em seu primeiro Carnaval, disse "venha com eles!". Achei absolutamente simpático. Principalmente porque conheço a lógica de convidar apenas "quem importa", que cerca esses espaços. Carol não sabia nem o meu nome, eu não estava a trabalho, o jornal sequer foi mencionado. Foi afetuoso e natural.

O camarote tem essa energia. Acolhe, diverte, é engraçado. Não vi famosos contratados, não vi pose excessiva. Leo estava em casa. Era a terceira etapa: teve pipoca, teve camarote querido do prédio e agora o de Veveta, numa pegada profissa, mas que também não esbanjava. Achei ajustado aos tempos, um formato atualizado. Meu filho curtiu horrores. Eu, @piticanella, João e Brenda também. Tanto que, quando nos demos conta, estávamos na rua havia sete horas: já era uma da madrugada.

Hora de voltar pra casa. Fim de uma noite onde, entre outras coisas, ganhei uma comadre. Claro que, se foi um batismo, Piti Canella foi nomeada Dinda de Carnaval do meu filho. Leo foi apresentado aos que abrem os caminhos e cuidam nas ruas. Tanto que a minha taça de champanhe foi derrubada quando pensei "cuida dele, Exu", olhando as ruas e desejado que ele seja tão feliz e protegido quanto eu sou, nas quebradas. Dormimos, exaustos. De manhã, perguntei se ele queria repetir a dose e a resposta foi que já tava satisfeito e também dolorido. Perguntei "onde dói, meu filho?" e escutei: "tudo, menos os olhos, mãe". Pronto, Leo entendeu. Prazer, alegria, dor e cansaço, isso é Carnaval. Grata a todos/as os/as envolvidos/as nesse rito de passagem. Laroyè, Exu! Evoé, Baco!

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas