O dia em que Garrincha ‘substituiu’ Pelé em Alagoinhas e parou a cidade

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21.02.2021, 06:30:00
Atualizado: 27.02.2021, 17:13:22

O dia em que Garrincha ‘substituiu’ Pelé em Alagoinhas e parou a cidade

O Rei se contundiu antes de amistoso do Santos contra o Atlético-BA, em 1972. Anjo das Pernas Tortas foi ‘convocado’ para ser a atração da partida

Garrincha (agachado, à esquerda) posa para foto antes de Atlético de Alagoinhas x Santos; arquibancadas lotadas (Foto: Acervo Francisco Bacelar)

Era 1º de abril de 1972 e, para muitos, ainda parecia mentira a informação que cortou Alagoinhas mais rápido que o trem: Pelé não jogaria no dia 2. Seria a estreia do maior de todos em Alagodé, como é chamada a cidade do nordeste baiano pelos mais chegados. A ‘presença vip’ do Rei ocorreria num amistoso entre Santos e o aniversariante Atlético de Alagoinhas. “Como assim, Pelé não vem?”, questionavam-se pelas calçadas até as beatas, ora descrentes.

Apesar dos ingressos venderem que nem água, Sua Majestade, realmente, não desaguaria no estádio Carneirão no domingo adiante. Coube então ao prefeito da cidade – a qual ostenta a fama de “segunda melhor água do mundo” – buscar o segundo melhor nome possível para ‘substituir’ Pelé, e manter a chama do delírio coletivo acesa. Foi assim que Garrincha, nome de passarinho, voou para acudir o Carcará.

Era o aniversário de dois aninhos do clube (atual vice-campeão baiano), e outro novinho da ocasião lembra bem da comoção que a vinda do astro gerou. Atual secretário estadual da Infraestrutura, Marcus Cavalcanti tinha 12 anos quando recepcionou Garrincha. “Ele chegou no dia do jogo e foi lá pra casa. Não tinha concentração, nem nada, porque era jogo de exibição”, relembra o filho de Murillo Cavalcanti (in memoriam), prefeito da época e um dos fundadores do clube.

Garrincha ao lado de Murillo Cavalcanti, ex-prefeito de Alagoinhas, no dia do amistoso (Foto: Acervo Marcus Cavalcanti)

Dias antes da vinda do Santos 'de Pelé', os jogadores do Carcará se preocupavam. Um dos melhores do time, inclusive, confessou o temor que o Rei lhe provocava.

“O meio-campo do Atlético tinha Dendê e Merica [posteriormente contratados pelo Flamengo], com Catu na frente de zaga. E Catu contou que tava com medo de marcar Pelé: ‘não vou bater, mas vou colar nele o jogo todo’, dizia ele. E eu, menino, lembro dessa conversa lá em casa”, cita Cavalcanti.

Sem Rei
Uma contusão de Pelé, poucos dias antes, poupou o cagaço de Catu, que viu sair da frente o grande oponente e ganhou um formidável aliado. A expectativa positiva do público, no entanto, foi lá pra baixo, sem O Cara, mas tudo mudou rápido. “O fato dele não vir gerou uma decepção, mas atenuou porque a contusão foi algo de jogo. Não foi ‘desculpa’ para não jogar no interior. Aí entrou Garrincha, com dois ou três dias”, destaca o titular da Seinfra.

Outro que lembra da decepção com a baixa real é Chico Reis, também ex-prefeito, então com 19 anos. “Salvo engano, o Santos jogou no meio de semana, em São Paulo, já sem Pelé. Ele estava se recuperando de um estiramento, e o Atlético havia contratado o Santos para vir com o seguinte acordo: com Pelé era um valor, sem Pelé era outro, mais baixo”, recorda ele, que elogiou Murillo pelo contra-ataque fulminante.

Isso era imprescindível, afinal, àquela altura, muitos ingressos já tinham sido vendidos. O amistoso, aliás, mobilizara toda a região. Garrincha foi a reparação ideal. “Vieram caravanas de Ribeira do Pombal, Nova Soure, Olindina, Ouriçangas, Mata de São João, então, essas pessoas vieram não apenas para ver o Santos e o Atlético, como e principalmente para ver Mané Garrincha”, destaca Reis, que tentou acompanhar cada passo das pernas curvas de perto. 

Aglomeração e birinaites
“Foi um dia de festa. Parou a cidade. Acompanhei a chegada de Garrincha desde a manhã, quando ele se hospedou na casa do prefeito, que morava atrás da Igreja Matriz. Passou a manhã com a casa cercada de gente. Eu vi Garrincha ali de perto”, conta Chico Reis, lembrando do calor humano e do atmosférico, os quais fizeram Garrincha beber da água que passarinho não… Ops! Bom, reza a lenda que o craque já sabia que o H²O local era ideal para produzir cerveja…

“Eles estavam bebendo pela manhã, Garrincha também. Quando o vi, bebia cerveja, embora dissessem que de vez em quando tomava uma mais quente. Almoçou também na casa de Murillo. Na parte da tarde, o jogo aconteceu”, resume o paparazzi de ocasião.

Um desses curiosos no entorno da mansão dos Cavalcanti era o sogro deste colunista, o aposentado Fernando de Souza, 62. Foi ele quem me contou essa história, sobre a qual perguntei ao Google, que disse desconhecer completamente. “Cheguei perto de Garrincha, tirei até foto, mas não tenho mais. Muita gente chegou perto dele”, relembra a aventura de guri.

O engenheiro químico Francisco Bacelar, 58, era ainda mais menino que meu sogro, e lembra um tanto menos daquele dia histórico para Alagoinhas, embora o suficiente para descrever o ambiente. “Gente como a porra, menino como a porra! Eu tinha 10 anos, e a gente queria ver a zuada, a muvuca”, conta ele, que é filho do empresário José Carlos Madarino Bacelar, diretor do Carcará na época. 

Lembrar da partida é também uma forma de matar a saudade do velho, que faleceu em agosto passado, vítima da covid-19, meses antes de completar 91 anos. “Meu pai teve a vida dedicada ao esporte, ao futebol. Em 72, era diretor do Atlético e viria a presidir o clube em 76”, lembra Francisco, explicando o motivo de ter guardada consigo a imagem rara (inédita na internet) de Garrincha como ponta-esquerda do time da casa.

Quase a contragosto, foi ele também que assinalou a participação do craque, no ano seguinte, em um amistoso em Feira de Santana, grande rival regional. “O futebol sempre mexeu com Alagoinhas. E a gente sempre rivalizou com Feira, com o Fluminense, e o comércio também, tudo. Existia uma rivalidade muito grande, e chegava a ter confronto de torcidas organizadas”, cita, como que ciumando o dia em que Garrincha vestiu a camisa do Touro do Sertão.

Em 73, no aniversário de emancipação de Feira, Garrincha jogou o amistoso local Fluminense 1 x 0 São Paulo. Em cada tempo vestiu uma camisa. Nessa foto divulgada pelo Flu, aparece ao lado de Mundinho, pai de Júnior Baiano (Foto: Flu de Feira/Reprodução)

Dez anos da segunda estrela
Traição perdoada, como também o fato de não ter jogado quase nada em Alagodé. Quem entrega é Chico Reis, outro que registrou o clima no estádio, no 3 x 0 que o Peixe impôs, sem amplos reclames locais.

“Estava lotado. Foi um dia de festa e eu tive a felicidade de ver aquele jogador com as pernas tortas e um futebol muito bom, embora nesse jogo ele não tenha ido tão bem. Não só por causa do peso da idade, mas também pelos birinaites que povoaram a mente”, anota o ex-prefeito, que antes da carreira política, chegou a jogar pelo Atlético.

Um tanto antes dele, naquele memorável abril de 72, Garrincha envergou a 7 do Carcará como que para marcar no livro das coincidências os 10 anos de sua jornada no Chile. Por lá, nas cercanias de Viña Del Mar, pegou, matou e papou a segunda estrela, o bi mundial do Brasil, trilhando igualmente a ausência incidental e involuntária de Pelé. Uma década depois, uma semana depois de se aposentar no Olaria, Garrincha encontrou Alagoinhas esperando por ele na estação, na hora exata para a partida perfeita por linhas tortas.

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