O medo de volta ao Calabar: moradores se queixam da ação ostensiva da PM

salvador
05.03.2020, 05:10:00
Policiamento é reforçado nas ruas do bairro após morte e protestos (Arisson Marinho/ CORREIO)

O medo de volta ao Calabar: moradores se queixam da ação ostensiva da PM

Estopim para protestos dos últimos dias foi a morte de jovem da comunidade

Uma região pacificada onde a paz vem sendo retirada por quem deveria mantê-la. “Eles não respeitam ninguém. Batem, xingam e ameaçam até os trabalhadores”, disse um morador do Calabar em relação aos policiais militares de unidades como a Rondesp e da 41ª Companhia Independente (CIPM/ Federação).

Alguns moradores disseram que os PMs não têm o mesmo preparo dos policiais que atuam na Base Comunitária instalada na comunidade. “Eles tratam a gente aqui como costumam agir em outras regiões e, infelizmente, os policiais da Base não podem fazer nada porque a violência é trazida pelos próprios colegas”, emendou a fonte.

O morador disse que a morte de Marcos Vinicius Ramos Salomão, 21 anos, na noite da última segunda-feira (2), foi o estopim para a população local ter reagido às abordagens truculentas de policiais com vandalismo – um ônibus foi queimado no Largo do Camarão, que liga a entrada do Calabar a Ondina. “O rapaz era envolvido, mas na hora não estava armado. Estava com um grupo de amigos que correu. Ele também correu e foi alcançado e morto pela Rondesp. A população não reagiria dessa forma se ele estivesse armado”, disse ele novamente.

Viaturas da PM na marginal da Avenida Oceânica, onde um ônibus foi queimado; fiação foi substituída (Foto: Betto Jr.)

Base comunitária 
Em 27 de abril de 2011, o bairro do Calabar, na ocasião tido como um dos bairros mais violentos de Salvador – os índices atestavam –, recebia a primeira Base Comunitária de Segurança (BCS) do estado, um projeto nos moldes de outro já existente no Rio de Janeiro que, numa nova política pública de segurança, teve o objetivo de reduzir a violência e a criminalidade no estado.

Os policiais da unidade receberam treinamentos específicos para conviver com a comunidade. “A gente não tem o que falar dos policiais da Base. Parecem que fazem parte de uma outra polícia”, disse uma moradora ao CORREIO na manhã dessa quarta-feira (4). O último registro de Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLIs) no Calabar - e que não incluem mortes pela polícia - foi em 7 de fevereiro de 2012. Os CVLIs contabilizam homicídios, latrocínios e lesões corporais seguidas de morte.

Com a Base do Calabar, houve uma redução significativa dos Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLI) nas regiões do Calabar e Alto das Pombas, ambas conhecidas historicamente por conflito entres grupos de traficante. A unidade passou a ser exemplo e outras foram inauguradas em Salvador, região metropolitana e no interior da Bahia. No entanto, a tranquilidade já não é mais a mesma.

“Os policiais que não convivem aqui agem com truculência. Batem em todo mundo. Ofendem mulheres, crianças e idosos”, contou ela.

Uma comerciante disse que alguns trabalhadores são agredidos por PMs da Rondesp quando chegam para trabalhar na madrugada. “A gente cansa de ver eles batendo no rosto das pessoas que vêm para trabalhar aqui ou da própria comunidade em padarias, mercadinhos, escolas e posto de saúde. Eu fico horrorizada”, declarou a comerciante.

Outra moradora relatou ao CORREIO mais situações relacionadas à truculência de policiais que não fazem parte da Base Comunitária. “Já tivemos aqui casas invadidas e reviradas por policiais da Rondesp e da 41ª (CIPM/Federação). Quebram tudo, jogam tudo no chão e a gente tem que ficar calado para não levar um tapa na capa, quando não um tiro”, contou.

Ainda segundo moradores, a circulação de policiais militares que não fazem parte da Base sempre ocorreu, mas há um ano vem aumentando e nos últimos seis meses tem ocorrido com muito mais frequência.  “Antes, vinham aqui esporadicamente e em algumas vezes eram truculentos. Agora, são duas, três e até quatro incursões durante a semana e com muitas agressões”, disse uma liderança local que preferiu não se identificar.

Quebra de acordo
Para o pesquisador do Laboratório de Estudos sobre Crime e Sociedade (Lassos/ Ufba) e professor da Universidade Federal da Bahia, Luiz Cláudio Lourenço, existia uma gestão de conflito na região apesar das atividades ilícitas, o que impedia a violência. “Alguma coisa em termos de acordo foi quebrada neste episódio [da morte do morador]. As atividades ilícitas na região não tinham a violência como consequência. Não tinham relatos de violência, houve a morte e agora há uma reação à morte”, explica.

O professor ressalta a diferença entre a ação dos policiais da base comunitária e dos agentes que não trabalham na base. “Uma é a polícia da base que deve agir para gerar a segurança para os moradores da região. Outra é a ação ostensiva dos agentes, que entram no local armados, fazem operações truculentas e não respeitam a casa das pessoas. Esse último tipo é danoso para a relação da corporação com a comunidade”, pontua.

Ainda segundo Lourenço, a prática ostensiva da polícia contribui para a insegurança na região. A presidente do grupo Renascer, que administra a escola aberta do Calabar, e ex-presidente da associação de moradores do bairro, Nilza de Jesus Santos, afirma já ter presenciado atos ofensivos de agentes policiais contra a população local. “Acho que a polícia tem que manter a ordem, mas as pessoas já me falaram que foram maltratadas pelos policiais, que até entram nas casas”, relata.

O que diz a PM
Em nota enviada ao CORREIO, a Secretaria da Segurança Pública esclarece que "a região do Calabar e Alto das Pombas é patrulhada pela 41ª CIPM, unidade que coordena as ações da Base Comunitária. Ressalta que o tráfico é combatido diariamente, enfraquecendo as ações de criminosos. A BCS é subordinada à 41ª CIPM. E a Rondesp Atlântico faz ações diárias em todas as localidades de atribuição dela. O Calabar é uma delas”.

Atualmente, a facção Comando da Paz (CP) detém o domínio do tráfico no Calabar, enquanto a arquirrival Bonde do Maluco (BDM) atua do Alto das Pombas.

O CORREIO procurou também a Polícia Militar. A corporação respondeu que “denúncias sobre atuações desconformes de policiais militares devem ser levadas a Ouvidoria ou Corregedoria da PM-BA, para que sejam investigadas formalmente. É importante ressaltar que a identidade do denunciante é preservada”.

Em relação à atuação de unidades, a PM disse que acontece de acordo com as suas delimitações territoriais. “Neste caso, a 41ª CIPM e a Rondesp Atlântico correspondem à região, portanto podem e devem atuar na localidade, inclusive na situação de necessidade de intensificação de policiamento”.

A nota finaliza informando que “em curso de formação, os policiais militares são treinados para atuar de acordo com a legislação, em proteção ao cidadão, respeito aos direitos humanos e preservação da ordem pública”.

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