O Palácio Rio Branco deve virar hotel?

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28.04.2019, 03:00:00
Atualizado: 29.04.2019, 08:42:46

O Palácio Rio Branco deve virar hotel?

Construção que serviu de moradia para governadores até 1908, hospedou a rainha Elizabeth II e testemunhou grande parte da história política da Bahia, o Palácio Rio Branco deve virar hotel?

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Não

Não precisamos de novos hotéis

Salvador é o terceiro maior polo hoteleiro das capitais, ficando atrás somente de São Paulo e Rio de Janeiro: temos 404 hotéis e 40 mil leitos. No ano de 2018, ficamos com uma ocupação de 62% na hotelaria. Isto significa uma ociosidade de 15.200 leitos diariamente (38%) deixando de faturar nesses 365 dias mais R$ 277 milhões somente com diárias na hotelaria, sem mensurar o restante da cadeia produtiva que interage com outros 50 setores. O ano passado foi o primeiro em que atingimos a ocupação acima de 60%, mas com diárias médias estagnados há mais de 6 anos e com defasagem de 70% nas mesmas.

Não precisamos de novos hotéis, mas sim de incentivos aos que aqui estão instalados e lutam bravamente para continuarem abertos. Nosso Centro Histórico tem três hotéis de luxo instalados em prédios protegidos, sendo que um deles passa por uma grave crise, além, é claro, das pousadas cheias de charme.

Precisamos de políticas públicas para manutenção e preservação dos nossos monumentos históricos, bem como o enfrentamento da insegurança e dos graves problemas sociais que atingem o Pelourinho. O Palácio do Rio Branco pode, sim, continuar como um museu ou sede de uma secretaria, a exemplo a do Turismo. Se a intenção do governo é estimular a ocupação de prédios tombados, existem diversos casarões vazios e o próprio estado deveria ser o primeiro a dar este exemplo.

"Não precisamos de novos hotéis, mas  de incentivos aos que aqui estão instalados "

Sabemos que, em outros países, prédios históricos são usados como hotéis, mas este não é o caso de transformar a primeira residência oficial do governo do estado, pois iria concorrer e canibalizar um mercado que ainda não está maduro. Precisamos que o núcleo duro do estado (casa civil, infraestrutura e fazenda) encare o turismo como atividade econômica e estratégica, pois geramos 7,5% do PIB. Depois do agronegócio, somos os maiores empregadores e temos uma dotação orçamentária somente de 0,14%, que em áureos tempos chegou a 0,73%.

Com a crise da Avianca, o estado precisa traçar metas claras de como irá se comportar com o ICMS do querosene da aviação, pois a guerra fiscal está instalada e perdemos HUBS (distribuição de voos) para Fortaleza, Recife e agora São Paulo, que entrou com grande determinação para conquistar uma eficiente malha aérea. Nossos esforços devem ser centrados para atração de voos internacionais e companhias “low costs”.

O que vemos hoje são “cortinas de fumaça” tirando o foco dos nossos grandes desafios.


Silvio Pessoa
Diretor da Rede Sol Express, presidente da FeBHA, Vice-Presidente da CNTUR


No meio do caminho

Ser ou não ser um hotel?

O primeiro Paço dos Governadores foi edificado por Luis Dias, arquiteto trazido pelo governador geral Tomé de Souza para a fundação de Salvador em 1549 e ampliado em 1558 no governo de Mem de Sá, com  torre para sua defesa. O Paço foi sede do Governo Geral do Brasil de 1549 a 1763, quando a capital foi transferida para o Rio de Janeiro e, desde então, sediou o governo da Capitania, Província e Estado da Bahia até 1979.

O Paço ocupou o quarteirão sul da primeira “praça dos três poderes” do Brasil, em conjunto com a Casa da Câmara e Cadeia, o Pelourinho entre 1549/1604 e a Casa da Relação instalada em 1609, no local onde foi construído o Elevador Lacerda em 1873. A praça abrigou ainda a Alfândega, a Casa da Moeda do Brasil, além da Biblioteca Pública e Imprensa Oficial da Bahia, implodidas em 1970, onde foi montado o Palácio Tomé de Souza em 1985. Em 1663, o Paço foi reedificado com dois pavimentos e portada monumental em cantaria, permanecendo até 1890, quando foi reconstruído em estilo neoclássico, inaugurado em 1900. Em 1879, sua função residencial foi transferida para o palacete Cerqueira Lima, na Vitória; em 1908, para o Palacete das Mercês e, em 1916, para o Palácio da Aclamação, no governo Antônio Muniz S. de Aragão.

"Qual o destino do Palácio Rio Branco, monumento público, de uso oficial e identidade cívica?  Ser ou não ser um hotel?"

Em 10/01/1912, foi bombardeado, episódio que destuituiu o governador Aurélio Rodrigues Viana e abriu espaço para a eleição de José Joaquim Seabra. Reconstruído em estilo eclético, coroado por cúpula e vitrais, o Paço foi nomeado Palácio Rio Branco em homenagem ao ministro baiano José da Silva Paranhos Júnior, o Barão do Rio Branco.
Sua reconstrução foi projeto do italiano Julio Conti, com alterações do engenheiro Arlindo Coelho Fragoso, então Secretário Geral do Estado. A partir de 1916, as obras de decoração ficaram a cargo do italiano Filinto Santoro, com imponente escadaria de ferro e bronze e degraus de vidro, e a estátua de Tomé de Souza, obra do escultor italiano Pasquale De Chirico.

Em 1979, após a transferência para o CAB, no governo Antônio Carlos Magalhães, o Palácio abrigou o gabinete do prefeito. Em 1983, sediou a Bahiatursa e, entre 1991/2009, abrigou a Fundação Pedro Calmon. A partir de 1986, abriga o Memorial dos Governadores Republicanos da Bahia e a partir de 2010 a Secretaria de Cultura do Estado.
Fica, assim, a questão para ser discutida. Qual o destino do Palácio Rio Branco, monumento público, de propriedade do estado, de uso oficial e identidade cívica, localizado num importante sítio histórico tombado em 1985 pela Unesco?

Francisco Senna
Arquiteto e historiador


Sim

Um hotel para o Palácio Rio Branco

Sem uso, a arquitetura arruína-se. O grande impacto da saída dos órgãos públicos do Centro Histórico para o CAB, nos anos 70, acelerou de tal maneira a degradação da área que a arquiteta Lina Bo Bardi, 15 anos mais tarde, comparou o estado dos edifícios entre a Castro Alves e o Carmo ao das cidades europeias bombardeadas na 2ª Guerra Mundial.

Testemunhamos agora um renovado abandono do Centro por parte do poder público: depois do Palácio da Aclamação ter se tornado salão de festas um uso com potenciais impactos negativos sobre o edifício, agora é a vez de o Palácio Rio Branco deixar de ser usado. Curiosamente, a divulgação de um novo uso como hotel para o edifício à Praça Municipal causou mais comoção que o abandono em si.

Fato é que nas últimas duas décadas muito foi investido em estudos, planos e projetos para o conjunto edificado do Centro Histórico, comparado à mínima intervenção efetiva que viesse garantir uso contemporâneo dos edifícios (reabertura do Teatro Gregório de Mattos, Casa do Carnaval, restauração da Catedral). Neste período, destacou-se a iniciativa pontual e privada, para não dizer heroica, da reabertura do Cinema Glauber Rocha, que vem mantendo viva a Praça Castro Alves e que recentemente recebeu reforço por parte do Hotel Palace, recuperado para o seu uso original, e do Hotel Fasano, projeto que adaptou para uso distinto do original o antigo edifício-sede do jornal A Tarde.

"Se foi possível no edifício de A Tarde, na Praça Castro Alves, é possível poucos metros adiante"

A preocupação com o respeito à arquitetura do Palácio do Rio Branco, edifício eclético, erguido depois do bombardeio de 1912 que destruiu o edifício ali anteriormente existente, é facilmente dissipada diante da associação entre claros e rigorosos critérios por parte dos órgãos do patrimônio e um bom projeto de arquitetura. Se foi possível no edifício de A Tarde na Castro Alves, é possível alguns poucos metros adiante.

Enquanto a mais importante obra de azulejaria portuguesa fora de Portugal e a mais importante obra de arte colonial no país, o conjunto de azulejos no claustro da igreja de São Francisco, no Terreiro de Jesus, que padece de agressivo processo de arruinamento há 15 anos, há de ser saudada toda iniciativa que garanta alguma dinâmica positiva de uso no Centro Histórico. Particularmente, se uma cadeia de hotéis oferecesse recuperação e salvaguarda dos azulejos de São Francisco em troca do uso do mosteiro como hotel, esta seria uma atitude para ser ainda mais celebrada. Em comparação, o Palácio Rio Branco é efetivamente uma questão arquitetônica e artística menos importante.


Márcio Correia Campos
Arquiteto, professor da Faculdade de Arquitetura da UFBA.


Opiniões e conceitos expressos nos artigos são de responsabilidade dos autores



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