'O youtuber errado para seu filho pode gerar fobias', alerta psicóloga

bem-estar
15.10.2018, 06:35:00
Número de crianças que utilizam internet por aparelhos móveis cresceu de 21% (2012) para 91% (Foto: Unsplhash/Divulgação)

'O youtuber errado para seu filho pode gerar fobias', alerta psicóloga

Pais e psicólogos dão dicas de como monitorar a relação dos pequenos com o YouTube

Nada de televisão. Com mais acessos a conteúdos pelos aparelhos móveis, a não ser quando se trata da Netflix, tem sido cada vez mais difícil observar uma criança  parando na frente da tela para assistir a um canal aberto (ou, até, fechado). O Comitê Gestor da Internet no Brasil divulgou, em novembro de 2017, que 91% das 22 milhões de crianças brasileiras com acesso à internet navegam pelo celular. Em 2012, o número não chegava a  21%.

Em comparação com a TV e com a própria Netflix, o YouTube é que domina hoje as produções digeridas pelo público infantil. Sem programas com horários definidos e com possibilidades tão variadas, a maior plataforma de vídeos do mundo tem preocupado pais, que disparam, diariamente, desabafos nas redes sociais pedindo ajuda para lidar com a relação dos filhos com os youtubers. As denúncias contam, por exemplo, com casos de crianças que chegaram a se machucar pelo desejo de imitar algum ‘desafio’ feito por um youtuber em um vídeo qualquer.

“Meu filho colocou a mão no congelador, ficou com ela grudada no gelo e acabou queimado. Isso porque o youtuber Felipe Neto estava mostrando, em um vídeo, o caso de um menino que grudou a língua em um cubo de gelo”. Assim começa o relato de uma das várias mães que têm disparado denúncias pela internet em desabafos que acusam youtubers por ações perigosas tomadas pelas crianças.

O caso acima, ocorrido com um garoto de 9 anos, foi lido pelo próprio youtuber Felipe Neto, que afirmou não ter culpa na situação: “Eu avisei que aquela atitude não era correta e mesmo assim o seu filho teve a ação. Isso é falta de acompanhamento da senhora, que devia assistir os vídeos junto com ele”, devolveu Felipe Neto.

Confira o vídeo em questão:



O youtuber,  que acumula mais de 26 milhões de inscritos em seu canal,  é apenas um dos fenômenos que tem um enorme  público infantil no YouTube. Ele já afirmou que, apesar de ter retirado os xingamentos das suas produções e de colocar classificações nos vídeos, não faz um conteúdo propriamente infantil. “Quem faz esse tipo de conteúdo com segurança é o meu irmão, Lucas Neto, que tem uma equipe de psicólogos e psicopedagogos, além de outros profissionais, acompanhando todos os conteúdos para que não sejam prejudiciais para as crianças”, ponderou.

Os relatos dos pais preocupados, em geral, alertam, justamente, para a falta de preparo e de filtros de vários youtubers: “Na televisão existiam, por trás das câmeras, diversos profissionais voltados para o público infantil e envolvidos para esse tipo de trabalho. Hoje, são adolescentes, outras crianças ou até adultos sem papas na língua que estão virando espelhos para a nova geração, sem preparo algum para isso”, afirma Silvia Aguirre, 43, cujo filho, João Felipe, 12, acompanha muitos canais por influência dos amigos.

“Ele já quis pintar o cabelo igual porque alguns youtubers trocam de cor o tempo inteiro, além disso,  fica querendo ‘trolar’ os amigos, que é aquela coisa de pregar uma peça neles. Mas isso é muito perigoso porque, a depender da tal ‘trolagem’, todos podem se machucar, tanto psicologicamente como fisicamente”, conta Yasmin Aguirre, 22, sobre o irmão. “Os youtubers incitam muito essa coisa dos desafios e de ‘zuar’ o outro. Então, a minha mãe impôs um limite: ele tem que perguntar se pode fazer uma trolagem, e aí nós até ajudamos, contanto que não seja  prejudicial”, conclui Yasmin, afirmando ter sido a forma mais segura de lidar com a situação.

PERIGOS
Diferente do caso de Felipe, que já ganhou discernimento para dialogar com a mãe, crianças menores não devem acompanhar youtubers sem a supervisão dos pais. É o que afirma a psicóloga e psicopedagoga Ediene Gomes, 49:

 “A criança não tem maturidade psicoemocional para lidar com conteúdos adultos ou até mesmo com certos conteúdos que podem parecer leves para adultos, mas que estão em um nível diferente do que  aquela idade, em geral, pode assimilar. Dessa forma, a criança pode desenvolver alguns distúrbios de comportamento ou adoecimento psíquico como  defesa. Estresse, ansiedade, crise de pânico e transtornos fóbicos podem ser alguns deles”, alerta a profissional.

Em relação à idade correta para deixar que os filhos  assistam  vídeos com menos monitoramento, a psicóloga Monise Gusmão,  36, indica: “Antes da alfabetização (até os 7 anos) é ainda mais perigoso que a criança assista sozinha aos vídeos, é bom ter os pais sempre ao lado,  porque é quando eles estão criando a base da própria personalidade. Depois, é bacana, ao menos, assistir a um vídeo ou outro e ir conversando, ajudando no senso crítico da criança”.

A psicóloga ainda alerta para a necessidade da construção de bons diálogos entre pais e filhos para que esse processo seja mais simples: “Aos 12 anos, por exemplo, ainda tem que haver essa supervisão, mas, para isso, é bom estabelecer vínculos de conexão com os filhos para além dos momentos diante das telas. Eles devem saber que estão sendo supervisionados para que uma certa revolta não seja gerada pela sensação da invasão de privacidade. Por isso, é importante que o momento de assistir com os pais (ou de saber que os pais vão poder assistir aqueles vídeos depois) seja prazeroso”, explica.
 

Juliana Gutmann, 41, percebeu que a filha Alice, 7, estava assistindo conteúdos consumistas no YouTube e buscou um canal que ensinasse a pequena a criar os próprios brinquedos com reaproveitamento de materiais
(Foto: Divulgação)

OUTRAS OPÇÕES

Em relação ao desejo dos pequenos de imitar os ‘novos ídolos’, Ediene pontua os exemplos dos próprios pais como solução. “Aprendemos pelo exemplo. Por isso, é bacana mostrar para a criança que sempre podem existir outros estilos e referências, como os próprios pais. Quanto mais carências emocionais e referências parentais disfuncionais, mais as crianças criam esse contato de proximidade com os youtubers”, explica a psicopedagoga, ainda advertindo: “A tendência é que as crianças fiquem o dia inteiro na internet se os pais também ficam”.

A professora e pesquisadora em Comunicação Juliana Gutmann, 41, tem feito estudos sobre o tema e aplicado no seu papel de mãe de Antônio, 11, e Alice, 7. Eles têm horários certos para assistir a canais do YouTube e contam para a mãe sempre que encontram um novo. “Meu filho assiste muita coisa de esportes e desistiu de acompanhar alguns canais depois que conversei com ele sobre como aquelas ideias passadas por aqueles youtubers eram desrespeitosas. Através das nossas conversas, ele criou uma consciência crítica muito boa e hoje escolhe com mais cuidado o que vai conferir”, afirma Gutmann.

“É divertido assistir com ela. Ela dá risada junto com a gente e conversa quando algo não é legal”, confirma Alice, que acompanhava canais que mostravam brinquedos e a faziam desejar cada vez mais novos produtos. “Percebi que aquilo já não estava saudável. Ela não estava entendendo o valor do trabalho e do privilégio de ter alguma coisa. Então, procurei outro canal, que pudesse tratar de brinquedos, mas de uma forma diferente e criativa. Achei o canal da Paula Stephânia no meio disso. Ela ensina a reutilizar materiais simples, como papelão, para criar brinquedos personalizados. Alice passou a fazer as próprias bonecas”, relata Juliana.

Confira um dos vídeos de Paula Stephânia:



NADA DE PROIBIR

A psicóloga Ediene ainda alerta para o tempo de duração que uma criança passa digerindo esses conteúdos. “O ideal é estabelecer horários para esse fim, limitados entre 30 minutos a uma hora, com uma pausa que requer alguma atividade diferente: ao ar livre, por exemplo. O abuso do tempo assistindo pode provocar hiperatividade mental, dificuldade de relaxar e, consequentemente, distúrbios do sono, ansiedade, estresse...”, atenta.

Como solução, Monise Galvão aponta que o ideal é incentivar as crianças a assistirem os vídeos completos, sem ‘pular rapidamente’ para outros e sem ficar passeando por outros conteúdos enquanto assiste (como fazem usuários que ficam lendo comentários enquanto ouvem o vídeo rolar).

Os psicólogos concordam que proibir o acesso dos pequenos ao YouTube não seria o melhor caminho. Além de acabar distanciando o jovem do seu mundo atual, prejudicando até a sociabilidade da criança, a proibição poderia afastar o filho dos pais. 

“É bacana ficar de olho também no que os coleguinhas da escola estão assistindo e comentando. É bom ter uma reunião da escola do seu filho para falar sobre esse poder do YouTube e até da Netflix atualmente. As séries também estão aí como uma nova febre e, para os menorzinhos, é bom deixar a Netflix somente na aba Kids”, aconselha Juliana. O próprio YouTube tem também um aplicativo fechado para o tema Kids que pode ser mais uma solução para os pais agoniados com a realidade atual.

two babies and woman sitting on sofa while holding baby and watching on tablet

Crianças de até sete anos não devem passar mais de 30 minutos sem pausas assistindo a vídeos e não devem conferir os conteúdos sem que os pais estejam por perto, dialogando
(Foto: Unsplhash/Divulgação)

OUTRAS SOLUÇÕES:

• PLAYLIST BLOQUEADA
Para que os pais evitem o contato precoce e automatizado dos pequenos (com conteúdos impróprios) diante da variedade incontrolável do YouTube, uma das dicas é montar uma playlist particular com os vídeos que considera ideais e desabilitar a ferramenta de reprodução instantânea. O mais recomendado é que conect o YouTube na televisão e deixe a playlist ativa e passando na tela, dificultando a criança de clicar em opções que poderiam estar pela plataforma. Veja como fazer clicando aqui.

• APLICATIVO: YOUTUBE KIDS
Deixar a criança com acesso apenas ao que é feito de forma profissional para o público infantil: é isso o que o aplicativo Youtube Kids (Android/iOS) propõe. No app, ainda é possível filtrar o que será assistido e controlar o tempo de acesso.

• USAR OUTRA CONTA
Caso o SEU filho navegue sozinho pelo YouTube em alguns momentos, um outro cuidado é o de usar outra conta do YouTube para ele ou, se possível, um outro aparelho. Assim, as recomendações de vídeos indicados pela própria plataforma, serão mais voltadas para o que a criança consome e não para o que os pais assistem no YouTube: o que facilitaria a chegada de conteúdos impróprios.

• MOSTRAR OUTRAS POSSIBILIDADES/USE AO SEU FAVOR
Ter uma variedade de canais na lista da criança, ainda que demande um pouco mais de tempo para que ela assista, ajuda para que ela possa ampliar seu senso crítico. Assim, procure indicar canais de diferentes conteúdos para o seu filho (indo além da comédia) e busque, diante dos temas que ele mais gosta, as opções mais saudáveis, como fez Juliana ao apresentar o canal de DIY ('Faça Você Mesmo', em tradução livre) para a sua filha de 7 anos. De preferência, apresente canais que incentivam atividades extras, como o esporte ou a pintura.

• CONHECER O RITMO DOS YOUTUBERS FAVORITOS
Apesar do YouTube funcionar com horários livres e, muitas vezes, aleatórios, até mesmo para os youtubers mais profissionais, é possível conhecer um pouco da periodicidade dos youtubers favoritos da criança. Em geral, canais grandes tem dias da semana e horários exatos para postarem novos conteúdos. Para combinar os horários com a criança (o que é de suma importância, como indica a psicóloga acima), você pode começar se guiando pelos horários definidos pelos próprios canais.

• SAIR DO UNIVERSO DIGITAL
Pratique atividades lúdicas com a criança fora do universo digital. Caso apresente canais que incentivam atividades extras, pratique-as com eles, se possível. Utilize um vídeo de pintura, por exemplo, como tutorial para pintar algo em família junto com o pequeno. Isso faz com que a criança sinta que é acolhida e o desejo de ter os pais como exemplo pode ficar acima do espelhamento nos próprios youtubers.


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