‘Olha a sopa’: conheça a história do vendedor hostilizado e reverenciado em Salvador

salvador
19.06.2021, 05:00:00
Atualizado: 19.06.2021, 10:43:31
(Foto: Nara Gentil/CORREIO)

‘Olha a sopa’: conheça a história do vendedor hostilizado e reverenciado em Salvador

Após quase desistir do negócio por causa de ameaça, Izael viu vendas saltarem com apoio de moradores de condomínio no Acupe de Brotas

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Depois de ser agredido verbalmente e ameaçado por um morador de um condomínio onde passa vendendo sopas diariamente no Acupe de Brotas na noite de quarta-feira (16), a vida de Izael Menezes, 32 anos, virou de ponta a cabeça. Isso porque o episódio, que parecia dar fim ao empreendimento do soteropolitano, virou combustível para uma iniciativa de apoio e reconhecimento ao ambulante, que está realizando uma vaquinha para estruturar melhor o seu empreendimento. 

"Um mal que ficou até pequeno diante do que veio em resposta", descreve Izael, que, de um dia para o outro, saiu da frustração total com o negócio para a euforia com as vendas que bombaram depois de moradores se unirem para fazê-lo repensar sobre a desistência e realizarem uma homenagem a ele em frente ao prédio em que foi vítima de humilhação com gritos que imitavam o seu já tradicional "olha a sopa", que anuncia a sua chegada na região do Acupe.

É no grito, inclusive, que está a marca registrada da sopa e de um sujeito, alegre e simpático, que conquistou clientes pelo paladar e pela animação. "O povo do condomínio tem ele como uma injeção de ânimo. Toda vez que estamos em casa, exaustos com tanta coisa ruim que vem acontecendo, ouvimos ele cheio de energia positiva e alegria, e ganhamos alegria também, o que nos fez criar um carinho enorme por Izael", conta Laís Brito, 22, estudante e moradora do condomínio. Ela criou o grupo de onde surgiu o apoio para Izael.

"Sou desse jeito mesmo, faço as coisas com a intenção de encantar. Eu queria mesmo ser músico e ficar famoso, passando minha energia pra geral, mas já que ainda não rolou, a gente faz isso no que é possível", conta o ambulante, que precisou vender celular e violão para investir no projeto da sopa, que está a pleno vapor desde março, quando o trabalho de ambulante na praia ficou insustentável pela baixa movimentação nas areias por conta das restrições.

(Foto: Nara Gentil/CORREIO)
(Foto: Nara Gentil/CORREIO)
(Foto: Nara Gentil/CORREIO)
(Foto: Nara Gentil/CORREIO)

Ideia da sopa
Um investimento que saiu da cabeça de Katiane Peixinho, 31, esposa e sócia de Izael. De acordo com ela, a sugestão de fazer sopa para vender veio depois de tanto o marido elogiar o prato que fazia regularmente para a família, que conta ainda com três filhas. 

"Ele sempre gostou da minha comida, mas sopa era o que conquistava ele, prato preferido. Com tanto elogio, quando ele ficou sem nada, eu falei: será que vender sopa no final de tarde não dá certo? Bora tentar", lembra ela.

Foi Katiane que idealizou o negócio com sopas (Foto: Nara Gentil/CORREIO)

E o começo não foi fácil, de acordo com os dois. Metade do pequeno estoque que produziam voltou para casa nos primeiros dias, até alguém apontar o lugar certo para a venda, que antes era feita na ladeira do Acupe.

"Um cara da padaria falou pra eu ir no condomínio, que devia ter gente que gostaria de tomar. Eu fui lá, comecei a gritar e anunciar a sopa. Nos primeiros dias, nada. Até que um dia uma senhora comprou e gostou. Depois disso, pegava todo dia. Vendo isso, o povo confiou e veio atrás também", relata Izael, rindo da situação.

Conquista dos clientes
As coisas melhorarem. No início, das 10 sopas que iam pra rua, 5 voltavam. Agora, Izael e Katiane já conseguem produzir 25 sopas, que raramente sobram.

"De tanta gente que tem nesses prédios, não era possível que não tinha 10 pra comprar na minha mão, né? Tanto insisti que Deus me ajudou. Agora não falta é gente pra consumir nosso produto", afirma ele, que já consegue comprar a comida das crianças, mas precisa ampliar o negócio para pagar as dívidas que fez quando não conseguia renda. "O povo vê a gente vendendo e acha que tá rico, que tá tudo resolvido, mas o que a gente tira tem sido pra sobreviver", declara ele. 

E, se depender do carinho da clientela no Acupe, a ampliação será possível. Na quinta (17), as 30 marmitas que levou para rua acabaram em dez minutos. "O povo, além de me receber com aquele carinho gigantesco, comprou foi tudo. Tinha gente que tinha até mandado pix adiantado e, quando chegou, não tinha, ficou pro dia seguinte", diz aos risos. 

Carinho
É claro que a sopa é bem procurada, principalmente, pelo seu sabor e o precinho de R$ 5 que chama a galera. Mas, parte disso vem também do carinho que os condôminos do City Park Brotas têm com o vendedor. 

Izael, na foto com Laís, faz sucesso com os clientes no Acupe (Foto: Reprodução/Acervo Pessoal)

Taís Teles, 24, analista contábil e moradora que participou do ato de apoio ao ambulante, elogia a capacidade de venda dele e afirma que Izael e Katiane se completam no negócio. "Ele e Katiane são um exemplo pra mim. Um complementa o outro. Ela faz, mas não tem coragem de vender. Ele não sabe fazer, mas vende muito bem. Que ele só cresça nas vendas", diz. 

Já a corretora de imóveis Ana Paula Belitardo, 39, destaca a força de vontade do dono da sopa mais conhecida do Acupe. "Izael conquistou o condomínio quase todo, tirando algumas pessoas que não tem coração. Ele cativou as pessoas daqui. A gente vê a garra dele e se encanta. Mesmo com chuva, ele vem vender a sopa, passa por cima das dificuldades", afirma Ana, que fica incrédula com o fato de ele ter sido hostilizado enquanto trabalhava.

*Sob supervisão da chefe de reportagem Perla Ribeiro

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