Papais Noéis contam pedidos mais comuns e emocionantes que ouvem

salvador
24.12.2017, 07:00:00
Atualizado: 24.12.2017, 07:27:44
Papai Noel Gelson José Silva, do Shopping Piedade (Foto: Marina Silva/CORREIO)

Papais Noéis contam pedidos mais comuns e emocionantes que ouvem

Conversamos com 5 bons velhinhos, que também revelaram seus próprios desejos

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Querido Papai Noel, gostaria de pedir uma coisa este ano. Gostaria que as pessoas demonstrassem mais amor entre elas, que soubessem confraternizar. Que saíssem por aí e dissessem ‘bom dia, boa tarde’ umas às outras. Isso, para mim, já seria um presente. Com carinho, do seu colega, Papai Noel. 

Se o Papai Noel do Shopping Piedade pudesse escrever uma cartinha neste Natal, pedindo por algo justamente ao Papai Noel, seria exatamente assim. Pelo menos, é o que diz o seu representante – que, quando tira a indumentária vermelha do Bom Velhinho, se transforma no vendedor de recarga de celulares Gelson José da Silva, 59 anos, morador de São Caetano. 

Há cinco anos na função, ele continua se emocionando com os pedidos que recebe. O Papai Noel do Piedade também recebe cartinhas – depositadas bem ao lado de sua grande poltrona vermelha. Numa dessas, conheceu uma garotinha que pedia que uma amiga, que tem uma doença do coração, fique bem. “Ela queria a colega de volta e conversamos muito. Ela ficou mais tranquila e voltou aqui para me dar um chocolate decorado”, lembra. 

O Papai Noel Gelson recebe muitas cartinhas e se emociona com as mensagens (Foto: Marinha Silva/CORREIO)

Escutou, mais de uma vez, crianças pedindo para que os pais voltassem a ficar juntos. Recebeu, de uma só criança, 43 cartas – uma de cada dia, contando cada episódio de uma mesma história. Era um pedido por um móvel para a casa onde morava. “Ela pedia um guarda-roupa, porque dizia que queria ver a mãe feliz. Não aguentava mais ver a mãe sofrer”. 

(Foto: Marina Silva/CORREIO)

Com tantos desejos, houve até quem quisesse ajudá-lo a realizar os itens da lista de cada criança. Uma garotinha escreveu uma carta onde colocou algumas moedas dentro – desde centavos brasileiros até euros. “Isso me tocou muito, porque era um valor simbólico, mas que foi bem representativo”. 

Um dos pedidos que mais o envolveu foi justamente o de uma adulta: uma mulher de 43 anos que entregou uma carta pedindo uma cesta básica e uma chance de internação para fazer uma cirurgia no útero. Aí, seu Gelson já não sabe mais o quanto era ele, o quanto era o Noel em cena. Começou a ir atrás de contatos que possam ajudar a moça e acredita que vai conseguir. A cesta básica, no entanto, já está garantida. No dia 25, irá pessoalmente à casa dela, em Pirajá, entregar a cesta que comprou.  

Mais uma vez, sem saber se é Gelson ou Noel – ou se os dois se uniram em um só –, ele conta que vai continuar trabalhando na véspera e no dia do feriado. Na noite do dia 24, tem oito eventos para fazer: vai encarnar o Papai Noel em todas essas casas, por cerca de meia hora em cada. No dia seguinte, vai fazer mais uma boa ação, ao entregar presentes para cerca de 80 crianças no bairro onde mora. Calcula já ter gastado cerca de R$ 800. 

Presentes
Mas, claro, há os presentes tradicionais: entre os cinco Bons Velhinhos ouvidos pelo CORREIO, inclusive, todos citaram primeiro a boneca Baby Alive quando perguntados quais eram os pedidos mais comuns. Com elas, há outros, como as bonecas Lol e Reborn (as que representam bebês mais realistas) e os famigerados bonecos de heróis, videogames como Xbox, tablets e iPhones. 

Quando a pequena Isabele Lima, 4, chegou ao Shopping Center Lapa, foi conhecer o Papai Noel pela primeira vez. Sentou entre ele e a Mamãe Noel, na Casa da Família Noel, e começou a fazer uma lista de pedidos. “Pedi uma Barbie e pedi mais coisas”, disse a menina, antes de garantir ter se comportado durante todo o ano. 

A pequena Isabele chegou com uma lista de pedidos para o Papai e a Mamãel Noel do Center Lapa (Foto: Marina Silva/CORREIO)

A resposta do Papai Noel do Center Lapa, contudo, foi mais comedida. Entre um ‘ho, ho, ho’ e outro, ele tentava dizer que, nesses tempos de crise, o dinheiro anda curto. Por isso, era preciso que cada criança esperasse só um presente. Depois da explicação, Isabele ficou mais tranquila. 

Para o Papai Noel Josias Alves de Araújo, 59, esse tipo de situação se tornou um pouco comum. Da mesma forma, é frequente se deparar com pedidos de emprego para os pais, além de paz e amor no mundo. “Muitas crianças são muito conscientes”, explica o engenheiro civil aposentado, ao lado da Mamãe Noel Renilda Araújo, 60, que também é sua companheira na vida há 36 anos. 

Nos últimos dias, os dois receberam outra família: uma mãe e três filhos. Cada uma das crianças fez um respectivo pedido e, quando pareciam já ter acabado, a mãe interrompeu a despedida. “A mãe disse: ‘vocês não estão esquecendo de nada, não?’. E eles disseram: ‘Papai Noel, é porque o nosso pai está internado na UTI. A gente queria que ele ficasse bem e saísse de lá”, contou Josias/Noel, com os olhos marejados de lágrimas. 

A emoção que ele parecia estar tentando conter enquanto falava com a reportagem era a mesma que tinha lhe tomado na ocasião. Decidiu, então, engolir o choro e orientar que elas ‘pedissem a Papai do Céu’ pela melhora do pai na Terra. Pediu, ainda, que os pequenos se unissem ainda mais. “Deus não mandou ninguém à Terra para sofrer”, dizia, quase que para si mesmo. 

Por isso mesmo, ele pediria, ao Papai Noel, mais amor neste Natal e nos outros dias do ano. “Espero que o ser humano se conscientize e que espalhe mais amor entre os povos nos 365 dias. Vai chegar uma hora que a gente vai ver uma luz, a gente vai ver que esse não é o fim do túnel”. 

Para as crianças
No Shopping Barra, o Papai Noel também já sabe seu pedido neste Natal. “Eu pediria para Papai Noel ter muito carinho com as crianças”, diz o Bom Velhinho, que, no resto do ano, mora em Wagner, na Chapada Diamantina, e atende por Joaquim Donha Filho, 68. Agricultor aposentado, saiu de Rolândia, no interior do Paraná, 25 anos atrás, para vir para a Bahia. 

Mesmo hoje, ele, que é a terceira geração de uma família espanhola no Brasil, ainda trabalha na roça, na cidade onde mora. Virou Papai Noel por acaso, há oito anos, na época em que sua esposa era diretora de uma creche. Nem barba verdadeira tinha (hoje, ela é tão grande que ele também poderia interpretar Albus Dumbledore, diretor de Hogwarts, a escola da saga Harry Potter). 

De lá para cá, até sua concepção do Natal mudou. Até já se acostumou com os pedidos de bonecas, bicicletas e celulares, mas se comove quando se depara com expectativas para a melhora de uma doença da avó ou o retorno de um pai que trabalha em outro país. 

“Teve criança que disse que queria que o pai parasse de brigar com a mãe. Isso marca a gente”, revela o Bom Velhinho, antes de perguntar se poderia falar ‘dessas coisas’. Pode falar de tudo, Noel. Pode falar também o que o senhor fez depois: nesse caso, dizia para orar, pedir a Deus. 

O Papai Noel do Shopping Barra escutou com atenção o pedido da pequena Raiane (Foto: Marina Silva/CORREIO)

A conversa foi interrompida quando a menina Raiane de Jesus, 3, chegou para conhecê-lo. Também era a primeira vez que veria o Papai Noel pessoalmente. O que desejava encontrar debaixo da árvore? “Eu pedi para comprar uma Baby Alive”, diz, surpreendendo a irmã com a facilidade, para alguém de sua idade, com a qual pronunciou o nome estrangeiro da boneca. Enquanto conversava com a reportagem, ela virou para o velhinho e gritou: “Eu passei de ano, viu, Papai Noel?”. Ele, então, respondeu que o presente estava garantido – ainda que talvez não seja a tal boneca.

Papai Noel 'pet'
No Shopping Paralela, vez ou outra, o Papai Noel não atende nem crianças, nem adultos – atende os bichinhos de estimação deles. Lá, ao lado da cadeira do Bom Velhinho, fica o chamado ‘Trono Pet’, onde todos os animais podem tirar sua foto natalina. “Tivemos essa semana uma arara e, na semana passada, uma reunião de cachorros golden retriever”, conta o instrutor de resgate em altura e primeiros socorros Agibel Brum, 60, que há sete anos veste a farda vermelha. 

No Shopping Paralela, os animais de estimação têm um trono especial para conhecer o Papai Noel (Foto: Divulgação)

Mas os pedidos vêm mesmo das crianças. Até drone já escutou, na lista de desejos de alguns. A resposta, então, tem que ser um tanto conciliadora, até mesmo para não complicar a vida dos pais. “Eu digo que Papai Noel tem muita criança para dar presente no mundo. Digo que vou tentar atender, mas, se por acaso não conseguir, levo outro presente. Normalmente, eles aceitam,”, diz, entre uma risada e outra. 

No dia em que escutou uma criança dizendo que gostaria que o pai voltasse para casa, desabou. Chorou muito. Respondeu que os pais não deixariam de amá-lo, nem protegê-lo. Só que a emoção não deu trégua: apareceu de novo quando outro pequeno, de oito anos, pediu uma casa, porque estava vivendo de favor. “Isso, vindo de uma criança, emociona, porque sabemos o mundo que a gente vive, sabemos das dificuldades”. 

Em outro momento, um garotinho disse que queria um pudim de leite só para ele. O pedido, um tanto inusitado, foi explicado pela mãe do menino: ele tinha diabetes e não podia comer o doce. Sempre que ela fazia em casa, a menor parte era para ele. A resposta acabou sendo um pedido do Noel para a mamãe em questão: “Falei com ela: ‘oh, mãe, tem tanta coisa diet por aí. Faz algum para ele no Natal”. Ela, para a felicidade de Agibel/Noel, disse que tentaria.

"É difícil pedir, mas o meu pedido seria que essas crianças que estão vindo para o mundo tivessem mais proteção", diz o Papai Noel do Shopping Paralela

Já o pedido para o colega Papai Noel é outro, mas também pensando nas crianças. “É difícil pedir, mas o meu seria que essas crianças que estão vindo para o mundo tivessem mais proteção. Que alguns pais e mães tivessem mais responsabilidade. E, para o nosso mundo, pediria mais paz e saúde”.  

O Papai Noel do Salvador Norte Shopping também prefere não pedir nada para ele. Diz que já tem saúde, que conseguiu a aposentadoria. Agora, quer que as pessoas tenham mais respeito umas pelas outras. “Queria que os políticos tivessem mais honestidade com todos nós e soubessem agradecer e ser sinceros com que a gente dá a eles, que é o poder”, diz o aposentado José Santos Costa, 66. 

Baiano de Alagoinhas, no Nordeste do estado, vive em Saubara, no Recôncavo. No entanto, sempre que chega novembro e dezembro, vem para Salvador e se transforma naquele que é um dos maiores símbolos do Natal. Atende, todos os dias, crianças que lhe despertam diferentes sentimentos. 

O Papai Noel do Salvador Norte Shopping se emociona com pequenos e adultos (Foto: Divulgação)

“O que mais me emociona são os de 7, 8 anos, pedindo paz ao mundo. Pedem paz, segurança, alegria, ternura. Isso até me engasga a voz”, conta ele. No pé do ouvido, costuma consolar aqueles que pedem para um dos pais voltar para casa. Diz para deixar para lá, para ficarem tranquilos. 

Entre um pequeno e outro, escuta também os grandinhos. Chegam pessoas em cadeiras de rodas, pessoas com 80, 90 anos. A recepção é a mesma que as crianças têm direito: abraços, beijos, palavras de carinho. Para ele, se uma pessoa vem até o Papai Noel, é porque está precisando. Precisa de afeto, precisa de um semblante de ternura. 

Os adultos costumam dizer que ele deve continuar propagando a magia do Natal, que tudo isso é muito bonito. O melhor do trabalho, ele diz, é a energia que recebe. “É o maior pagamento do mundo. Recebo 500 mil abraços, 500 mil ‘eu te amo’”. E, nesse caso, ele sabe bem: mesmo que Papai Noel seja bem generoso, poucos presentes seriam melhores do que esses. 

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