Passarela de sonhos movimenta o mercado da moda

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21.11.2020, 07:00:00
Os irmãos Noemi e Israel Queirós participaram do Fashion Film do Afro Fashion Day 2020 (Foto: Edgar Azevedo)

Passarela de sonhos movimenta o mercado da moda

Afro Fashion Day movimentou R$ 1,5 milhão desde a sua estreia

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Desfilar na passarela do Afro Fashion Day virou o sonho de meninos e meninas baianos, afirma o produtor de elenco Pepê Santos, 39. Coordenador da agência One Models e responsável por levar nomes para as seletivas de bairro, Pepê afirma que o evento consolidado no calendário de Salvador é colocado como meta de vida por estes jovens negros.

“O modelo preto de periferia tem sonhos e pisar naquela passarela é uma conquista imensa. Tem gente que trabalha o ano todo para isso”, comenta. “Muitos deles depois criam gosto pela carreira e levam a experiência que viveram aqui. É o único evento preto de moda onde estão inseridos, têm orgulho de dizer que faz parte do currículo deles”, aponta Pepê.

Para além de mostrar a beleza física, há uma busca dos modelos por identidade. Não à toa o dendê foi escolhido como tema do AFD 2020. Ícone da gastronomia baiana, o quitute chega para fomentar o debate sobre “quem somos hoje”, explica Gabriela Cruz, curadora do AFD ao lado de Fagner Bispo.

O dendê é “símbolo de resistência e identidade, fatores importantes na formação cultural e social do nosso povo”, diz Gabriela. Editora de conteúdo do Estúdio Correio, ela também assina o projeto do AFD, criado em 2015 pelo então diretor-executivo do jornal CORREIO, Sergio Costa (1961-2016).

Projeto do jornal CORREIO, o Afro Fashion Day conta com patrocínio do Hapvida, parceria do Sebrae, apoio do Shopping Barra e Lagares e apoio institucional da Prefeitura Municipal de Salvador. De 2015 para cá, o evento se consolidou como um dos principais responsáveis por movimentar o mercado da moda baiano.

“Em 2015, partimos do zero e fizemos o desfile em 40 dias e, a cada edição, nosso sonho e ambição só cresceram: mais público, mais marcas, mais modelos. Passamos de 100 pessoas desfilando no ano passado. Isso, sem abrir mão de dois critérios: talento e atitude”, diz Gabriela, orgulhosa.

Só em 2020, foram 31 modelos e 37 marcas baianas parceiras que desfilaram para o Fashion Film, produto audiovisual que transformou bairros de Salvador em verdadeiras passarelas. Plataforma, São Tomé de Paripe, Candeal, Gamboa e Rio Vermelho serviram de cenário para o filme que tem direção de Renan Benedito e trilha sonora de Telefunk Soul.

Em 2020, foram 31 modelos e 37 marcas baianas parceiras que desfilaram para o Fashion Film do Afro Fashion Day

Economia criativa
Vale lembrar que a passarela é o foco, mas o AFD vai além do desfile de modelos. Existe toda uma cadeia criativa que movimenta o evento e transforma o mercado de moda baiano desde 2015: encontro de marcas, estilistas, realização de oficinas, bate-papos, fomento ao empreendedorismo e à produção de moda.

Com mais de 20 patrocinadores ao longo dos seus seis anos, o Afro Fashion Day “se consolida como um gerador de oportunidades para o empreendedorismo local, dando oportunidade para mais de 50 marcas apresentarem seu trabalho na passarela mais negra do Brasil”, destaca a gerente comercial do CORREIO, Luciana Gomes.

O AFD, acredita Luciana, viabilizou uma “virada na vida” de mais de 200 pessoas que desfilaram no evento. Além disso, trouxe “um expressivo resultado para as empresas que investiram e apostaram nesse projeto inovador que movimentou, desde a sua estreia, R$ 1,5 milhão”, completa.

Da marisqueira à jovem periférica, veja as histórias por trás do Afro Fashion Day

O evento já impulsionou nomes como João Damapeju, Filipe Dias, Katuka Africanidades, Negrif, Mônica Anjos, Sou Diva! Tá Bom Pra Vc? e Meninos Rei. Lu Samarato, 23, um dos estilistas desse ano que assina a marca de mesmo nome, trabalhava como produtor de moda dando suporte ao desfile de outros criadores. Há quatro anos envolvido com o AFD, viu no evento a oportunidade para consolidar sua marca.

“O Afro vem na minha vida para me lançar de fato como criador”, agradece. “A gente não tinha essa visibilidade, porque a moda por muito tempo segregou. O Afro inclui criadores, modelos, agenciadores, toda uma equipe de moda. Vem para mostrar que a moda mudou, sim, assim como toda a sociedade. A gente tem talento, potencial, o que faltava era oportunidade”, elogia Lu.

"A gente não tinha essa visibilidade, porque a moda por muito tempo segregou. O Afro inclui criadores, modelos, agenciadores, toda uma equipe de moda. Vem para mostrar que a moda mudou, sim, assim como toda a sociedade" - Lu Samarato, estilista

Exclusão
Infelizmente, ainda são poucas as oportunidades para modelos negras e negros, ressalta a modativista Carol Barreto, professora do Departamento de Estudos de Gênero e Feminismo da Universidade Federal da Bahia (Ufba). “Além da histórica exclusão dessa população de todos os espaços de representatividade e poder, a produção de estereótipos é algo que afeta muito a nossa comunidade”, alerta.

Colunista de Moda da Revista Raça, Carol destaca que, por meio da comunicação midiática, “a aparência, o fenótipo e a corporalidade de pessoa negra foi significada como algo feio,  inferior e como mentes pouco produtoras de intelectualidade”. Por isso, continua, “tratar de beleza com a juventude negra, respeitando as características culturais da negritude, se faz tão importante para elaborar a desconstrução desses estereótipos”.

A ideia das “belezas escondidas”, por exemplo, é criticada por Carol que vê a expressão como “resultado da desigualdade provocada pela lógica colonial”. “Faz parte desse sistema que nos é imposto, esse padrão europeizado de beleza. Essa outra beleza que a gente fala que ‘está escondida’ estava aí o tempo todo. É como diz a música: ‘A gente estava aqui o tempo todo, só você não viu’”, concorda Fagner.

Ciente de que há um longo caminho pela frente, o curador ressalta que o AFD “é pioneiro porque é o primeiro evento do Brasil todo focado no público negro”. “Muitos desses modelos não teriam oportunidade, pondera. “É um trabalho de formiguinha e diante de toda a reparação histórica que deve ser feita, o Afro cumpre seu papel”, acredita.

*O Afro Fashion Day é um projeto do jornal Correio com patrocínio do Hapvida, parceria do Sebrae, apoio do Shopping Barra, Lagares e Drogaria São Paulo e apoio institucional da Prefeitura Municipal de Salvador.

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