Pesca de baleias, revolta africana, casa de barão: as origens do bairro de Armação

baianidades
11.04.2021, 06:30:00
Atualizado: 18.04.2021, 02:36:49

Pesca de baleias, revolta africana, casa de barão: as origens do bairro de Armação

Local abrigou praia clandestina, teve mansão do barão do Rio Vermelho e foi palco de uma sangrenta revolta

Calçadão de Jardim Armação, orla de Salvador (Foto: Nara Gentil/Arquivo CORREIO)

Houve um tempo no qual a enorme embocadura da baía de Todos os Santos era uma porta frequente de entrada para enormes mamíferos marinhos.

Entre os meses de junho a setembro, as baleias despontavam em nossa enseada. De Salvador mesmo dava pra avistar o espetáculo de esguichos e os saltos eufóricos na dança do acasalamento. As águas mornas atraíam os cetáceos para a reprodução e nascimento dos filhotes – exatamente como ocorre hoje no santuário de Abrolhos, no extremo sul do estado.

No entanto, a mortandade por aqui foi tamanha, durante dois séculos de pesca predatória, que as baleias nunca mais voltaram. Nossa costa se tornou um calvário das jubartes e desse extermínio levantou-se prédios, fez-se a iluminação pública da cidade e resultou no povoamento de parte da Ilha de Itaparica e surgimento de bairros em Salvador.

O escritor e antropólogo Antônio Risério descreve que os índios tupinambás, residentes desta porção de terra antes da chegada dos portugueses, já eram excelentes pescadores. Usavam tanto o arco e flecha, quanto o anzol. Além de técnicas de envenenamento, com linhas de tucum, para capturar os peixes – aos quais, chamavam de pirá.

As enormes baleias, eles admiravam. Mas não tinham instrumentos suficientes para alcançá-las com suas gamboas de pesca. Chamavam-nas de pirapuama, pois acreditavam serem peixes gigantescos.

Baleias na mira
Em 1602, tudo começa a mudar. Dois espanhóis, da região basca, ganham uma concessão de dez anos para realizar a pesca de baleias na Baía de Todos os Santos. Nesta época, Portugal e Espanha estavam ligados pela União Ibérica, no reinado de Felipe III. Pêro de Urecha e Julião Miguel, seu sócio, iniciam a pesca das baleias para comercialização do azeite, extraído a partir do animal, alimentando o mercado da capital da colônia e do Recôncavo Baiano.

As técnicas com embarcações leves a vela, perseguindo os dóceis animais até farpeá-los, foram rapidamente aprendidos pelos habitantes da cidade. Em pouco tempo, começaram a surgir feitorias em muitos pontos da Ilha de Itaparica, como Amoreiras, Ponta de Areia e Gameleira.

As feitorias passaram a ser tantas que, no ano de 1614, a Coroa instituiu a pesca de baleia como monopólio real, embora o decreto fosse flagrantemente desrespeitado por estes mares.    

Do animal passou-se a aproveitar quase tudo, embora o óleo ainda fosse o principal produto.

O historiador Wellington Castelluci Junior escreve que o ingrediente era “usado como ligante na argamassa destinada à construção de prédios, igrejas, fortalezas e casas. Da ossada construíam-se cercas para os quintais, objetos de decoração e assentos de banquinhos, comumente comercializados em praças como a de Salvador”.

Já a carne da baleia não era considerada apetitosa. E, geralmente, era “destinada a alimentar os escravos, trabalhadores das armações, além de serem distribuídas gratuitamente entre a gente pobre do lugar, como caridade”, pontua o historiador.

Muito do povoamento de Itaparica tem relação direta com a pesca das baleias e a extração do óleo. No romance histórico “Viva o Povo Brasileiro”, o escritor João Ubaldo Ribeiro (1941-2014), filho da ilha, narra a saga do Barão de Pirapuama e sua riqueza a partir da pesca dos cetáceos, das tramoias com a corte e da exploração escrava – uma alegoria direta na formação da elite econômica brasileira.

Virou Armação
Já no século XIX, em Salvador, o grande barão no negócio de baleias era Manuel Ignácio da Cunha Menezes, também chamado de Visconde do Rio Vermelho. Ele passou a dominar a pesca dos animais já em mar aberto, fora da baía, numa área compreendida da Pituba até a praia de Itapuã.

Exatamente onde era o antigo Aeroclube Plaza Show, e onde hoje fica o novo Centro de Convenções de Salvador, o visconde mantinha sua gigantesca mansão, referência na cidade, tanto pela imponência, quanto pela beleza e elegância. Aquela região, por meio do trabalho escravizado, possuía várias armações de pesca de baleias – o que acabou exatamente batizando o nome do bairro: Armação, atual Jardim Armação.

Ilustração de Thomas Teller em Stories About Whale-Catching, datada de 1845
Ilustração de Thomas Teller em Stories About Whale-Catching, datada de 1845 (Foto: Reprodução)
 Livro  de 1958 traça um panorama da pesca das baleias no país durante o Brasil Colônia
Livro de 1958 traça um panorama da pesca das baleias no país durante o Brasil Colônia (Foto: Reprodução)

Também por ali, uma outra cercania ficaria bem famosa: a praia do Chega-Nego, assim chamada por ser um local de desembarque clandestino de africanos, muitos dos quais levados para trabalhar justamente nas armações de pesca.

Em 1814, os escravizados, em sua maioria mulçumana, iniciam uma revolta e destroem algumas propriedades do Visconde do Rio Vermelho. Segundo o historiador João José Reis, os manifestantes “mataram um feitor e membros de sua família, incendiaram casas e instrumentos de trabalho, como redes e cordas. Em seguida, atacaram outras armações, fazendas e a vila de Itapuã, onde mataram moradores e incendiaram casas”. Este levante de 1814 teria relação direta com o movimento de 1835, chamado de Revolta dos Malês.

Embora bela e encantadora, em seus 472 anos, a história de Salvador também se conta pelo sangue derramado. Tanto na terra, quanto no mar.

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