PIB brasileiro voltou ao patamar de 2013

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05.03.2020, 04:03:00
O presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Economia Paulo Guedes (Foto: Evaristo Sa/AFP)

PIB brasileiro voltou ao patamar de 2013

Economia brasileira cresce, mas em ritmo menor que nos dois últimos anos, aponta o IBGE

Nos três últimos anos, o Brasil iniciou o ano com expectativas de crescer na faixa dos 2% e terminou na casa do 1%. Em 2019, o Produto Interno Bruto do Brasil teve alta de 1,1%, informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) ontem.  No ano, o PIB brasileiro totalizou R$ 7,3 trilhões. Já o PIB per capita ficou estagnado em R$ 34.533, com alta de só 0,3%. 

Trata-se do crescimento mais baixo do que o registrado nos dois anos anteriores, quando a economia brasileira cresceu 1,3% em 2017 e 2018. É, portanto, a menor taxa de expansão desde o fim da recessão nos anos de 2015 e 2016, quando o PIB recuou 3,5% e 3,3%, respectivamente. O resultado veio dentro das expectativas mais recentes dos analistas, que previam uma alta de 1,1%.

No início do ano passado, porém, havia a previsão de crescimento de 2%, com a aprovação da reforma da Previdência - o que acabou ocorrendo em outubro - e outras medidas de estímulo econômico. O movimento, no entanto, se frustrou com os efeitos negativos da crise da Argentina, a queda na barragem da Vale, em Brumadinho (MG) e da baixa aceleração do consumo das famílias. No último trimestre do ano, quando tradicionalmente o consumo se aquece, a economia brasileira cresceu 0,5%, na comparação com os três meses encerrados em setembro.

Consumo 
No ano, o consumo das famílias, que representa 65% do PIB nacional, desacelerou para 1,8% em 2019, na comparação com o ano anterior. Foi o pior desempenho desde 2016. Em 2018, o indicador havia crescido 2,1% e, em 2017, o avanço foi de 2%. Apesar disso, o grupo foi o pilar do crescimento brasileiro em 2019. “O resultado dos serviços (que contribui para o consumo das famílias) explica essa diferença do ano de 2018 e de 2019 (de crescimento de 1,3% para 1,1%)”, explica Rebeca Palis, coordenadora do IBGE.

Os investimentos, medidos pela Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) também desaceleraram. Em 2019, a alta foi de 2,2%, contra o avanço de 3,9% dois anos atrás.

Rebeca Palis, do IBGE, pondera que a desaceleração nos investimentos (FBCF) em 2019 deve ser avaliada com cautela, uma vez que no ano anterior o indicador ficou um pouco inflado por conta de mudanças no Repetro (regime fiscal aduaneiro do setor de óleo e gás). “Os investimentos, em 2018, cresceram mais por conta do efeito Repetro. A nacionalização das plataformas, e sua consequente contagem no PIB, aconteceram de forma mais vigorosa a partir do terceiro trimestre de 2018. Esse é um fator que explica grande parte dessa desaceleração numérica”, disse.

Dentro dos investimentos, no ano passado, a maior contribuição ficou na conta do setor de construção. Sua participação respondeu por 44% do total do avanço. Foi o primeiro resultado positivo do segmento nos últimos cinco anos.  No polo oposto, nas contas do setor externo, as exportações caíram 2,5% em 2019, ano marcado pela guerra comercial entre China e Estados Unidos e a crise econômica da Argentina, principal parceiro econômico do Brasil na América Latina. O resultado foi o primeiro negativo desde 2014. 

Os destaques negativos foram a indústria automotiva (que tinha na Argentina o principal canal de escoamento da produção), minerais e máquinas.

Setores
Pelo lado da oferta, o PIB foi influenciado pelo desempenho positivo do setor de serviços, responsável por 74% do PIB brasileiro. No ano, o grupo avançou 1,3%, impulsionado pelos efeitos da liberação dos saques do FGTS.

Já a indústria avançou 0,5% no ano, impulsionado pelo desempenho da construção civil.

A indústria extrativa teve uma queda de 1,1%, influenciada principalmente pelos efeitos da queda da barragem da Vale, em Brumadinho.

Último trimestre
 O final de 2019 explica muito da surpresa negativa causada pela divulgação do PIB. O investimento despencou nos últimos três meses do ano passado. A chamada formação bruta de capital fixo, que mede o desembolso em novos projetos e a expansão da capacidade de produtiva, teve retração de 3,3% no período. Observando a série histórica, a retração só não supera a registrada no período de crise do governo de Dilma Rousseff e Michel Temer. É a maior queda na taxa desde o terceiro trimestre de 2016, quando a retração foi 6%. Em relação apenas à série referente ao quarto trimestre, foi a maior queda desde 2015, quando houve retração de 5,3%

A construção civil, que se destacou no conjunto do ano, também teve queda significativa, de 2,5%, no quarto trimestre. 

O crescimento da construção civil nos trimestres anteriores havia sido impulsionado pelo mercado imobiliário, sem impactos do setor de infraestrutura. Rebeca Palis não soube dizer se, no quarto trimestre, houve recuo do mercado imobiliário ou da infraestrutura.

Apesar da recuperação no ano passado, a construção ainda está cerca de 30% abaixo do pico registrado no 1º trimestre de 2014. Ou seja, ainda tem um longo caminho para se recuperar.

“A gente viu uma recuperação da construção muito puxada pela parte imobiliária [em 2019], residencial, já que a infraestrutura continua em queda”, afirmou.

Os dados trimestrais também mostram que os serviços mantiveram o ritmo de crescimento, mas um de seus componentes, o comércio, ficou estagnado nos três últimos meses do ano. Números mais fracos de investimento e construção civil no quarto trimestre surpreenderam economistas, dado que a sinalização era de recuperação. “Os dados ruins do quarto trimestre podem acabar refletindo nos primeiros três meses de 2020, mas é algo que deve ganhar corpo ao longo do ano”, diz o economista do Santander Lucas Nobrega.

Ele afirma que, ainda que as taxas de juros tenham um forte peso positivo, existem outros fatores que trabalham na direção contrária,   como a  alta do dólar.

Por que a economia cresceu pouco?

Brumadinho  
A retração da indústria extrativa, impactada pela tragédia de Brumadinho (MG), que levou a Vale, maior produtora de minério do país, a suspender a produção em diversas instalações

Incertezas  
O ambiente externo foi marcado pela guerra comercial entre China e Estados Unidos. Isso impactou negativamente a produção industrial e a balança comercial 

Emprego  
A recuperação lenta do mercado de trabalho e o desemprego resistente prejudicam o desempenho do setor de serviços 

Investimentos  
Com um volume cada vez menor de investimentos públicos, há uma grande dependência dos recursos privados, que vieram numa proporção abaixo do que era esperado


 

Jair Bolsonaro escalou o humorista conhecido como carioca para responder sobre o PIB (Foto:Reprodução Facebook)

Bolsonaro escala ator  para falar à imprensa  
Após resultado fraco do Produto Interno Bruto (PIB) em 2019, com crescimento de apenas 1,1% no ano, o presidente Jair Bolsonaro escalou um humorista para responder perguntas da imprensa sobre o ritmo da atividade econômica ontem, na frente do Palácio da Alvorada. 

“PIB? O que é PIB? Pergunta para eles (jornalistas) o que é PIB”, disse Bolsonaro ao humorista Márvio Lúcio, conhecido como Carioca, da TV Record. Em seguida, um jornalista reforçou que a pergunta era dirigida para o presidente, e não para o humorista. “Paulo Guedes, Paulo Guedes”, reagiu Carioca. “Posto Ipiranga”, sugeriu Bolsonaro ao humorista, rindo.

Vestido como Bolsonaro, inclusive com uma réplica da faixa presidencial, Carioca usou a estrutura da Presidência para oferecer bananas aos jornalistas – nenhum aceitou. O humorista que popularizou o apelido “mito” pediu para ser questionado pelos profissionais como se fosse o presidente, o que não ocorreu. À noite, o presidente afirmou que espera uma melhora no resultado do PIB de 2020, em relação a 2019. “Espero que sim... Apesar do problema do coronavírus, espero que sim”, disse ao chegar no Palácio da Alvorada.

O surto do novo coronavírus surge como o principal vilão das projeções.

Por aqui, embora o cenário ainda seja marcado pela incerteza, os primeiros impactos negativos já começaram a ser sentidos, sustentando uma onda de reduções de estimativas para o crescimento do PIB deste ano. A expectativa dos analistas do mercado financeiro caíram de 2,3% no início do ano para 2,17% no boletim Focus da última segunda-feira. 


Guedes diz que não houve surpresa
O ministro da Economia, Paulo Guedes, voltou a dizer que o resultado do PIB de 2019, fechado em 1,1%, já era esperado pelo governo. “Então até agora eu não diria que houve surpresa nenhuma. Estou surpreso com a surpresa que vocês estão tendo”, disse à imprensa ao fim de uma cerimônia no Palácio do Planalto. Ao sair do prédio do ministério em Brasília para ir ao evento, Guedes já havia afirmado não ter entendido a “comoção” com o resultado.

O ministro também voltou a falar que a economia brasileira tem dinâmica própria, e que, independentemente da epidemia do coronavírus, o Brasil vai reacelerar o crescimento, considerando a realização de reformas. “O Brasil é país de dimensão continental, tem própria dinâmica de crescimento, se fizermos nossas reformas, vamos reacelerar”, disse. “Se as reformas continuam, nós achamos que vamos passar de 2%”, afirmou.

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia tem outra visão a respeito do coronavírus. Segundo ele, a projeção de crescimento ao final de 2019 já era estava abaixo da expectativa. “Somado ao coronavírus, é claro que isso acelera no curto prazo a queda de projeção do crescimento do PIB para este ano”, disse.

Ele contudo aposta em uma recuperação. “Acho que a questão do coronavírus pode ter um encaminhamento que estabilize os problemas e que a gente possa recuperar tanto com gestão do governo quanto com aprovação de reformas”, contrapôs.

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