‘Por pouco eu não chorei a morte do meu sobrinho’, diz costureira que teve o ateliê alagado em Itapuã

salvador
31.12.2019, 15:00:00
Atualizado: 31.12.2019, 17:37:02
((Foto: Eduardo Dias/CORREIO))

‘Por pouco eu não chorei a morte do meu sobrinho’, diz costureira que teve o ateliê alagado em Itapuã

Maria da Glória perdeu praticamente todas as encomendas para a festa da virada de ano

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(Foto: Eduardo Dias/CORREIO)

De um lado do atelier de dona Maria da Glória, de 63 anos, conseguiu juntar uma pilha de tubos de linhas de costura para salvar do alagamento. Do outro, ela deixou um amontoado de roupas de clientes encomendadas para a festa da virada do ano, todas estragadas. O transtorno foi causado pela forte chuva que caiu sobre Salvador e fez com que a água invadisse casas no bairro de Itapuã, na madrugada desta terça-feira (31).

Dona Maria da Glória, trabalha com confecção de roupas há mais de 40 anos. No entanto, embora tenha perdido quase todas as encomendas e materiais de trabalho, sua maior preocupação era seu sobrinho de 23 anos, que dormia no quarto dos fundos da casa onde funciona seu Atelier.

“Eu estava com tudo certo para viajar para o interior ainda hoje. Meu esposo está lá há oito dias. Algo me disse que eu precisava ficar e cuidar das coisas por aqui. Se eu tivesse ido, a essa hora estava chorando a morte dele. Por pouco eu não chorei a morte dele, ele estava dormindo e a água passou da altura da cama que ele estava dormindo”, contou.

A costureira estava com dezenas de encomendas para costura e reforma de peças para os clientes,  que as usariam nas festas de final de ano. Mas, segundo ela, não foi possível salvar todas roupas, somente as que estavam a seu alcance.

“Eu decidi ficar em Salvador para poder aproveitar o período de festas e ganhar um dinheiro extra com as reformas e costuras. Eu estava com muitos pedidos que já estavam prontos para a entrega, estava aguardando apenas as pessoas virem buscar. Infelizmente ficou tudo encharcado", lamentou. "Agora, estou tentando entrar em contato com as pessoas para poder contar com a compreensão e entendimento delas, não está sendo fácil para mim”, completou. 

Sem ainda conseguir estimar o prejuízo causado pela chuva, dona Maria lamentou a perda de seus maquinários, que, segundo ela, custaram caro e agora ela não sabe como poderá fazer para que voltem a funcionar.

“Uma dessas máquinas, quando eu comprei, me custou cerca de R$ 3 mil. As mesas que eu usava para costurar desabaram com a força da água, ficaram podres. Não sei o que vou fazer”, lamentou, lembrando que o bairro sofre com os alagamentos há bastante tempo.

Foi por pouco
Bem em frente à casa da costureira, vive a dona de casa Luana de Jesus e seu filho de 8 anos. Os dois dividem um imóvel pequeno. Ela, estava nos festejos da virada do ano na Orla da Boca do Rio, voltou para casa a tempo de conseguir salvar seu filho, que dormia em casa, do alagamento. Ela contou com a ajuda dos vizinhos, que arrombaram a porta da casa. 


Luana observa a vizinha que ajuda a retirar a água de dentro de sua casa
(Foto: Eduardo Dias/CORREIO)

“Eu cheguei da festa e ainda não estava chovendo. Estava com meu filho se preparando para dormir, quando, do nada, começou a chover e começou a alagar tudo, foi preciso um vizinho arrombar a porta para nos salvar de dentro de casa. Foi uma coisa muito feia, nunca tinha visto isso na minha vida, é muito triste. Por pouco meu filho não morreu afogado, foi Deus que me orientou a voltar para salvar meu filho”, relatou. Luana contabilizou a perda de móveis, roupas e documentos quando a água invadiu sua residência.

Após o susto, Luana revelou ao CORREIO que não permanecerá no bairro com seu filho e que já iniciou a busca por uma nova casa em outro local.

“Vou me mudar, não dá mais para ficar aqui no bairro desse jeito, correndo risco. Fiquei desesperada e pensei que meu filho ia morrer. Quando a minha mãe chegou e viu a nossa situação, ela também ficou desesperada. Já comecei desde cedo jogando quase todos os móveis no lixo, cama, estante, tudo, não prestam mais para nada”, afirmou.

Um dos vizinhos que ajudaram Luana foi Atila Nogueira, 43, que também teve a casa alagada e perdeu móveis e eletrodomésticos na chuva, mas não pensou duas vezes em ajudar a arrombar a porta para que a vizinha fosse salva.

Atila ajudou a qubrar a porta da casa da vizinha para salvá-la
(Foto: Eduardo Dias/CORREIO)

“Eu estava com muito medo de ficar dentro de casa, por causa dos eletrodomésticos que estavam na tomada, pensei que ia dar um curto-circuito e morreríamos eletrocutados. Minhas esposa e filha estão chorando muito pela perda de nossas coisas, mas graças a Deus estamos todos bem. Foi muita sorte, nunca vi na minha vida a água subir tanto. Ajudei a arrombar a porta e os outros vizinhos entraram para salvar a Luana e seu filho”, contou Atila, que havia reformado e trocado toda a mobília de casa há seis meses.

O comerciante Lucas Reis, 29, ainda muito abalado, não quis muita conversa. Ele, que tinha o costume de ir todos os dias na casa da mãe, que mora em São Paulo, apenas para olhar como estavam as coisas dela, decidiu dormir a última noite por lá.

No entanto, justamente no dia que ficou por lá, a chuva invadiu a residência e prejudicou todos os móveis e bens da casa. A altura da água atingiu a metade da TV, que estava fixada na parede a 1,5 m de altura.

"Eu já estava deitado e do nada vi a água subindo. Foi um sufoco para sair de dentro de casa, perdi muita coisa da casa, TV, celular, mesa, geladeira. Mas, graças a Deus, estou vivo. Não sei como consegui sair de dentro de casa. Eu nadei do quarto até a janela da frente e saí senão eu morria afogado”, relatou o morador.

Lucas dormiu na casa da mãe e viu a chuva invadir a casa
(Foto: Eduardo Dias/CORREIO)

Risco
De acordo com o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), que emite os alertas de risco para as regiões do Brasil, a Região Metropolitana de Salvador, está com risco moderado, mas há a possibilidade de eventos de movimento de massa devido à alta vulnerabilidade e à previsão de pancadas de chuva isoladas que podem ocorrer com forte intensidade em um curto período de tempo.

Na Região Metropolitana de Salvador, a chuva também chegou com força. Segundo o líder da operação chuva na cidade de Lauro de Freitas, o secretário Cap. Henrique Olinto Borri, os locais mais atingidos pela chuva foram: Boca da Mata, em Portão, Parque Santa Rita, Jardim Tarumã, Final de linha do Parque São Paulo, Avenida Luís Tarquínio e Avenida Beira Rio, além dos bairros do Cají e Caixa D’Água.

No total, choveu cerca de 103 mm em três horas; entre às 2h às 5h da manhã desta terça-feira. 19 ocorrências foram registradas durante a chuva, cerca de oito pessoas ficaram desalojadas.

 “Estávamos preparado para um risco médio, como nos informou o Cemaden, mas fomos pegos de surpresa com a mudança para risco alto. A prefeitura está realizando a limpeza de ruas, bueiros. Dispomos de escolas prontas para receber as famílias que precisarem de abrigos”, afirmou o secretário.

Com supervisão da chefe de reportagem Perla Ribeiro*

***

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