Por que Brotas e Bonfim? Como os dados têm ajudado numa quarentena inteligente

coronavírus
23.05.2020, 09:00:00
Cosme de Farias está sob medidas mais rígidas desde quarta-feira (Tiago Caldas / CORREIO)

Por que Brotas e Bonfim? Como os dados têm ajudado numa quarentena inteligente

Conheça qual é a estratégia adotada para um isolamento social mais eficaz em Salvador

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Nas duas últimas semanas, Salvador tem vivido uma nova fase do combate à covid-19. Agora, cada bairro tem uma estratégia diferente. Sai de foco a cidade, numa única quarentena, e entram em pauta os seus 163 bairros.

A definição de quais vizinhanças passarão por medidas mais restritivas tem sido baseada em dados de inteligência colhidos pela Prefeitura e pelo Governo do Estado: números de moradores com infecções confirmadas da doença, tendência de crescimento de casos nesses bairros, uso de transporte público e movimentação de veículos.

Na Pituba, bairro com maior número de moradores infectados, as medidas funcionaram de 13 a 20 de maio. No anúncio do fim das medidas para aquele bairro, o prefeito ACM Neto aprovou o resultado:

“Consideramos o resultado das ações na Pituba bastante positivo porque já não figura mais entre os bairros que apresentam grande número de novos casos“, disse o prefeito.

Dados que fazem sentido

A estratégia condiz com o pensamento de um grupo de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) que estuda a descentralização das medidas de restrição para combater o contágio.

Com base em dados de inteligência, dá para programar a quarentena com medidas restritivas nos locais necessários. Dessa forma, o poder público pode preservar cidades – ou bairros – que não possuam tantos casos de medidas mais duras de isolamento. O grupo está desenvolvendo um algoritmo – ou seja, um software que realiza milhares de cálculos – para encontrar a fórmula mais eficaz para as medidas mais rígidas.

A partir de números do uso do transporte público, circulação de veículos, densidade populacional e leitos disponíveis em hospitais, por exemplo, o programa aponta os locais que devem entrar em isolamento, por quanto tempo e a rigidez dessas medidas para garantir o melhor resultado.

“O algoritmo vai calcular a melhor estratégia para nunca deixar que a população infectada passe do nível que o sistema de saúde suporta. E o cálculo é dinâmico. Se algum dado for reajustado, ele automaticamente entrega outra estratégia”, explica o pesquisador Tiago Pereira.

“Com os dados bem definidos, seria possível dizer: Pituba tem que entrar em quarentena tal dia e sair tal dia, e também a intensidade da quarentena. Assim, evitaria colocar todos os bairros em lockdown de maneira simultânea”, completa o pesquisador.

Ele não critica governadores e prefeitos que adotaram uma estratégia integrada: “Era difícil tomar a decisão lá no início porque você tinha pouquíssima informação. Agora, com a tecnologia, já se pode pensar numa estratégia inteligente”, fala.

A Prefeitura de Salvador trabalha com cinco dados para suas decisões: número de casos confirmados, projeção do crescimento de casos, circulação de veículos, uso de transporte público e monitoramento de leitos disponíveis.

Medidas na Pituba duraram uma semana (Foto: Nara Gentil)

A escolha da Pituba

A Pituba foi escolhida para passar por medidas mais restritivas por liderar todos os dados de alerta. Na semana em que o bloqueio teve início, era o bairro com maior número de casos da cidade: 84. Em 14 de abril, eram 33.

Segundo a Secretaria de Mobilidade (Semob), a Pituba tinha a menor redução da circulação de veículos se comparado ao período pré-pandemia, com 15% a menos. O bairro também liderava o  uso de transporte público. A redução era de 65% - pouco na avaliação da pasta, já que no resto da cidade esse índice era de mais de 70%.

O chefe da pasta, Fábio Mota, lidera o comitê que analisa os dados e define quais barros passarão pelas medidas:

“Quando você junta que a Pituba era o bairro com mais casos, e que lá a circulação de carros estava apenas 15% menor do que o normal e que ainda estão usando muito o transporte público, isso liga a luz vermelha”, pontua Fábio Mota

A aposta na Pituba comprovou-se. Durante os 7 dias de medidas no bairro, foram realizados 480 testes rápidos, com 45 casos positivos. Essa mesma estratégia orientou a ação em Cosme de Farias e Brotas iniciada na  última quarta (20). Brotas tem um total de 75 casos - 29 só este mês. Cosme de Farias também registrou 29 em maio, e conta 35 no total.

“Conseguimos registrar uma taxa de transmissão de 5,7% em Salvador. Foi a primeira vez que desceu da casa dos 6%. Para termos mais segurança na retomada, é fundamental que essa taxa seja menor do que 5%”, disse o prefeito ACM Neto sobre o caso.

Como os dados são colhidos?

Duas secretarias são fundamentais na obtenção de dados. A de Saúde (SMS) vigia o avanço do contágio e prevê o prazo para o esgotamento de leitos hospitalares. A de Mobilidade (Semob) acompanha a circulação de pessoas e, assim, do vírus.

A SMS trabalha com um algoritmo elaborado pela Fiocruz que analisa o espalhamento do vírus e projeta o número de casos para os próximos sete dias. A secretaria, com base na trajetória, extrapola para mais duas semanas.

Pela estatística nacional, 20% dos casos necessitam de internação, sendo que 15% vão para leito clínico e 5% para a UTI. Os internados em leito clínico levam, em média, sete dias para se recuperarem e os de terapia intensiva, 14 dias.

Juntando tudo isso ao número de leitos disponíveis em Salvador, os técnicos da SMS conseguem prever, em tempo real, quando pode ocorrer o colapso do sistema de saúde.

Assim como o algoritmo da USP, esse cálculo é dinâmico, e a projeção muda com a atualização dos dados. “Quando a prefeitura inaugurou o hospital de campanha do Wet’n Wild, aumentou a oferta de leitos”, disse Ariovaldo Borges Júnior, responsável pelo setor de tecnologia da SMS.

SalvadorCard

Já a Semob vigia o uso do transporte público cruzando dados de GPS dos ônibus com os de bilhetagem. “Quando alguém passa o SalvadorCard, o sistema registra onde a pessoa embarcou. E as câmeras dos ônibus fazem a contagem de quem sobe e quem desce. Então dá para saber a quantidade de usuários em cada bairro”, explica Fábio Mota.

A Semob pega os dados diários e os compara com os respectivos dias da semana do período entre 9 e 15 de março, última semana antes da pandemia. Exemplo: os números de terça-feira, 12 de maio, são comparados com dia 10 de março, também terça-feira.

A circulação de veículos é medida por radares da Transalvador. “Independentemente de multar ou não, o radar faz a contagem automática de carros e a  gente compara com os dias antes da pandemia”, explica Fábio Mota.

***

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