Posso ir à praia? Depois do óleo, dúvida atormenta banhistas

bahia
27.10.2019, 05:30:00
Atualizado: 27.10.2019, 08:57:30
Grupo de atores em perfomance no Porto da Barra (Arisson Marinho/CORREIO)

Posso ir à praia? Depois do óleo, dúvida atormenta banhistas

Apesar de não haver proibição, recomendação de especialistas é para que se evite banho de mar

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A pergunta que não quer calar: depois do vazamento de toneladas de óleo no litoral da Bahia, posso ir à praia? Desde o dia 1º de outubro, quando a primeira mancha preta pintou as águas e a areia da Praia de Santo Antônio, no município de Mata de São João, os baianos fazem e refazem a questão, sem resposta definitiva. Alguns evitam, outros não abrem mão do mergulho. Agora, especialistas explicam porque pode ser melhor evitar, pelo menos nas localidades afetadas pelo petróleo, o banho de mar.

Do início de outubro até agora, 53 praias de 16 municípios baianos foram manchadas pelo petróleo em estado bruto, segundo o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). O órgão não tem nenhuma recomendação oficial para que os baianos deixem de ir à praia, depois de limpas. O Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) sugere que os banhistas evitem qualquer contato direto com o óleo, associado com quadros de intoxicação e dores de cabeça, por exemplo. 

As ações do Inema têm se concentrado em solicitar materiais adequados, averiguar áreas afetadas e colher material para análise. Na manhã de sexta-feira (25), uma equipe de quatro pessoas do Inema viajou para Itacimirim, onde há área de manguezal afetada pelo óleo desde o dia 12 de outubro. Nas praias de Salvador, desde o dia 10 de outubro, a Limpurb já removeu 107,4 toneladas de óleo. 

“Estamos até fazendo coleta disso até para desmistificar. O mar se renova diariamente. A maré que entra não é a mesma que sai. Muitos alardes não têm respaldo científico”, comenta Eduardo Topázio, diretor de Águas do Inema.

O CORREIO ouviu oceanógrafos, químicos, engenheiros e médicos que explicam como, e em que casos, o contato direto e indireto com o petróleo pode agir no corpo. Ainda não há consenso sobre todos os tópicos de dúvida, justamente porque ainda sobram questões sobre o próprio óleo. Biólogo e especialista em recuperação de áreas impactadas pelo petróleo, Ícaro Moreira, professor da Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia (Ufba), afirma que os gases do petróleo podem ser dispersos no ar. Ou seja, estão além do que se pode ver. 

Homem com equipamento de proteção limpa praia de Garapuá, município de Cairuma na sexta (25) (Foto: Ivo Neto/Acervo Pessoal)

Segundo resolução Conselho Nacional do Meio Ambiente, dos anos 2000, utilizada como parâmetro para definição de uma praia própria ou imprópria, a presença "de resíduos ou despejos, sólidos ou líquidos, inclusive óleos, graxas e outras substâncias, capazes de oferecer riscos à saúde ou tornar desagradável a recreação". As secretarias de saúde do estado da Bahia e do município afirmam não ter notificado nenhum caso de intoxicação pelo óleo. 

Na manhã de sexta-feira (25), o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, dobrou a barra da calça jeans e entrou na água da Praia de Porto de Galinhas, no litoral sul de Pernambuco, um dos pontos manchados pelo petróleo. De frente à imprensa, anunciou: "É importante ressaltar que as praias do Nordeste estão aptas para o banho e estão completamente limpas", afirmou. 

Leia também: Confira mapa de locais atingidos por mancha de óleo na Bahia

Desde a última sexta-feira (18), a Secretaria Municipal de Ordem Pública (Semop) diz não ter encontrado nenhuma mancha de óleo das praias. As mais afetadas foram Pedra do Sal (Itapuã), Stella Maris, Praia do Flamengo (Pipa), Pituba e Amaralina, onde continuam esforços na retirada dos últimos vestígios. 

Os óleos que não vejo 
Na casa de Catharine Rosas, 22 anos, ninguém se arrisca em pisar na areia, muito menos em mergulhar sob as águas das praias de Salvador – mesmo as que já foram limpas, em ações do poder público ou promovida por voluntários. “Ficar manchada, ter uma intoxicação louca, sei lá, eu penso em tudo isso”, diz a psicóloga. No mês de dezembro, em férias do trabalho, não sabe como será.

“Quando eu vou? É uma ótima pergunta. Acho que vai demorar até eu me sentir segura. Para mim, é como se minha casa estivesse sendo violentada”. A psicóloga teme, também, o óleo que não pode ver. 

Os perigos do óleo no mar nem sempre estão à vista. O petróleo é definido como uma mistura complexa, formada por benzeno, tolueno, xileno e outros compostos. Quando expostos numa área de superfície sob ação direta do sol, por exemplo, os três evaporam, explica o biólogo Ícaro Moreira, da Escola Politécnica.

As manchas de óleo, continua o especialista em recuperação de áreas impactadas por petróleo, boiam nas praias e perdem os elementos voláteis. Uma vez no ar, os gases começam a ser inalados. O cheiro sentido é algo próximo do odor de um escapamento de óleo de um veículo. 

“Se as pessoas estão sentindo cheiro de combustível e inalando, não está certo. Está entrando em contato com os pulmões e isso pode se dissolver na corrente sanguínea”, teme Moreira.

Semanalmente, pela manhã, o Inema recolhe amostras de água de 121 pontos da costa baiana. A balneabilidade – ou seja, a qualidade das águas – é medida a partir da presença do microrganismo Escherichia Coli, encontrada na água a partir de fezes humanas ou animais. Não houve nenhuma mudança no parâmetro utilizado para determinar se uma praia é ou não própria para o banho. 

O óleo da meia água 
Como em alto-mar a água é mais fria, o petróleo fica mantido na chamada "meia água" ou subsuperfície. Ao chegar na costa, que tem águas mais quentes, o petróleo fica mais fluido e flutua bem acima. É quando a vaporização aumenta. “Quando essa mancha não é combatida em alto mar, ela chega nas pessoas”, indica. Não há como precisar quanto tempo esses gases ficam no ar. 

Os compostos, no entanto, não são degradados no ar. Na verdade, vão para a atmosfera e se depositam em novos lugares. Os receptores podem ser tanto um rio, o solo de um agricultor, quanto o pulmão ou epiderme das pessoas. O cilo pode gerar doenças neurológicas sérias e câncer, já que é comprovada a relação entre leucemia e benzeno.

Nas casas e apartamento próximos de áreas contaminadas, a exposição contínua também pode levar a um quadro de toxicidade que aparece em forma de dor de cabeça e vertigens, principalmente. O pesquisador explica: 

“Então, como não se sabe [sobre a existência destes compostos no óleo encontrado], temos que seguir o princípio da precaução. Se eu encontrar um copo com água na rua, não vou bebê-lo, mesmo que eu esteja com sede, porque não sei o que tem ali", propõe o cientista.

O que acontece no corpo
No litoral, o petróleo é encontrado já bastante solidificado, sem muito potencial de dissolução. Por isso, Eduardo Topázio, do Inema, justifica que o principal problema seria "pisar numa pelota". "

"É bom lembrar que você não está dentro de uma piscina, mas em um mar aberto", diz.

De acordo com a dermatologista Anete Oliveira, presidente da seção Bahia da Sociedade Brasileira de Dermatologia, o contato direto com o óleo, sem proteção, pode causar reações alérgicas na pele. Se ocorrer, o indicado é ir ao médico. 

Carlos Roberto Conceição mostra pé manchada na praia da Pituba, no último dia 18 (Foto: Marina Silva/CORREIO)

No caso da inalação dos gases, a pneumologista Eliana Matos lembra que qualquer produto químico inalável pode dar toxicidade ao trato respiratório. A indicação é de que não se tenha contato direto com o óleo, mas o risco maior, na opinião da médica, é entre voluntários, pelo grau de proximidade. Não há nenhum parâmetro que associe, diretamente, o grau de exposição à possibilidade de uma reação. 

Por isso, ela ressalta a importância de utilizar equipamentos de proteção, sobretudo máscaras e luvas. Tosse e dificuldade de respiração podem ser consequências desta absorção de gases tóxicos. Segundo ela, existe risco considerável, que é maior entre os voluntários, pela proximidade.

"Muitas praias já são impróprias. A presença de novas bactérias, com o petróleo, pode tornar mais fácil uma contaminação", explica o infectologista Antônio Bandeira. Uma das ações seriam, por exemplo, sobre a medula óssea. 

A toxicidade do petróleo pode ser ilustrada com o exemplo de funcionários que lidam com o petróleo. Na indústria petroquímica, os funcionários utilizam diversos Equipamentos de Proteção Individual (EPI), como óculos, luva de látex, botas, máscaras de gás e traje fechado, como macacões. Trajes que, evidentemente, não são comuns nas areias das praias, entre banhistas. 

Os caminhos do óleo 
A partir de setembro, a ação de correntes marinhas, em mar profundo, e correntes costeiras, em locais mais rasos, passaram a empurrar o óleo para o sul do litoral baiano – o maior do Brasil, com 1,1 mil quilômetros de extensão. O regime de correntes permanece até o fim do verão, quando uma alteração dos ventos inverte a circulação das correntes, explica o oceanógrafo Guilherme Lessa

"O que mais influência a circulação da água próximo à costa é vento. Essa massa de água costeira é empurrada para o sul e por isso que o óleo tem sido observado em locais mais distantes nesta direção. Se o óleo ainda está chegando nas praias de Salvador e do litoral norte, é porque ainda temos óleo vindo do Norte”.

A chamada corrente do Brasil, a corrente que age no mar profundo, pode formar uma espécie de movimento espiral das águas. A característica principal é de uma corrente que provoca escoamentos giratórios dentro do mar. O óleo, então, é trazido para regiões mais próximas à costa. “Como não se sabe onde o óleo esta e qual sua quantidade, é impossível prever onde ele alcançará a costa”.

As últimas localidades onde foram encontradas manchas de óleo estão justamente ao sul do estado, nas cidades de Jaguaripe, Valença, Maraú e Ilhéus, de acordo com o Ibama. A Prefeitura de São Francisco do Conde, onde o óleo foi encontrado na Ilha das Fontes, afirmou à reportagem que os banhistas podem ir à praia, mas evitem o banho "até análise mais recentes. As prefeituras de Lauro de Freitas e Camaçari também foram acionadas, mas não responderam até o fechamento. 

Veja o que fazer ao encontrar manchas de óleo:
1) Evite ir à praia, nadar ou praticar esportes aquáticos nas regiões afetadas;  

2) Se encontrar algum animal ferido ou em contato com óleo, ligue para Polícia Ambiental (190) ou Guarda Civil Municipal (3202-5312); 

3) Agentes de limpeza da Prefeitura estão de plantão 24h em todas as praias de Salvador. Disque 156 para acionar o serviço;

4) Em caso de reação alérgica ao toque ou ingestão do óleo, procure uma unidade básica de saúde.

Paraísos afetados
Com o sol que vem fazendo neste prenúncio de Verão, a vontade é cair no mar. Não há como saber até quando a situação vai se perdurar e, até o momento, pelo menos 15 paraísos litorâneos da Bahia já tiveram registros de óleo, alguns já estão sob controle, enquanto outros seguem manchados. Confira localidades turísticas que foram ou estão afetadas:

  1. Mangue Seco/ Jandaíra
  2. Praia do Forte/ Mata de São João
  3. Garapuá/ Cairu
  4. Boipeba/ Cairu
  5. Morro de São Paulo/ Cairu
  6. Baixio/ Esplanada
  7. Massarandupió/ Entre Rios
  8. Taipús de Fora/ Maraú
  9. Itacarezinho/ Itacaré
  10. Guarajuba/ Camaçari
  11. Arembepe/ Camaçari
  12. Ilhéus
  13. Imbassaí/Mata de São João
  14. Itacimirim/ Mata de São João
  15. Buracão/Salvador

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