Praça da Sé já abrigou terminal de ônibus e linhas de bonde

clarissa pacheco
02.08.2020, 05:00:00
Atualizado: 02.08.2020, 09:43:35

Praça da Sé já abrigou terminal de ônibus e linhas de bonde

Antiga Sé de Salvador foi demolida na década de 1930 para passagem dos trilhos do bonde e, anos depois, foi construído um terminal de ônibus

Em momentos como o que vivemos, o jornalismo sério ganha ainda mais relevância. Precisamos um do outro para atravessar essa tempestade. Se puder, apoie nosso trabalho e assine o Jornal Correio por apenas R$ 5,94/mês.

Praça da Sé em 14 de fevereiro de 1982, ainda com terminal de ônibus. Ao fundo, CatEdral Basílica passa por obras; à esquerda, Palácio Arquiepiscopal e Cine Excelsior
(Foto: Prefeitura de Salvador/Arquivo CORREIO)

Antes da inauguração da Estação da Lapa, em 1982, e da abertura de uma série de avenidas em Salvador, naquela mesma época, a Praça da Sé, no Pelourinho, tinha um movimento totalmente diferente do visto hoje. Agora, pouco circulam carros no local - ônibus, de jeito nenhum. Mas, era lá o movimento intenso de passageiros que usavam os coletivos da capital baiana.

A Praça da Sé chegou a ter uma dúzia de baias para ônibus, arborizadas, mas na década de 1970 o cenário já era diferente. Esta primeira imagem, feita em fevereiro de 1982, mostra a praça nos últimos meses antes da reforma que retirou dali o terminal.

Era apenas mais uma das intervenções. A mais polêmica certamente foi a demolição da antiga Sé, na década de 1930, a primeira Sé do Brasil, para a passagem dos trilhos do bonde. 

"Quando a Sé foi demolida, na década de 1930, os trilhos do bonde passaram e nos anos seguintes foi colocado esse terminal de ônibus", conta o historiador e professor Rafael Dantas, que pesquisa a iconografia da cidade nos séculos XIX e XX.

Ele destaca ainda que, no século XX, havia casarios dos séculos XVII e XVIII no local onde foi instalado o terminal - os imóveis, em sua maioria residenciais, foram demolidos.

Em 1982, como mostra a segunda foto, feita em novembro daquele ano, o terminal de ônibus foi suprimido - os bondes já não circulavam. "Na década de 1980, fizeram uma reforma e fizeram um trabalho paisagístico e também de arte. Essa foto mostra a elaboração em pedra portuguesa no chão de um grande trabalho do nosso artista Juarez Paraíso", completa Rafael.

Praça da Sé em 11 de novembro de 1982, durante as obras que suprimiram o terminal de ônibus; Catedral Basílica após obras ao fundo e busto do Bispo Sardinha deslocado para mais perto do Palácio Arquiepiscopal
(Foto: Prefeitura de Salvador/Arquivo CORREIO)

A praça passava a ser um ponto de encontro, e não mais de embarque e desembarque de passageiros. Em um intervalo de nove meses entre uma foto e outra, Rafael aponta algumas outras mudanças: a Catedral Basílica, ao fundo, passava por reforma na primeira foto, mas já estava pronta na segunda.

O busto do bispo Pedro Fernandes Sardinha, o primeiro bispo do Brasil, que chegou a Salvador em fevereiro de 1551, foi levado durante a obra mais para a esquerda, ficando mais próximo do Palácio Arquiepiscopal, a sede da Igreja Católica no Brasil.

Ainda nos anos 1980, os ônibus faziam uma curva à esquerda e deixavam a área dos casarios, do lado direito, livre para os pedestres, o que muda nos anos 1990 com a instalação de uma pista do lado direito.

Rafael destaca a importância das praças naquela época, sobretudo no Centro da cidade.

"As praças, os terminais, espaços abertos ou de grande circulação de pessoas tinham uma grande importância no que toca à sociabilidade, à comunicação no trânsito, no contato das pessoas de diferentes regiões de Salvador no Centro da cidade, um centro pulsante", diz.

Segundo Rafael, as pessoas não iam lá apenas para usar o transporte. "As pessoas iam para essa região para o comércio, para consultórios, escritórios de advocacia, repartições públicas ou também para passear. A praça representa um elo de encontros. Nessa região que é o Centro, a gente encontra a cidade antiga, tradicional, a cidade de diversos povos, cidade essa que se mistura", completa.
 

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas