Prédio na Pituba une tragédia da Fonte Nova e cruel assassinato na ditadura militar

baianidades
14.03.2021, 06:30:00
Atualizado: 22.03.2021, 02:49:14

Prédio na Pituba une tragédia da Fonte Nova e cruel assassinato na ditadura militar

Há exatos 50 anos, a militante Iara Iavelberg era morta dentro de prédio na Rua Minas Gerais

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Prédio Santa Terezinha, na Rua Minas Gerais, guarda parte importante da história do país (Foto: Paula Fróes/CORREIO)

Rua Minas Gerais, número 270, Pituba. Numa vizinhança com pizzaria, restaurante mexicano e salão de beleza, um atarracado prédio de três andares, à primeira vista, não desperta muita atenção.

O edifício Santa Terezinha, no entanto, desnuda uma das histórias mais dramáticas e viscerais do Brasil durante os sangrentos anos da ditadura civil-militar (1964-1985). Lá, no apartamento 201, há exatos 50 anos, era brutalmente assassinada a revolucionária judia Iara Iavelberg.

A morte de Iara começou a se materializar cinco meses antes do disparo fatal que esmigalhou seu pulmão esquerdo. Em Nazaré, no dia 4 de março de 1971, torcedores de Bahia e Vitória se espalhavam aos magotes para prestigiar a inauguração do anel superior do estádio da Fonte Nova.

A praça esportiva ganhava, no governo de Luís Viana Filho, uma nova arquibancada acrescida à estrutura original. Com portões abertos para os torcedores, foi marcada uma rodada dupla festiva: Bahia x Flamengo; Vitória x Grêmio.

O mais cruel general da ditadura brasileira, Emílio Garrastazu Médici, esteve presente no evento, na tribuna de honra. Na segunda partida, por volta das 19h, começou uma correria desenfreada. Um refletor estourou uma das lâmpadas e o pânico foi generalizado. Alimentado por boatos de semanas anteriores, os torcedores acreditavam que o estádio estava vindo abaixo.

(Foto: Acervo Mário Bonfim/Cortesia )
(Foto: Acervo Mário Bonfim/Cortesia )
(Foto: Acervo Mário Bonfim/Cortesia )
(Foto: Acervo Mário Bonfim/Cortesia )
(Foto: Acervo Mário Bonfim/Cortesia )
(Foto: Acervo Mário Bonfim/Cortesia )
(Foto: Acervo Mário Bonfim/Cortesia )
(Foto: Acervo Mário Bonfim/Cortesia )
(Foto: Acervo Mário Bonfim/Cortesia )
(Foto: Acervo Mário Bonfim/Cortesia )
(Foto: Acervo Mário Bonfim/Cortesia )
(Foto: Acervo Mário Bonfim/Cortesia )
(Foto: Acervo Mário Bonfim/Cortesia )
(Foto: Acervo Mário Bonfim/Cortesia )
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(Foto: Acervo Mário Bonfim/Cortesia )
(Foto: Acervo Mário Bonfim/Cortesia )
(Foto: Acervo Mário Bonfim/Cortesia )
Mário Bonfim, fotógrafo que guarda acervo de imagens feitas no campo da Fonte Nova, em 1971
Mário Bonfim, fotógrafo que guarda acervo de imagens feitas no campo da Fonte Nova, em 1971 (Foto: Evandro Veiga/Arquivo CORREIO)

Teve pisoteamento, tumulto e invasão do gramado. A partida foi imediatamente interrompida. Duas pessoas morreram (um menino de 11 e uma jovem, de 17) e outras 2.086 ficaram feridas. A cena pavorosa comoveu a militante marxista Solange Lourenço Gomes, integrante do grupo MR-8, que adotava o codinome de Emília.

Por conta própria, ainda em estado de choque, ela foi até uma delegacia de Salvador e contou tudo sobre a célula subversiva da qual fazia parte. O Departamento de Operações de Informações (DOI) passou, então, a monitorar com detalhes o movimento.

Iara e Lamarca
Nascida em uma rica e tradicional família de São Paulo, Iara Iavelberg casou aos 16 anos. Três anos depois, mesmo com o forte estigma da época, se separou do primeiro marido e mergulhou na militância política, ainda como estudante de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP).

O casal Iara Iavelberg e Carlos Lamarca, que militaram juntos no grupo MR-8. Ambos morreram no mesmo ano, 1971 (Foto: Acervo Brasil: Nunca Mais)

Em abril de 1969, conhece o capitão Carlos Lamarca, que havia desertado do Exército e passado a combater os próprios milicos por meio de guerrilhas armadas. Eram os anos de chumbo no país. O Ato Institucional número 5 (AI-5) havia sido imposto em dezembro do ano anterior, cassando os direitos políticos, as garantias constitucionais e fechando o Congresso Nacional. A partir dali, a tortura seria usada como instrumento contumaz para arrancar confissões dos considerados inimigos do regime.

E Lamarca era considerado um dos homens mais procurados à época. Em 1970, sua organização, a VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), organizou o sequestro do embaixador suíço Giovanni Bucher, no Rio de Janeiro. No ano seguinte, ele e Iara, ambos já integrantes do MR-8, viviam nômades para fugir da repressão. Entre tantos destinos, nos anos derradeiros, ambos vieram para a Bahia, mas passaram a viver em cidades diferentes. Ele, em Brotas de Macaúbas. Ela, em Feira de Santana, depois na Pituba, em Salvador.

O ataque ao prédio
O dia ainda começava a amanhecer em 20 de agosto de 1971. Os agentes do DOI cercaram todo o quarteirão da Rua Minas Gerais. Lançaram bombas de gás lacrimogênio até que os primeiros militantes do MR-8 deixassem o apartamento e se entregassem.

Desde a tragédia da Fonte Nova e a confissão de Solange, eles monitoravam as ações do grupo revolucionário. Iara não se entregou. Conseguiu fugir do apartamento 201 para o 202, saltando por um vão. A fuga, porém, foi frustrada por um menino que avisou aos meganhas que havia uma mulher no banheiro de serviço do seu apartamento.

Um tiro foi imediatamente disparado e acertou Iara na altura do peito esquerdo. O jornalista e escritor Elio Gaspari narra com pormenores a captura de Iara no livro 'A Ditadura Escancarada'.

Nos dias seguintes, a falsificação do regime sustentou (com direito a perícia fraudulenta) que a revolucionária havia atentado contra si própria para evitar ser capturada com vida.

Por ser judia, foi enterrada numa área destinada aos suicidas e, como manda a tradição, com os pés voltados para a lápide, em sinal de desonra. Somente em 2003, após intensa batalha da família e processos judiciais para provar o crime do estado, os restos mortais de Iara foram exumados e postos no mausoléu da família.

O prédio Santa Terezinha continua lá. Entre pizzaria, mexicano e salão de beleza. Na Rua Minas Gerais, guardando uma parte importante da História do Brasil.

[Esta coluna é dedicada a Carlucho, Carlos Augusto Neves da Rocha, que, aos quatro anos, morava na Pituba e só depois veio a entender esta e tantas outras importantes histórias do país.]

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