'Quando a polícia produz letalidade, coisas muito erradas estão acontecendo', diz cientista social

entre
10.07.2021, 16:00:00

'Quando a polícia produz letalidade, coisas muito erradas estão acontecendo', diz cientista social

Silvia Ramos, coordenadora da Rede de Observatórios de Segurança, conversou com o CORREIO sobre violência e políticas de segurança na Bahia

Em uma década, Salvador e Região Metropolitana perderam 20 mil vidas para a violência. A maioria das vítimas de crimes violentos letais intencionais na capital e em outras 12 cidades é formada por homens, geralmente jovens - de 17 a 26 anos - e moradores de bairros periféricos. Aos 19 anos anos, uma espécie de cerco se fecha. De 2011 para cá, 805 jovens perderam a vida justamente nesta idade.

Para a cientista social Silvia Ramos, que é coordenadora da Rede de Observatórios de Segurança, isso é o resultado de uma política de segurança pública baseada em ações -repressivas, em muitas operações policiais e em mortes, criando um ambiente de ainda mais violênicia nos bairros.

"É um modelo que não deu certo em nenhum lugar no mundo. E no Brasil, nós temos o triste exemplo do Rio de Janeiro, onde policiais todos os dias saem dos batalhões em caminhões, em veículos de combate, com coletes e munidos de fuzil, onde vão ali guerrear onde ocorre o varejo do tráfico de drogas. Recolhem pequenas quantidades de drogas, alguns fuzis, matam alguns criminosos, às vezes matam inocentes, e depois voltam para os seus batalhões e depois, na semana que vem, eles voltam para os mesmos lugares e produzem, de certa forma, bairros com alta violência policial", afirma.

Confira a entrevista completa:

No último dia 30 de junho, Salvador e Região Metropolitana chegaram à milésima vítima de crimes violentos letais intencionais, um mês antes de a marca ser alcançada no ano passado. O que isso diz sobre o cenário da segurança na Bahia?
Olhando os números, o que está acontecendo na Bahia, e o fato de que este ano chegou 30 dias antes do ano passado, onde o quadro já era grave, a violência letal intencional se agravou ainda mais. Eu acho que é um alerta muito grave que vocês estão fazendo, que o jornal está fazendo para o que está acontecendo na Bahia. Acho que o momento que o jornal marca a perda dessas 1.000 vidas é um momento muito propício para se analisar, se repensar as políticas de segurnaça da Bahia. A Bahia está tomando um rumo na área da segurança pública que nós já sabemos para onde leva. Muitas mortes, muita violencia letal por arma de fogo, sendo que as políticas de segurança estão altamente concentradas em ações repressivas, muitas operações policiais e muitas mortes. Depois do Rio de Janeiro, a Bahia é o estado no Brasil em que proporcionalmente ocorrem mais mortes por intervenção policial, onde ocorrem mais chacinas, ou seja, mortes múltiplas com numeros muitos altos de mortos e mais mortes e chacinas com participação de policiais.

Esse quadro poderia ser evitado?
Os números produzem um estado de alerta. Não são só numeros, mas quando nós atingimos mil vidas perdidas por violencia letal, evitável, que seria prevenível, que poderiam não ter ocorrido, eu acho que isso acende um alerta. Esses números estão dizendo alguma cosia, eles estão mostrando um rumo que está sendo tomado, é uma combinação entre violência letal intencional por grupos criminosos com ações da parte da segurança pública que também estão favorecendo e se inclinando para pensar que existe solução através da violência policial.

Quando a polícia, ao agir, produz letalidade, coisas muito erradas estão acontecendo. E parece que as políticas de segurança da Bahia estão insistindo nesse ponto.

O Rio de Janeiro é um triste exemplo que a Bahia não deveria seguir, ou seja, de uma política de segurança praticamente exclusiva baseada na repressão, na guerra às drogas, nas ações policiais violentas e letais.

Silvia Ramos é coordenadora da Rede de Observatórios de Segurança
(Foto: Marina Silva/Arquivo CORREIO)

Por que essa política de segurança não é eficaz no combate à violência?
Não tem havido nos últimos anos ações preventivas da violência. Ou seja, são politicas de segurnaça que deixam a violência acontecer, deixam os grupos criminais se fortalecerem, para aí então saírem em guerra e combatê-los. Isso é um modelo de segurança pública.

É um modelo que não deu certo em nenhum lugar no mundo. E no Brasil, nós temos o triste exemplo do Rio de Janeiro, onde policiais todos os dias saem dos batalhões em caminhões, em veículos de combate, com coletes e munidos de fuzil, onde vão ali guerrear onde ocorre o varejo do tráfico de drogas. Recolhem pequenas quantidades de drogas, alguns fuzis, matam alguns criminosos, às vezes matam inocentes, e depois voltam para os seus batalhões e depois, na semana que vem, eles voltam para os mesmos lugares e produzem, de certa forma, bairros com alta violência policial.

Em vez de reduzir, desarticular e desarmar a violência, é uma política de segurança que fortalece, arma e produz resistência armada cada vez mais. Entra-se num círculo vicioso, onde o motor não é a criminalidade nem os criminosos, mas cujo motor é a própria policia. Basta olhar o que acontece no Rio de Janeiro nos últimos 20 anos pra você entender pra onde a Bahia está indo.

Alguns casos aqui têm chamado mais a atenção...
Além dos números, nós temos os episódios, os casos traumáticos. Esses casos marcam os locais, os estados e a história da segurnaça pública da mesma forma que os números e eles deveriam ser suficientes para nos alertar. Casos como não só o do Atakarejo, mas o das duas mulheres no Curuzu, do Ryan no Nordeste de Amaralina são casos que a gente se lembra toda hora. Podem parecer casos isolados, mas são esses episódios que traumatizam a história de um local e de uma cidade, de um estado e de um país, chamando a atenção para dinâmicas que ocorrem todos os dias, mas cujos episódios causam essa dor e chamam a nossa atenção. É muito parecido com o que tá acontecendo no Rio de Janeiro, com a morte de Agatha, de João Pedro, com todas esas mortes traumáticas, com a chacina de Jacarezinho, onde sempre há, de certa forma, policiais envolvidos, policiais que dizem que estavam ali para combater o crime e a criminalidade, mas cuja presença acaba produzindo mais insegurança e dor.

Por que se insiste num modelo assim?
Nós, que estamos analisando as políticas de segurança da Bahia de fora, podemos não ver muitas coisas, mas vemos uma coisa que é muito preocupante e é preocupante para o Brasil inteiro: é que haver governos de partidos progressistas não produz soluções na área de segurança. As políticas de segurança adotadas na Bahia, onde existe um governo de um partido progressista, são idênticas às políticas de segurança adotadas pelo governo Witzel, no Rio de Janeiro, que era um governo ultraconservador, com um discurso violento e agressivo, dizendo que ia combater a violência com tiro na cabecinha e ia matar mesmo, que era isso aí, e cujo primeiro ano produziu 1.814 mortes apenas decorrentes de atividade policial, fora os outros homicídios e fora a presença de milícias e policiais fora do controle. O que nós vemos é que as políticas de segurança, diferente de saúde e de educação, independem de governo.

As polícias criam lógicas próprias, necessidades próprias, e quanto mais recursos recebem, em vez de reduzir a violência, acabam produzindo mais violência, comprando mais armas, fazendo mais operações, utilizando mais policiais em confrontos, mobilizando mais recursos de investimento na chamada guerra contra o crime. Isso é um modelo de segurança pública que muitas vezes os próprios governadores não dominam e são reféns desse modelo.

Isso é assim no mundo inteiro. Nos Estados Unidos, não adianta ter um prefeito progressista, um governador negro, que os policiais vão continuar matando negros. Aliás, o racismo é um problema chocante das polícias no Brasil inteiro e, por incrível que pareça, a gente pensa que na Bahia, onde a presença de negros é muito importante e é muito relevante, poderia haver um respeito maior aos negros, mas nós verificamos que mais de 90% dos mortos pela polícia são jovens e são negros.

Esse quadro piora no momento em que estamos vivendo?
Nós temos aí todos os indicadores de um momento muito preocupante, que serve para nós pensarmos sobre o Brasil, o que são políticas de segurança no Brasil, como em vez de trazer segurança, elas produzem os chamados bairros perigosas, as áreas com maior letalidade. Bairros que tinham pouquíssima letalidade e de um ano para outro saltam lá pros primeiros lugares. Quando vai ver, o que está acontecendo? Tem muita operação, muita polícia produzindo mortes nessa guerra contra o crime. E só um detalhe: ali onde tem morte, a morte que a gente contabiliza é só a pontinha do iceberg.

Onde tem morte tem muita ameaça, muita gente com medo, muita lesão corporal, muita agressão física, muita agressão psicológica. Onde tem muita morte, seja por dinâmicas de facções do crime, seja por disputas entre o crime e a polícia, ali há muitas outras dinâmicas invisíveis, que a gente não está vendo. É como violência doméstica: um dia, o cara vai e mata a mulher.

Você vai ver o que tava acontecendo antes, você tinha ali anos de violências invisíveis que não eram explicitadas, não eram ditas, não eram denunciadas. Quando você tem mil vidas perdidas nessa altra do ano, a gente pensa: o que mais está acontecendo em termos de violência? É preciso acudir, é preciso mudar o rumo, é preciso reverter. Políticas de segurança dependem de uma determinação na área de segurança pública, depende dos comandos das polícias, é isso que precisa mudar.

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas