Quando seus 'divertidamentes' começam a brigar: entenda como ficam os sentimentos na pandemia

coronavírus
12.06.2021, 05:30:00
No filme Divertida Mente (Disney Pixar), as cinco emoções básicas são representadas pelos personagens Tristeza, Medo, Alegria, Nojinho e Raiva (Foto: Disney Pixar/Divulgação)

Quando seus 'divertidamentes' começam a brigar: entenda como ficam os sentimentos na pandemia

Há diferenças entre emoções, sentimentos, afetos e humores. E, sim, é possível viver ciclos que parecem intermináveis

Primeiro vem o medo. De sair, de encontrar alguém sem máscara. De se infectar. De ir para o hospital, de morrer na UTI. Mas às vezes vem a raiva - da falta de vacinas, de quem promove aglomerações. Ah, mas sua mãe foi vacinada... Que alegria! No dia seguinte, porém, uma notícia ruim: o colega de trabalho morreu de covid-19. Que tristeza. Na televisão, o jornal mostra imagens de um líder político negacionista. "Me sinto enojada", você pensa. 

É um ciclo que não para. São tantas oscilações de emoções, sentimentos e humores na pandemia que o meme é real: parece que seus "divertidamentes estão brigando para controlar o painel". Sim, esse meme existe. E se você não entendeu, talvez não tenha assistido ao filme Divertida Mente, lançado em 2015 pela Disney Pixar. Na obra, há cinco personagens que constroem a personalidade da menina Riley, enquanto tentam ajudá-la a conduzir a vida.  

Cada um deles representa e recebe o nome de uma emoção: Medo, Raiva, Nojinho, Tristeza e Alegria. Elas podem não aparecer nessa ordem. E talvez não exista literalmente um painel de controle interno a ser disputado, mas depois de mais de um ano e três meses vivendo a experiência de um confinamento, não seria estranho achar que seus sentimentos estão competindo dentro de você. Mas não necessariamente isso é algo de outro mundo. 

É possível que você tenha a sensação de que seus 'divertidamentes' estão brigando pelo painel de controle? Sim, isso acontece porque os ciclos de emoções e sentimentos são comuns (Imagem: Disney Pixar/ Reprodução)

O primeiro ponto a entender é: você não está só. O CORREIO conversou com pessoas que estão passando por diferentes estágios desses ciclos de emoções e sentimentos, como verá a seguir. 

De acordo com a psicóloga Sônia Gondim, professora do programa de pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal da Bahia (Ufba) e coordenadora do grupo de pesquisa Emotrab (Emoções, sentimentos e afetos no trabalho), os estados afetivos exigem um trabalho diário para manter a estabilidade. 

"Para você estar bem, também precisa oscilar. Como você vai saber que está alegre, se não entender o que é a tristeza? Não quer dizer que a gente tem que ter uma vida de altos e baixos, mas manter uma estabilidade na instabilidade é uma conquista diária", explica ela. 

Situações
A própria pandemia envolve oscilações. Primeiro, as pessoas se assustaram. Acharam que seria passageiro. Hoje, já aprenderam a conviver com o vírus e reconhecem que ele não vai desaparecer tão cedo. Essas reações são uma espécie de defesa que, desde os primórdios da humanidade, foram ajudando a garantir a nossa sobrevivência. 

Tudo isso, como destaca o professor Amauri Gouveia Junior, pesquisador do programa de pós-graduação em Neurociências e Biologia Celular da Universidade Federal do Pará (UFPA), remonta a algo tão antigo e intuitivo que é comparável à linguagem dos animais. No caso da covid-19, há situações que têm acontecido para a maioria das pessoas. Uma delas é de que há uma percepção de perigo que não é visível, sendo que os humanos classificam o perigo de acordo com a proximidade dele. 

"Quando o perigo é muito próximo, temos uma reação de pânico. Você pode tentar evitar aquilo, desviar o caminho. E quando temos a sensação de perigo, mas não conseguimos ver, vem a ansiedade, que gera um estado de sobrealerta", explica. Tanto a ansiedade quanto o pânico podem deixar alguém pronto para explodir.

Mas há outros casos neste contexto. Um que é comum para muita gente é que o confinamento provoca uma dificuldade de emitir novas respostas. Na neurociência, um dos modelos para estudar a depressão é o da contenção. Se você prende um animal em um local onde ele não pode sair, ele passa a definhar. Aos poucos, o animal vai se deprimindo e perde a capacidade de aprender coisas novas. Daí, vem um sofrimento intenso. 

Já a terceira situação é quando as pessoas são empurradas para cima do perigo. É o que acontece, por exemplo, com quem teve que continuar saindo para trabalhar. 

"Se você aproxima um gato de um rato, o rato vai tentar fugir. Quando ele não consegue, começa a agredir. Mas quando ele continua sem conseguir, vem uma sensação que a gente chama de desamparo. É uma desesperança. Agora, nós estamos vendo essas três situações", diz Gouveia Júnior.   

Se nosso repertório animal nos deixa em alerta, começam as alterações que vão desde fome e sono até mudanças nas relações sociais. As pessoas podem ficar mais brutas ao mesmo tempo que ficam mais sensíveis. Tendem a reagir de forma exagerada a situações confortáveis, enquanto também passam a se machucar mais. E vem a dificuldade de aprender, concentrar, reagir. Quem nunca procrastinou antes passa a procrastinar. Gente que nunca foi ansiosa começa a fazer tudo correndo. 

"No caso dos ciclos, tem um aspecto que é um estímulo estressor ou não estressor", pondera o neurocientista. Às vezes, algo que começou como estressor deixou de ser. Quando alguém veste terno e gravata pela primeira vez, é possível que se sinta tão desconfortável quando usar uma armadura. Depois de usar aquilo por 100 dias, já se torna natural. 

É o que acontece com os estressores: em algum ponto, paramos de reagir a eles. "É o que a gente está fazendo com o número de mortos, com os desmandos do governo. A gente não reage mais", explica. Por outro lado, existe a possibilidade de estímulos pequenos começarem a se somar. Algo que era crônico cresce e o que era só um incômodo pode se transformar numa dor. 

Emoções e sentimentos
Mas é possível lidar com esse contexto de uma forma saudável. Por isso, é tão importante entender o que está se passando. Na Psicologia, os 'estados afetivos emocionais' são justamente os sentimentos, emoções, humores e afetos. Apesar de muitas vezes serem tratados como sinônimos, eles não são a mesma coisa. 

As emoções representadas no filme Divertida Mente de fato têm um papel importante para os seres humanos. Segundo a professora Sônia Gondim, do Instituto de Psicologia da Ufba, esses cinco estados - medo, tristeza, raiva, nojo e alegria - são conhecidos como emoções básicas. Elas têm ajudado a sobrevivência humana, ao longo da evolução. 

"As emoções cumprem mais um papel de ativação, de resposta pronta da natureza fisiológica e reativa. Diante da pandemia, a pessoa pode ter raiva, que é uma emoção muito ativadora", diz.

Na raiva, a pessoa pode ficar ruborizada, ficar com o batimento cardíaco acelerado ou falar de forma mais agressiva. Isso, contudo, não dura muito tempo. Ou seja: a raiva é uma reação a um estímulo, que pode ser tanto uma revolta pelo governo federal não ter comprado vacinas ou porque até hoje ainda tem gente que usa máscara no queixo. 

Já o sentimento envolve uma resposta afetiva. É quando alguém começa a elucidar os motivos para estar triste, com medo ou alegre. "Eu começo a entender esses aspectos mais subjetivos, porque os sentimentos envolvem alguma cognição", diferencia. 

Mas outro aspecto ainda pode influenciar os nossos dias - os humores. Imagine que você bateu o carro antes de sair para o trabalho. Primeiro, vem a emoção, uma tristeza ou uma raiva pelo acontecido. Depois, vem o sentimento, numa espécie de experiência subjetiva da emoção. “Por que eu bati o carro?”, é como se sua mente questionasse. No entanto, esse contexto pode começar a contaminar outras situações da sua vida. Se você chegar ao trabalho e explodir com o colega, pode ser porque o humor contagiou essas outras situações. 

"Também tem o temperamento, que é o traço pessoal prevalente. Tem gente que é mais alegre, tem gente que é mais pesada, que tudo é mais complicado e sempre olha pela perspectiva mais negativa. É um estado afetivo mais relacionado à característica pessoal", explica Sônia. 

Se essas diferenciações são importantes para os cientistas, na prática, tudo é muito difuso. Você não fica pensando se algo é um sentimento ou um humor;  apenas sente. E somos seres um tanto mais complexos do que isso. 

Além das emoções básicas, existem as emoções sociais ou morais. É o caso do orgulho, que envolve um pouco de alegria, mas também certa vaidade e algum medo de falhar. Assim como o orgulho, a vergonha é uma emoção moral aprendida. Ao contrário das emoções básicas, as sociais ou morais também envolvem uma consciência maior. 

E há, ainda, os afetos. Normalmente, entendemos 'afeto' como um carinho, uma espécie de afeição. Aqui, não é bem assim. Quando se fala de afeto, especialmente em algumas perspectivas filosóficas, não há julgamento se é algo bom ou ruim. 

Enquanto sentimentos costumam ser avaliados entre bons, maus, prejudiciais, agradáveis ou bonitos, os afetos são simplesmente aquilo que nos afeta - independente de ser belo ou não. 

"O afeto é algo sobre o qual nem sempre temos controle, até porque nós somos feitos também de afetos", diz o filósofo Ernani Chaves, doutor em Filosofia e professor dos programas de pós-graduação em Filosofia e Psicologia da UFPA. 

Para ele, temos naturalmente dificuldade em administrar nossas relações com os afetos, já que eles são elementos poderosos. Em um momento de crise política, sanitária e econômica como esse, porém, tudo se mistura. "Isso, evidentemente, pode tornar a vida muito mais complicada, na medida em que você fica mais vulnerável e muito fragilizado em relação a isso", diz. 

A raiva é uma emoção que surge como reação a um estímulo. Para algumas pessoas, ela pode ser mobilizadora (Foto: Disney Pixar/Reprodução)

Quando o incômodo cresce
Sentir tristeza, raiva ou medo não significa que alguém passa por algo de errado. No entanto, quando alguma dessas emoções ou sentimentos  incomoda demais, é preciso encará-la de outra forma. 

O isolamento social pode ser traumático para algumas pessoas, mas experiências do passado podem trazer respostas para como lidar com esse momento. Um dos teóricos citados pelo professor Amauri Gouveia Júnior, da UFPA, é o neuropsiquiatra austríaco Viktor Frankl, que ficou conhecido por ter descrito como foi viver em campos de concentração nazistas. Frankl seguiu em uma área da Psicologia especializada em estudar o sentido da vida no mundo. 

"Ele fala que quem tinha alguma ideia de algo para fazer quando acabasse a guerra saía melhor daquilo ali. É como uma cenoura na frente do burro. É importante ter algo para a gente retomar - seja um curso, uma viagem. Porque uma hora isso vai acabar. E nós precisamos ter alguma coisa que nos mantenha vivos", sugere. 

Além disso, cada pessoa tem sua própria "caixa de ferramentas". Tem gente que gosta de cozinhar ou pintar aquarela, enquanto alguns vão se sentir melhor organizando gavetas. Por isso, é preciso identificar o que é possível fazer no plano individual. Profissionais como psicólogos podem ajudar nesse processo. 

A professora Sônia Gondim, da Ufba, explica que a própria pessoa pode estabelecer seus parâmetros. Quando uma emoção ou sentimento predominante te impede de fazer algo, é um sinal de alerta ligado de que aquilo pode não ser apenas momentâneo. 

"A pessoa é o seu próprio termômetro, daí a importância do autoconhecimento", defende. Ao mesmo tempo, é válido também saber a percepção de quem te conhece. Quem está te observando pode ajudar a reconhecer quando algo não está bem. "O reconhecimento de não estar bem não é só seu, mas do outro que te observa. Nossa imagem também é construída pelo que o outro nos atribui", completa. 

Desabafar também é algo incentivado pelos pesquisadores. Nisso, os brasileiros têm uma vantagem, como explica o filósofo Ernani Chaves, da UFPA. 

"Somos uma cultura em que a partilha da dor é muito importante, então é possível catalisar essa característica particular da nossa cultura. Compartilhar o sofrimento pode criar redes formais ou informais onde a gente possa falar, discutir e acolher", diz. 

Se o seu sentimento predominante atualmente é... 

  • Medo

Conheça Márcio: ‘Eu até tomo banho de máscara. Antes, não sentia medo assim’, diz caminhoneiro que vive a pandemia nas estradas

Conheça Cora**: 'O medo veio quando eu percebi que as coisas só estavam piorando', diz estudante que sofre de ansiedade 

  • Tristeza

Conheça Layla: ‘Você dá alta a um e já tem paciente na emergência. Nem sei se é só tristeza, mas é desesperador’, diz fisioterapeuta da linha de frente

Conheça Arielle: ‘Perco a vontade de sair da cama e é difícil fazer coisas básicas’, diz estudante que planejava sair do país antes da pandemia

  • Raiva

Conheça Mônica*: ‘Tenho uma raiva pela atitude das pessoas. Mas me sinto errada de sentir raiva’, diz arquiteta, sobre a pandemia

Conheça Maria: ‘Foi na pandemia que senti o que de fato era raiva’, diz brasileira que vive em Portugal

  • Nojo

Conheça Lucas: ‘O que me deixa enojado é a forma como as pessoas fazem vista grossa com a covid’, diz estudante que saiu de trabalho onde colegas não usavam máscara

Conheça Raquel: ‘Passei a ficar com nojo de tudo e estava quase virando um TOC’, diz bióloga 

  • Alegria

Conheça Victória: ‘Teve espaço para tristeza, mas, colocando tudo na balança, a alegria tem sido predominante para mim’, diz técnica que conseguiu se formar na pandemia

Conheça Rita: 'Hoje, tenho a alegria de ver esse negócio aberto, que era um desejo meu', conta funcionária pública que se descobriu agricultora no isolamento

*Colaborou Vinícius Nascimento

**Nomes fictícios

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