Quarentenas: saiba quando foram iniciadas e para o que servem

coronavírus
26.04.2020, 08:00:00
Hospital na base militar de Camp Funston, Kansas, nos Estados Unidos, durante gripe espanhola, em 1918 (Divulgação )

Quarentenas: saiba quando foram iniciadas e para o que servem

As primeiras medidas de isolamento para evitar disseminação de doenças datam de mais de cinco séculos

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Popularmente, estamos chamando este cenário em que vivemos - com pessoas isoladas em casa e comércio fechado - de quarentena. Mas, na realidade, a chamada 'quarentena' é uma de várias estratégias de saúde para conter doenças contagiosas, como é o caso da covid-19. No Brasil e em quase todo o mundo, estamos na realidade em estado de 'distanciamento social ou físico'. Por isso, é importante conhecer cada uma dessas medidas.


De onde surgiu a palavra 'quarentena'?
No Século XIV, a cidade de Veneza, na Itália, era um dos maiores portos do mundo. Na intenção de combater a Peste Negra, doença que dizimava a Europa, decidiu-se que os navios deviam ficar ancorados por 40 dias antes que a tripulação pudesse desembarcar. A regra ficou conhecida como 'quarantino', palavra que deriva de 'quaranta giorni', ou 'quarenta dias' na língua vêneta.


1. O que é quarentena hoje?
A quarentena segue como uma medida que visa isolar, por um tempo, uma pessoa que teve contato com algum doente ou que esteve em lugar com surto de doença. A ideia é observar se ela manifesta a doença antes de introduzi-la na sociedade. Um bom exemplo são os brasileiros trazidos de Wuhan, na China, onde surgiu a covid-19. O período de quarentena é determinado de acordo com a doença, pelo tempo entre a infecção e o aparecimento dos sintomas.

2. O que é isolamento
É uma medida que visa retirar do convívio social uma pessoa que já foi diagnosticada com alguma doença contagiosa ou que tem fortes indícios de tê-la contraído. O objetivo é isolá-la, seja em casa ou numa instituição de saúde, para que ela não transmita mais a doença.

3. Distanciamento social ou físico
É um conjunto de medidas que visam reduzir a circulação de todas as pessoas, até mesmo aquelas que não apresentam sintomas da doença. As ações de distanciamento são adotadas em casos de doenças que podem ser transmitidas por pessoas sem sintomas, como é o caso da covid-19. Recomendar o uso de máscaras, incentivar o trabalho de casa, reduzir o tráfego de carros, reduzir o número de voos, fechar o comércio são alguns exemplos.

4. Bloqueio total (ou lockdown)
O lockdown, ou 'bloqueio total', é um conjunto de ações que visam endurecer o distanciamento social e torná-lo obrigatório. É o caso, por exemplo, de estabelecer regras para que as pessoas saiam de casa e multas para quem descumpri-las. Países da Europa como Itália, França, Espanha e Reino Unido já estão adotando ações nesta linha para impedir o contágio da covid-19.

Área de quarentena na Austrália, em data não divulgada
Área de quarentena na Austrália, em data não divulgada (Divulgação)
Quarentena para soldados retornando de campos de guerra da Primeira Guerra Mundial antes de serem reinseridos na Austrália, em 1919
Quarentena para soldados retornando de campos de guerra da Primeira Guerra Mundial antes de serem reinseridos na Austrália, em 1919 (Divulgação)
Hospital de isolamento de pessoas em Point Nepean, na Austrália
Hospital de isolamento de pessoas em Point Nepean, na Austrália (Divulgação)
 Enfermeira atende paciente acometido por gripe espanhola em hospital de Washington, Estados Unidos
Enfermeira atende paciente acometido por gripe espanhola em hospital de Washington, Estados Unidos (Divulgação)
Funcionária de saúde de Minneapolis, Estados Unidos, postando cartaz de quarentena para doentes de escarlatina em 1907
Funcionária de saúde de Minneapolis, Estados Unidos, postando cartaz de quarentena para doentes de escarlatina em 1907 (Divulgação)
Pacientes de gripe espanhola em Glasgow, na Escócia
Pacientes de gripe espanhola em Glasgow, na Escócia (Divulgação)
Membros da cruz vermelha com macas para pacientes da gripe espanhola em Saint Louis, Estados Unidos, em 1918
Membros da cruz vermelha com macas para pacientes da gripe espanhola em Saint Louis, Estados Unidos, em 1918 (Divulgação)
Base militar em Dijon, França, atendendo soldados com gripe espanhola em 1918
Base militar em Dijon, França, atendendo soldados com gripe espanhola em 1918 (Divulgação)
Interior de um hospital da Cruz Vermelha durante gripe espanhola em New Haven, Connecticut, Estados Unidos
Interior de um hospital da Cruz Vermelha durante gripe espanhola em New Haven, Connecticut, Estados Unidos (Divulgação)
 Passageiro é impedido de entrar em bonde por não estar usando uma máscara em Seattle, Estados Unidos, durante gripe espanhola (1918)
Passageiro é impedido de entrar em bonde por não estar usando uma máscara em Seattle, Estados Unidos, durante gripe espanhola (1918) (Divulgação)

A história das 'quarentenas'
1. Século XIV

A ideia de isolar navios por 40 dias não tem nada de científico: segundo historiadores, faz referência a períodos de penitência descritos na Bíblia, como os 40 dias em que Jesus passou no deserto. A quarentena é adotada ao lado de outras medidas como pendurar dentes de alho no pescoço e queimar ervas em fogueiras nas ruas das cidades.

Curiosidades: Descobriu-se, mais tarde, que o período entre o contágio e a morte por Peste Negra dura em média 37 dias. 

2. Século XV em diante
O sucesso obtido em Veneza leva outras cidades da Europa a adotarem a quarentena de navios. Medidas de quarentena ou de isolamento dentro das cidades, como trancar populações inteiras, ainda não eram adotadas. O mais comum era expulsar os doentes das cidades. O distanciamento social ocorria por pânico: comércios fechavam e pessoas tinham medo de sair de casa.

Curiosidade: Um dos primeiros casos de isolamento de uma população inteira ocorreu em 1665, na aldeia inglesa de Eyam. Durante um surto de Peste Negra, a vila impediu a entrada de pessoas e os habitantes ficaram trancados em suas casas. Meses depois, a vila se livrou da doença.

3. Século XVIII em diante
O avanço da Medicina leva os cientistas a recomendarem a detecção de doentes e o isolamento deles em unidades de saúde para conter o avanço das doenças. Assim, surgem os hospitais de isolamento, e o sucesso faz com que a prática aos poucos torne-se de praxe no combate de todas as epidemias.

Curiosidade: Assim, surge o Hospital de Isolamento de Mont Serrat (mais tarde Hospital Couto Maia), que tornou-se fundamental no combate em Salvador às epidemias de febre amarela e cólera, em meados do Século XIX, e de gripe espanhola, em 1918.

4. Séculos XVIII e XIX
Até aquele tempo, a teoria que dominava a Medicina era a 'miasmática'. Segundo ela, as doenças tinham causas atmosféricas: acreditava-se que eram transmitidas pelo ar podre que exalava dos corpos em decomposição, dos esgotos e do acúmulo de lixo. Outros médicos, adeptos da teoria microbiana, defendiam que as doenças eram transmitidas por microorganismos. Avanços científicos daquela época fizeram com que a teoria microbiana 'vencesse' essa batalha e medidas como quarentena e isolamento de doentes ganhassem força.

5. 1918
A Gripe Espanhola exigiu medidas inéditas de contenção. A cidade de St. Louis, nos Estados Unidos, fechou rapidamente escolas e cinemas, reduziu os horários dos bondes e a jornada de trabalho. O resultado foi um controle rápido do contágio, principalmente se comparado a outras cidades do país. A Philadelphia realizou um grande desfile para homenagear os soldados da Primeira Guerra Mundial. Resultado: 4.500 pessoas morreram poucas semanas depois.

Curiosidade: no Brasil, Rio de Janeiro e São Paulo determinaram o fechamento de escolas, igrejas e comércios durante a Gripe Espanhola. Em Salvador e em outras cidades foram tomadas medidas para evitar a aglomeração de pessoas.

6. Século XXI
As medidas de distanciamento foram fundamentais no combate às duas primeiras epidemias do Século XXI: a SARS, entre 2002 e 2003, e a Gripe Suína, em 2009. No entanto, essas medidas foram adotadas apenas em grupos de pessoas específicos ou em cidades com muitos casos. É com a covid-19 que o distanciamento ganha uma nova proporção, abrangendo países inteiros em todo o planeta. Trata-se, portanto, de um momento inédito.

Curiosidade: no combate à SARS, que também era provocada por um tipo de coronavírus, foram adotadas quarentenas de grupos de pessoas e medidas de distanciamento social em grandes cidades da China, Canadá e Singapura. No combate à Gripe Suína, a Cidade do México fechou escolas, estádios de futebol e outros estabelecimentos.

As grandes pandemias

Peste Negra: também conhecida como peste bubônica, teve vários surtos na Europa, sendo o principal deles no Século XIV. Estima-se que matou mais de 200 milhões de pessoas no mundo, sendo a maior pandemia da história. É provocada por uma bactéria presente em pulgas de ratos.

Varíola: há registro da doença, provocada por um vírus, desde a Antiguidade. No começo do Século XVI, em meio à chegada dos europeus às Américas, ela ajudou a dizimar a população indígena local, favorecendo a conquista dos colonizadores, sendo impossível estimar o número de vítimas.

Cólera: teve vários surtos ao longo do Século XIX. O que mais afetou o Brasil e a Bahia aconteceu em 1955, quando estima-se que 20 mil pessoas morreram no nosso estado. É causada por uma bactéria presente na água.

Gripe espanhola: considerada a maior pandemia do Século XX, surgiu em 1918 e estima-se ter deixado 50 milhões de mortos em todo o mundo. No Brasil, estima-se pelo menos 35 mil vítimas. A cidade mais afetada foi o Rio de Janeiro, então capital do país, onde morreram 12 mil pessoas. Em Salvador, que ná época tinha 320 mil habitantes, foram 130 mil pessoas infectadas e 386 mortos - segundo os números oficiais, pouco confiáveis.

Gripe asiática: ocorrida entre 1956 e 1958, surgiu na China a partir de um tipo de vírus da gripe (H2N2) transmitido por meio de aves. Cerca de 2 milhões de pessoas morreram em decorrência do vírus. Não se tem o número de infectados no Brasil.

Gripe suína: apareceu no México em 2009, a partir de porcos, e rapidamente se espalhou pelo mundo, sendo a primeira pandemia do Século XXI. Estima-se que 1,7 bilhão de pessoas no planeta foram infectadas. A estimativa de mortes é de 18 mil pessoas. Em agosto de 2010 a OMS decretou o fim da pandemia.

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