'Quero cortar meu cabelo agora', diz adolescente agredido e insultado por PM 

salvador
04.02.2020, 11:59:00
Atualizado: 04.02.2020, 17:08:13

'Quero cortar meu cabelo agora', diz adolescente agredido e insultado por PM 

Corregedoria vai apurar abordagem em Paripe, Subúrbio Ferroviário de Salvador

Em momentos como o que vivemos, o jornalismo sério ganha ainda mais relevância. Precisamos um do outro para atravessar essa tempestade. Se puder, apoie nosso trabalho e assine o Jornal Correio por apenas R$ 5,94/mês.

Foto: Bruno Wendel/CORREIO

O adolescente negro de 16 anos agredido em uma abordagem policial em Salvador, com murros e chute, além de insultos racistas, diz estar com medo de sair de casa e se sente ameaçado. "Não me sinto mais à vontade para usar [o black power]", disse o jovem ao CORREIO.

Ainda bastante assustado, o adolescente conversou com a reportagem na manhã desta terça-feira (4) e disse temer uma reação do PM, que ainda não foi identificado. "Me sinto ameaçado, se ele [o PM] vai querer me pegar por causa do vídeo, fazer maldade comigo".

Ele usa o cabelo black há pelo menos um 1 ano e foi a primeira vez que foi discriminado.

"Você pra mim é um ladrão. Você é vagabundo! Essa desgraça desse cabelo. Tire aí [o chapéu], vá! Essa desgraça aqui. Você é o quê? Você é trabalhador é, viado?", disse o PM ao jovem. 

Rui Costa pede punição a PM que agrediu adolescente: 'caso isolado'

A ação foi gravada no último domingo (2) de dentro de um imóvel, em Paripe, no Subúrbio Ferroviário, sem que os policiais envolvidos na abordagem percebessem, e divulgadas nas redes sociais na tarde desta segunda-feira (3).

Ele relembra que no dia da abordagem tinha levado uma amiga de sua namorada no ponto de ônibus. "Parei para conversar com um colega que tava de carro. Foi quando a viatura veio e fez a abordagem. Deu chute primeiro na perna do meu colega e depois veio para cima de mim. Falou que eu era vagabundo com esse cabelo aqui, ladrão".

Foto: Reprodução

Nas imagens, que serão analisadas pela Corregedoria da corporação, o policial esmurra o jovem negro que estava sendo revistado ao lado de outro homem.

Na abordagem truculenta, o PM retira a boina do jovem que usa cabelo no estilo black power e a joga no chão. Ao ouvir o rapaz dizer que é trabalhador, o PM retruca:

Durante os ataques, o PM é chamado por um colega, que não aparece nas imagens, para deixar o local.

Em nota divulgada na segunda-feira, a assessoria da Polícia Militar informou a corporação "não preconiza com a violência e rechaça todo e qualquer tipo de conduta violenta". Além disso, confirmou que o vídeo será encaminhado para a Corregedoria-Geral da PM para ser analisado.

'Não admito'
O governador Rui Costa, em publicação feita em seu perfil oficial no Twitter, na manhã desta terça-feira (4), comentou a denúncia de racismo envolvendo um policial militar da Bahia.

“Como governador do Estado da Bahia, não admito comportamento de violência policial como o ocorrido no vídeo que circula nas redes sociais. É inaceitável, inadmissível e não reflete o comportamento e os ideais da instituição”, disse Rui. 

O governador, que participou da entrega uma contenção de encosta na manhã desta terça-feira (4) na Bela Vista do Lobato, no Subúrbio de Salvador, afirmou que acompanha a apuração do caso.

“Determinei apuração rigorosa e imediata da Corregedoria da Polícia Militar com as devidas punições legais aos responsáveis e divulgação para a sociedade das medidas adotadas, para que esses casos isolados não possam continuar comprometendo a imagem da instituição”, escreveu na rede social.

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas