Salvador tem oito salva-vidas mulheres na orla; a praia agradece

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14.02.2011, 08:22:00

Salvador tem oito salva-vidas mulheres na orla; a praia agradece

Na labuta praiana, regada a muito sol, protetor solar e salitre, elas ficam praticamente escondidas entre os 116 colegas homens

Bruno Villa|Redação CORREIO
bruno.villa@redebahia.com.br

Dorival Caymmi só cantou a doçura de se morrer nas ondas verdes do mar porque não conheceu uma das oito salva-vidas que guardam as praias soteropolitanas. Do contrário, ele preferiria cair nos braços de Edvânia, Ane ou Rosa Maria do que nos de Iemanjá.


Jamile, Rosa e Sara, do Gmar, garantem nossa segurança e a saúde de nossos olhos

Das dez profissionais que atuam no Grupamento Marítimo (Gmar), ligado ao Corpo de Bombeiros, e na Coordenadoria de Salvamento Marítimo de Salvador (Salvamar), da prefeitura, oito atuam diretamente na orla da capital.

Na labuta praiana, regada a muito sol, protetor solar e salitre, elas ficam praticamente escondidas entre os 116 colegas homens, espalhados diariamente por 58 postos entre as praias da Ribeira e Ipitanga. O total de funcionários da Salvamar é de 270 salva-vidas. O Gmar conta com 143.

Salvamento
Os banhistas que já se engasgaram com um caldo bem grosso das águas salgadas de Piatã ou Jaguaribe provavelmente saíram do sufoco nos braços de Edvânia Fernandes, 26 anos. As duas praias são as mais perigosas dos 17,5 quilômetros de litoral entre Jardim de Alá e Aleluia - além das ilhas de Maré e dos Frades -, responsabilidade exclusiva da Salvamar. Dos 1.291 afogamentos registrados em 2010, 186 foram em Jaguaribe e 128 em Piatã. O Gmar fica com os 75 quilômetros entre a Ribeira e Ipitanga, excluindo a área da Salvamar.

Como a batalha contra Iemanjá é dura, Edvânia pratica natação e corrida em areia fofa duas horas por dia, seis vezes por semana - com esse preparo, ela já fez a travessia Salvador Mar Grande, de 12 quilômetros, oito vezes.

A atenção no vai e vem das ondas e no furdunço dos banhistas só é quebrada quando o álcool solta a língua dos gaiatos. “Já ouvi de tudo, até dos colegas. Já me disseram ‘Tô indo me afogar, você me salva?’, pagaram lanche... Até uma menina me disse que ia se afogar para eu beijar a boca dela”, lembrou.

Como a estudante do 5º semestre de Educação Física já tem namorado  e não dá trela, a resistência deixa os artistas da sedução mais dramáticos. “Muitos entram na água e fingem que estão se afogando. Mas a gente consegue reconhecer quando é mentira”, afirmou.
 
Vergonha
A desenvoltura dos don juans de sunga acaba junto com as forças para resistir à força da maré. Quando estão se afogando, e finalmente podem ser salvos por uma mulher, a vergonha é pior do que a falta de ar.

“Basta pisar na areia que o cara se solta da gente e sai correndo para ninguém ver que foi salvo por uma mulher”, disse a salva-vida da Salvamar Ane Costa, 26 anos.

A macheza chega ao ponto de a vítima negar a necessidade de  ajuda quando é abordada pela salva-vidas. “Tem homem que diz para a gente voltar e fala que está tudo bem. Mas logo eles notam que precisam de ajuda e deixam a gente trabalhar”, explicou. Em agosto de 2010, Ane rompeu o tendão do ombro esquerdo, devido à sobrecarga de exercícios, e só volta às praias em junho.

A tenente do Gmar Rosa Maria de Castro, 41, que trabalha na praia de Itapuã, tem uma receita para quem tenta lhe engabelar: o caldinho da humildade. “Quando não deixam a gente ajudar, basta esperar eles engolirem um pouco mais de água para nos deixarem trabalhar”, brincou.

Há 10 anos, Rosa era uma pessoa bem diferente - pesava 95 quilos, fumava e só corria para fugir dos exercícios. Mas um dia resolveu mudar. “Olhei no espelho, vi que tinha um limão e fui fazer minha limonada - só que com adoçante”, disse.  

Há seis anos no Gmar, Rosa se libertou de 35 quilos e virou triatleta. Malha 4 horas por dia, seis dias por semana, nada, corre e anda de bicicleta.

Ao contrário das salva-vidas do Salvamar, que acharam os colegas meio ressabiados quando as mulheres invadiram a praia, a tenente negou ser alvo de preconceito. “Em toda a carreira, nunca sofri preconceito, porque eu meto a mão, boto pra lenhá, caio pá dento mermo”, disparou.

Quando um engraçadinho procura galinhagem, Rosa se transforma em avestruz. “O assédio existe, mas eu dou uma de avestruz, boto a cabeça no buraco, finjo que não ouço”. Agora, se o cabra insistir em cantar de galo no terreiro, a tenente o leva para piar na delegacia - como o Gmar é ligado ao Corpo de Bombeiros, os integrantes são militares.

Treinos são puxados
Para se tornar salva-vidas, tem que ter muito peito, pernas e braços. O teste físico começa com uma corrida de 3,2 quilômetros, que deve ser feita em 13 minutos. Depois, é hora de cair na piscina. A primeira etapa na água é nadar 100 metros em 1 minuto e 20 segundos.

As fases anteriores servem para avaliar o condicionamento. A segunda é nadar 200 metros, com três quilos de chumbo amarrados no corpo, em 3 minutos e 30 segundos - o objetivo é simular o peso da vítima durante um resgate. Segundo o chefe do setor de treinamentos, o salva-vidas Glauco Bastos, essa prova mostra se a concorrente sabe mesmo nadar. Depois, é hora de testar o pulmão. Primeiro, o candidato nada 25 metros, submerso, sem poder subir para respirar. A fase seguinte é a apneia - passar 45 segundos debaixo d'água sem respirar.

A prova é para o concorrente mostrar se é capaz de fazer resgate em grandes profundidades. A última etapa é boiar, com a água na altura do peito e apenas com o movimento das pernas, por cinco minutos. Os braços devem ficar na superfície. O objetivo  é saber se o candidato consegue boiar com a mãos livres, para poder dar os primeiros socorros à vítima dentro d'água.

1ª salva-vidas hoje joga polo nos EUA
Rosana Andrade vivia sem grandes preocupações seus 21 anos quando um grupo de bombeiros chegou à faculdade de educação física da Universidade Católica de Salvador, onde estudava.

Eles queriam chamar jovens para formar um grupo de salva-vidas - ligado ao Corpo de Bombeiros -, que seria batizado Coordenadoria de Salvamento Marítimo de Salvador (Salvamar).

Em 1981, Rosana se tornou a primeira mulher salva-vidas de Salvador.  Após seis meses trabalhando nas praias, ela deixou o grupo, que só teria a existência oficializada, por decreto do prefeito Manoel Castro, em novembro de 1983. Ela trocou as praias de Salvador pelas piscinas do Texas, nos Estados Unidos. Hoje, aos 50 anos, ela é ainda jogadora de polo aquático e trabalha como salva-vidas nos EUA.

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