Salvador Unida: palhaço e cantor divertem público nas varandas e pedem doações

coronavírus
01.04.2020, 16:16:00
(Hilza Cordeiro/CORREIO)

Salvador Unida: palhaço e cantor divertem público nas varandas e pedem doações

Artistas já programaram novas apresentações no Imbuí

Dois artistas baianos decidiram se unir para arrecadar alimentos durante a pandemia do novo coronavírus. Como estão desempregados, um cantor e um palhaço arranjaram uma forma de amenizar o impacto gerado pelo vírus.

Eno Gouveia, mais conhecido como palhaço Bagunça Show, decidiu se juntar ao amigo de infância, Marcos Mendonça, para fazer shows nas ruas de Salvador em troca de qualquer tipo de ajuda, seja através da doação de alimentos ou dinheiro. 

Tudo que é arrecadado é dividido entre os dois artistas e com os vizinhos, que não ficam na mão. “Se alguém estiver precisando de alguma coisa, a gente dá uma parte. Vamos sempre dividir tudo que der”, disse Eno.

A primeira tentativa dos dois foi na última quinta-feira (26). Os amigos saíram de suas casas, na Estrada do Curralinho, e foram até as dunas na região da Boca do Rio para tentar conseguir material para reciclagem e pedir ajuda para as pessoas. Tudo isso sempre de forma animada e cantando. A ideia deu resultado e, por isso, os dois resolveram incrementar um pouco a estratégia.

No último final de semana, os dois saíram com roupas coloridas, caixas de som e uma guitarra de brinquedo para arrecadar doações no Imbuí. O repertório e as brincadeiras do cantor e do palhaço ganharam os moradores do bairro, que assistiam tudo das janelas de suas casas. Muitos desceram para ajudar a dupla.

“A gente para na frente do prédio. O pessoal vai ouvindo nosso show, as crianças e os pais vão para a varanda. Aí pedimos ajuda com alimento, coisas quebradas, roupas, dinheiro. Qualquer coisa serve. No domingo, as pessoas do Imbuí ajudaram demais a gente. Ganhamos um dinheiro que deu para comprar carne. O povo de lá vibrou e bateu palma, a gente sai feliz pelo reconhecimento”, relatou Eno.

O palhaço, que tem seis filhos, calculou que o que foi arrecadado vai conseguir alimentar a família por uma semana. Já Marcos é pai de dois meninos.

O show de rua deu tão certo que os dois desejam continuar as apresentações. De acordo com Eno, a ideia é retornar às dunas no sábado e repetir a dose no Imbuí no domingo.  “A gente não pode ficar saindo muito, por isso, só vamos no final de semana”, afirmou, o palhaço, que tem cumprido o isolamento social durante a semana.

Os performistas já estão preparando um novo show para as próximas saídas. A estratégia é cantar mais músicas infantis e incrementar a fantasia. “Vamos levar uma gaita e usar peruca. Vai ser uma apresentação mais animada. A gente foi muito tranquilo no domingo, contamos muita música de adulto. Agora, vai ser um repertório novo, com músicas de crianças. Vai ter até Xuxa”, revelou Eno, ao lembrar que os shows são assistidos pelas janelas das casas, sem gerar aglomerações.

Picolino
O palhaço aprendeu a arte aos 10 anos, no circo Picolino, quando fez parte do Projeto Axé. “No projeto, eu aprendi o básico. Foi lá que eu comecei a jogar malabares e bolinha”, relembrou Eno.

Ainda aos 10 anos, ele trabalhou com o mágico Ray Show, que era seu vizinho. Foi com ele que Eno aprendeu a ter desenvoltura no palco e conquistar os espectadores. Desde a infância, ele trabalha como palhaço.

Atualmente, o ofício é realizado nas portas das lojas ou em festas. Mesmo antes do coronavírus, ele já saía com o amigo Marcos para cantar pelas ruas de Salvador. “Dá para viver, mas agora os aniversários foram cancelados e as lojas fechadas, então ficou puxado pra gente”, disse. Então, os shows de rua que aconteciam poucas vezes viraram o sustento de duas famílias.

Assim como Eno, Marcos também gosta de entreter o público. “Ele sabe cantar”, elogiou o palhaço. Ambos possuem trabalhos informais. Eno atua como locutor em lojas e animador de festas, já o amigo faz reciclagem e ajuda com as entregas da pizzaria do irmão. Em março, o coronavírus impossibilitou que eles trabalhassem. 

“Não tinha o que fazer. Estávamos sem ter como trabalhar e as coisas começaram a apertar em casa. Eu sugeri que a gente desse uma saída para tentar ganhar alguma coisa”, contou Eno.

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*Com orientação da subeditora Fernanda Varela

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