Salve, Senhor do Bonfim! Tradicional devoção nasceu em 1745 com influência portuguesa

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15.01.2022, 06:00:00
Festa e o cortejo levam mais de um milhão de pessoas à Colina Sagrada todos os anos  (Foto: Shuttestock)
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Salve, Senhor do Bonfim! Tradicional devoção nasceu em 1745 com influência portuguesa

Reunimos histórias, fatos e curiosidades sobre a festa

“Lembro até do cheiro da festa… das frutas que eram vendidas nas barracas, do parque com roda gigante, das pessoas que enchiam a Colina Sagrada e a Baixa do Bonfim. Era uma festa viva, que começava no primeiro dia da novena. No dia da lavagem, vinha com meu pai, Jurandy, na carroça, era um momento festivo. Cantávamos e sambávamos em homenagem ao Nosso Senhor do Bonfim”. O relato é da empresária Simone Reis, que guarda em sua memória uma coleção de boas lembranças de 47 anos de participação na tradicional festa em homenagem ao Senhor do Bonfim. 

Para quem começou a viver essa devoção aos dez anos de idade, foi possível ver muitas mudanças ao longo do tempo, porém, nenhuma havia sido tão drástica até a chegada da pandemia, o que impossibilitou a realização dos festejos com toda a sua magnitude, com direito à tradicional Lavagem das Escadarias e o perfumado banho de alfazema, proporcionado pelas baianas. “Sinto falta da movimentação das pessoas, da animação que este lugar tem neste período. A caminhada de corpo e alma no dia da Lavagem, a manifestação do povo que caminha da Conceição até a Colina Sagrada é emocionante, assim como no domingo, dia da festa e a procissão dos três pedidos”, comenta ela. 

Simone nasceu na Península de Itapagipe e frequenta a igreja há muito tempo. Tanto que se tornou voluntária do projeto social “Bom Samaritano” e também já faz parte da Comissão das Festas realizadas na Colina Sagrada. Segundo ela, todos os dias recebe graças do Senhor do Bonfim, mas uma muito especial veio em 2015: quando teve a inspiração de criar o projeto Vila Criativa, que ocupa três das antigas casas dos romeiros, no Largo do Bonfim, reunindo gastronomia, artesanato, café e leitura. 

 “A mistura da fé com as manifestações populares e o sincretismo religioso me fascina em nossa cultura, pois a religião de matriz africana é o nosso DNA”_Simone Reis, empresária e devota 

Festas paralelas 

Não se sabe ao certo em que momento da história a segunda quinta-feira de janeiro passou a ser a mais movimentada na cidade com a Lavagem, mas é certo dizer que este é um dos momentos mais esperados do calendário de festas populares baianas. Tudo começa com uma concentração em frente à Igreja da Conceição da Praia, no Comércio, de onde os fiéis partem em uma caminhada de oito quilômetros até a Colina Sagrada, acompanhados por bandinhas, charangas, artistas de rua, poetas, baianas… Tem lugar para a expressão religiosa da fé e também para quem gosta de se divertir do lado profano da ocasião. 

Ali no entorno são montadas barracas para entreter quem não sai na caminhada, geralmente feita por quase um milhão de pessoas. Em anos passados, a concentração ganhou espaço e até festas paralelas, como Bonfim Light e Bonfim na Laje, com feijoada e apresentação de bandas. 

Início de tudo 

A devoção ao Senhor do Bonfim começou no século XVIII. No ano de 1745, o capitão de mar-e-guerra português Teodósio Rodrigues Farias chegou a Salvador, trazendo com ele a imagem do Senhor do Bonfim, vinda da cidade portuguesa de Setúbal. Ele ofereceu a imagem  de presente à igreja em agradecimento por ter sobrevivido a uma grande tempestade em alto mar e atribuiu a graça ao Senhor do Bonfim. 

A basílica começou, então, a ser construída naquele ano e foi finalizada apenas em 1754. Durante nove anos a imagem ficou abrigada na Igreja da Pena, na Ribeira. Quando foi transferida para a Colina Sagrada já havia uma grande devoção ao Senhor do Bonfim, inclusive, “já existia naquela época, na Igreja da Penha, o ritual de fiéis apresentarem ex-votos em agradecimento por graças alcançadas e isso foi transferido para o Bonfim, quando a igreja passou a funcionar”, explica o Reitor da Basílica do Bonfim, padre Edson Menezes. 

Curiosidades da Religiosidade Popular 

Ex-votos - A fé no Senhor do Bonfim fez nascer um dos rituais mais interessantes vistos na igreja: para agradecer milagres e curas recebidas, os fiéis levam como oferta os ex-votos - réplicas das partes do corpo curadas, chaves de casa ou carro, diplomas e outros itens que representam uma conquista. Porém, este ano a sala dos Ex-votos e o museu, que fica no 1° andar da igreja, não podem ser visitados, pois estão interditados temporariamente por conta de uma reforma para a recuperação dos azulejos português no corredor de acesso. No início, os ex-votos eram confeccionados com madeira ou prata; hoje em dia são feitos de cera.

Medida - O ritual nasceu no ano de 1809, quando o tesoureiro da igreja, Manoel Servo, teve a ideia de tirar a medida entre a chaga da mão e a chaga do peito da imagem do Senhor Bonfim, que é de 45 centímetros, e mandou fazer uma fita. Inicialmente era chamada de “Medida do Senhor do Bonfim” e as pessoas a usavam em volta do pescoço. Com o tempo, passou-se a amarrar no braço e fazer os três pedidos. 

“A igreja perdeu o controle e hoje a fitinha é vendida no mundo todo, mas é uma tradição que nasceu aqui. É um ritual da religiosidade popular, que parte do imaginário das pessoas de forma espontânea. Isso nem sempre tem registro no início e depois ganha corpo e tradição. Dizem que hoje a fitinha vem até da China e tem fábrica em São Paulo, mas não tem aqui na Bahia”, comenta o padre Edson Menezes

Por nunca ter sido patenteada, a famosa fitinha colorida que antes era confeccionada em seda ou algodão, de maneira manual e com o nome bordado, passou a ser industrializada em larga escala, em poliéster, com o nome gravado em tinta preta e já não segue mais a medida de 45cm.

Mudanças de protocolo

Este ano não teve cortejo ou lavagem, mas a fé no Senhor do Bonfim segue forte no coração do povo baiano (Foto: divulgação)

Assim como 2021, por conta da pandemia e do distanciamento social, este ano os festejos ao Senhor do Bonfim aconteceram de maneira diferente do tradicional: não houve o cortejo com as baianas e nem a lavagem da escadaria, mas não faltou a fé! A religiosidade é mantida com a realização das missas e os momentos de oração, seguindo os protocolos e o acesso controlado ao interior da igreja para as celebrações neste domingo (16).  “Estamos vivendo um momento delicado, com muitas contaminações. É preciso fazer essa renúncia em vista de um bem maior”, afirma o reitor da Basílica do Bonfim, padre Edson Menezes. 

O tema da festa em louvor ao Senhor do Bonfim, este ano é: Papa Francisco, Vigário do Amado Jesus, Senhor do Bonfim. Já o lema para a reflexão dos fiéis é Por uma Igreja Sinodal: Participação, Comunhão e Missão.  “Nós somos todos chamados a participar da vida e da missão da Igreja, conforme o dom e a vocação que cada um recebeu de Deus. Somos chamados a caminhar juntos, a conviver fraternalmente e a dar testemunho de comunhão eclesial. Nós que temos a graça de participar da festa do Senhor do Bonfim devemos continuar a participar da Igreja durante o ano todo”, recomendou Dom Sérgio da Rocha, Arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil, em sua mensagem especial para a festa deste ano. 

A preparação para as homenagens começaram com a novena, realizada do dia 7 até este sábado, 15. Além de bençãos dadas da janela do templo, padre Edson Menezes também utilizou as redes sociais para se dirigir aos fiéis em momentos de oração e reflexão em transmissões ao vivo. Quem não for à Colina amanhã também poderá acompanhar as homenagens pelas plataformas digitais: @bonfimsantuario (instagram), bomsantuario (youtube) e basilicasantuariosenhordobonfim (facebook). 

Na quinta-feira, a igreja permaneceu fechada durante todo o dia, mas foi reservado um momento de oração com a colocação de uma coroa de flores no monumento do Cristo Ressuscitado, que fica na praça, em memória das mais de 600 mil vítimas fatais do Covid 19. 

Celebrações 
Neste domingo, 16, os fiéis poderão visitar a Igreja do Bonfim para acompanhar as missas nos seguintes horários: 5h , 6h, 7h30, 9h, 10h30 (missa solene celebra por Dom Sérgio), 15h e 17h. Em todos os horários uma equipe do receptivo organizará a entrada controlada das pessoas, com higienização e cuidados para que seja mantido o distanciamento entre elas. Vale ressaltar que todos deverão usar a máscara! 

Após a missa das 17h, a réplica da imagem peregrina do Senhor do Bonfim - que ficará exposta na praça durante todo o dia - será recolhida ao interior da igreja com um momento de oração especial pedindo pela proteção contra doenças, violência e desastres naturais.  

A religiosidade é mantida com a realização das missas e os momentos de oração, seguindo os protocolos e o acesso controlado ao interior da igreja para as celebrações neste domingo (16) (Foto: Shutterstock)

Reurbanização é mais  um atrativo
Além de fortalecer a fé, quem hoje visita a Colina Sagrada tem uma experiência turística  única na cidade. É que com a revitalização urbana da região, o local ficou ainda mais atrativo. Tudo começa no Largo de Roma, início do Caminho da Fé, onde está o memorial em homenagem à Santa Dulce dos Pobres. Dali até a Igreja do Bonfim é um quilômetro que liga duas das maiores fontes da religiosidade baiana. 

Com o projeto de reurbanização, a Praça do Bonfim  - sítio histórico tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em 1930, como patrimônio da humanidade -, ganhou mais espaço, com a retirada de carros, priorizando o pedestre e a possibilidade de realizar missas e eventos em um espaço aberto.  O projeto assinado por Adriano Mascarenhas, do escritório Sotero Arquitetos, respeitou as normas técnicas de preservação e os fundamentos da devoção ao Senhor do Bonfim. Por exemplo: tudo o que foi desenvolvido para a praça seguiu cálculos de múltiplos ou divisores de 45 centímetros, a Medida do Bonfim. 

A Colina ganhou as capelas da Água Benta e das Velas, totalmente integradas ao contexto local, e, embora de linguagem  contemporânea, dialogam harmoniosamente com o passado colonial do casario da praça e com a igreja.  “Esta foi uma intervenção muito sensível de ser feita. Além disso, destaco a leitura simbólica de ícones do Bonfim, como a fita, os símbolos sagrados da religião católica, bem como do sincretismo religioso, que estão presentes no desenho de piso da praça”, salienta Adriano Mascarenhas. “Acredito que a gente se empenhou em gerenciar todos os atores e variáveis técnicas do projeto de maneira a alcançar um resultado esteticamente bonito e funcional, ao mesmo tempo, já que é um local de grande fluxo de pessoas”, completa. 

Foram feitas intervenções arquitetônicas, de paisagismo e urbanismo. Um dos detalhes mais importantes é a pavimentação com pedras portuguesas. E ainda: houve recuperação do piso do sistema viário de paralelepípedo, bem como o chafariz italiano em mármore carrara, que já existia na praça, e agora tem maior visibilidade. As obras também valorizaram a Baixa do Bonfim, que passou a ser integrada aos arcos da Ladeira do Bonfim, ganhou vagas de estacionamento, nova pavimentação e iluminação em LED. 

“Eu tinha uma ligação pretérita com a colina, que se acentuou a partir desse envolvimento profissional e pessoal, que acabou sendo esse trabalho desenvolvido junto à comunidade e à Devoção do Senhor do Bonfim. Hoje eu estabeleci um vínculo mais forte como fiel e amigo da Devoção e recebi com grande satisfação a homenagem que me foi entregue em uma solenidade na igreja”_Adriano Mascarenhas, arquiteto 

Reforma  interna - Durante as obras de reurbanização da Colina Sagrada, a prefeitura de Salvador, através da Fundação Gregório de Mattos, executou a reforma do altar da igreja, bem como da capela-mor, do retábulo do altar-mor e do forro. Além da recuperação da escada do nicho, instalações elétricas, portas de acesso às sacristias, tribunas, molduras do forro e pilastras decoradas.

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