Santa, espírita, mestre e ialorixá: Salvador já foi a cidade mais protegida do mundo

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15.09.2019, 09:00:00
Atualizado: 16.09.2019, 19:36:58

Santa, espírita, mestre e ialorixá: Salvador já foi a cidade mais protegida do mundo

Quatro das figuras religiosas mais importantes do mundo conviveram juntas aqui

Seguramente é possível afirmar que, em toda a história da humanidade, nunca houve cidade, cume de montanha, beira de lago, caverna platônica ou trilha de peregrinos com mais força espiritual que Salvador na década de 1940.

Neste período, a cidade da Bahia, ainda com menos de 300 mil habitantes, abrigou quatro figuras religiosas de escala global. Enquanto alguns ainda davam seus primeiros passos no itinerário da fé, outros já despertavam encantamento nos fiéis devotos.

Curiosamente, nesta semana, dois deles voltaram a ter o merecido destaque, conjuntamente. Irmã Dulce (1914-1992) está às vésperas de ser consagrada santa pela Igreja Católica. Aqui mesmo nesta coluna já sugerimos que, o dia litúrgico dela, o 13 de agosto, venha a ser um feriado eminentemente baiano – a cerimônia de sacralização será no Vaticano, em Roma, no dia 13 de outubro.

Irmã Dulce (Foto: Acervo Osid)

Outro expoente de enorme prestígio estreou nesta semana sua cinebiografia nas telonas. Divaldo Franco é um dos mais importantes espíritas do mundo. Nascido em Feira de Santana, continua ativo, aos 92 anos, em defesa dos dogmas do francês Allan Kardec. É mais uma conexão, agora espiritual, entre Feira e Paris.

Pouca gente sabe é que Divaldo Franco e Irmã Dulce foram amigos fraternos. Embora representassem diferentes vertentes religiosas, mantiveram uma convivência afetuosa e repleta de cuidados, de ambas as partes.

Divaldo Franco (Foto: Betto Jr/Arquivo CORREIO)

Em entrevista ao Fantástico, há dois anos, Divaldo narrou um encontro com aquela que viria a ser a futura santa católica. Disse que chegou a sugerir comprar uma cama para ela, ao ver que Dulce dormia sentada numa desconfortável cadeira. A resposta foi uma negativa bem fundamentada.

“Não faça isso. Esta cadeira aqui é missionária. Com ela eu já consegui dez camas para o nosso hospital. Todo mundo chega, vê, compadece e manda uma cama. E eu mando lá para a UTI”, relembra.

A fala do espírita está no minuto 6’24, do link abaixo:

Em 1945, Divaldo se mudou de Feira de Santana para Salvador. Em 1952, viria a fundar o espaço filantropo Mansão do Caminho, no bairro de Pau da Lima. Mais ou menos neste período, Irmã Dulce consolidava sua caminhada de benevolência pelas ruas da cidade. Em 1933, ela entrou para a Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus, na cidade de São Cristóvão, em Sergipe.

Depois do noviciado, volta para a capital baiana e passa a ensinar num colégio mantido pela congregação, na Cidade Baixa. É ali mesmo, nos anos 1940, que ganha fama de caridosa que resultaria no epíteto de “Anjo Bom da Bahia”, ao amparar os pobres e doentes. As Obras Sociais Irmã Dulce só viriam a ser criadas no fim da década seguinte, a partir de um galinheiro, em 1959.

Antes mesmo de ser considerada sagrada pelo Vaticano, Dulce já era chamada de “Santa de Roma”, em alusão ao bairro da Cidade Baixa, de nome idêntico à capital que abriga a Basílica de São Pedro. 

Força ancestral
Enquanto Dulce e Divaldo ainda estavam na primeira infância da fé, outra figura religiosa já era reverenciada pela sua sabedoria, força e vitalidade ancestral.

Nascida dois anos antes do fim da escravidão no país, Maria Escolástica da Conceição Nazaré recebeu o título de Mãe Menininha do Gantois em 1922, quando, aos 28 anos, foi empossada a quarta ialorixá de um dos mais importantes terreiros da Bahia.

Se no início alguns filhos de santo viram com desconfiança a escolha daquela mulher franzina (aspecto físico que lhe rendeu o apelido de “Menininha”), na década de 1940, ela já reinava absoluto.  

No livro Bahia de Todos os Santos, guia de ruas e mistérios, Jorge Amado descreve Mãe Menininha como “a ialorixá de todo povo da Bahia, sua mão se estende protetora sobre a cidade. Não se trata nem de misticismo nem de folclore e sim de uma realidade do mistério baiano”.

Em Cidades das Mulheres, obra da antropóloga americana Ruth Landes, durante passagem por Salvador no fim dos anos 1930, Mãe Menininha ganha capítulos de destaque.

“Apesar da sua dor de cabeça, Menininha cantava e dançava sem parar, mexendo no xale que devia esconder-lhe os seios. Movia-se com leveza e rapidez, e por vezes era graciosa e dramática. E cantava encantadoramente, sem embustes e sem “espalhar brasas”, como se diz. Sentia-se que adorava cantar e dançar”.   

O livro teve publicação internacional e, como o próprio título sugere, relata a força feminina nas religiões de matriz africana.

Mãe Menininha do Gantois (Foto: Reprodução)

Mãe Menininha era filha de Oxum, rainha a das águas doces e dos rios. É atribuída a ela e sua “proteção sobre a cidade”, citada por Jorge Amado, como uma das inspirações para Gerônimo e Vevé Calazans escreverem a música-hino “É d’Oxum”, trilha da minissérie Tenda dos Milagres, da Rede Globo, em 1985.

A minissérie, vejam só, foi inspirada num livro homônimo de Jorge Amado. E os versos iniciais da música são: “Nessa cidade todo mundo é d’Oxum. Homem, menino, meninamulher”.

Mãe Menininha morreu em 1986. A curiosidade é o dia de falecimento da mãe de santo: 13 de agosto.

Mesmo dia que passará a ser o dia santo de Irmã Dulce, na Igreja Católica.

União do Vegetal
Voltemos a Salvador dos anos 1940. Nosso último personagem religioso talvez seja o menos conhecido do grande público, mas arrebata uma legião de seguidores de 60 nacionalidades e tem grande expressão de fé, caridade e força religiosa pelo mundo.

José Gabriel da Costa nasceu na cidade de Coração de Maria, bem pertinho de Feira de Santana, em 1922 -- mesmo ano que Mãe Menininha foi empossada ialorixá. Nos anos 1940, se mudou para Salvador em busca de trabalho, então com 20 anos de idade.

Descrito como alguém de rara inteligência e muito inquieto, trabalhou no Mercado das Sete Portas e como condutor de bonde nas ruas de Salvador. Participava das rodas de capoeira e ganhou o apelido de “Mestre Zé Bahia”.

Foi naquela Salvador dos anos 1940, que transbordava religiosidade, que Gabriel teve o contato com a umbanda. Aquele processo o ajudaria, anos mais tarde, a incorporar a entidade Sultão das Matas e lançar as bases da União do Vegetal.   

Em meados daquela mesma década, ele se voluntariou para trabalhar como seringueiro no norte do Brasil. Era o contexto da Segunda Grande Guerra e a produção da borracha, a partir da extração do látex, era fundamental para abastecer os soldados em disputa no front.

Na floresta Amazônica, José Gabriel teve contato com o chá hoasca (ayahuasca), bebida feita a partir de plantas medicinais e com poderes xamânicos. De sua experiência religiosa com os cultos afros e também da ancestralidade indígena, funda o Centro Espírita Beneficente União do Vegetal. Os preceitos são trabalhar pela evolução do ser humano e no seu desenvolvimento espiritual.

Mestre Gabriel (Foto: Divulgação)

O baiano José Gabriel passou a ser reverenciado como Mestre Gabriel. Em 24 de setembro de 1971, dia de Nossa Senhora das Mercês, Mestre Gabriel desencarnou, em Brasília.

Em 1501, quando a expedição de Gaspar de Lemos e Américo Vespúcio, avistaram a dimensão da baía que adentrava parte do litoral da colônia portuguesa recém-anexada, apenas seguiram a tradição de batizar acidentes geográficos com nomes católicos. Era primeiro de novembro, dia de Todos os Santos.

A baía foi batizada pelo nome que profetizaria sua força religiosa e vocação à tolerância. Quando Jorge Amado diz que a Bahia não é um território, mas, sim, um estado de espírito, nada pode ser mais literal.


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