Saudade: saiba mais sobre sentimento que nos acompanha desde cedo

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28.01.2019, 06:00:00
Atualizado: 28.01.2019, 13:23:15

Saudade: saiba mais sobre sentimento que nos acompanha desde cedo

Sentimento surge da ausência temporária ou definitiva de pessoas, situações ou coisas

Quem sente, sabe que ela não tem hora, nem data para chegar. Chega "do nada",  apertando o coração ou dando aquele alívio que logo se transforma em sorriso. Você pode não lembrar qual foi a primeira vez que sentiu saudade, nem quando percebeu que era esse o sentimento que definia a falta que as pessoas que você amava fazia, mas é certo que desde a primeira infância o ser humano lida com essa experiência, que é lembrada nesta quarta-feira (30) com o Dia da Saudade.

 "A minha lembrança de saudade é desde muito cedo, quando eu ia passar o fim de semana na casa de uma tia ou na casa de um amiguinho, eu experimentava essa coisa da saudade, de sentir falta de algo. Eu sempre tive isso, e continuo tendo, na verdade", recorda a estudante Marilucia Leal, 30 anos. Naquela época, bastava ir fazer outras coisas, brincar depois de alguns minutos, que a saudade ia diminuindo. Era uma saudade passageira, que só aumentava a expectativa para o próximo fim de semana. 

É justamente essa sensação de querer algo que não se tem mais o que caracteriza a saudade. "Começa quando a gente convive com algo que é importante para nós: uma pessoa, um bicho, até mesmo um objeto que temos apego ou apreço. Quando sentimos a ausência, seja temporária ou definitiva, aí passamos a sentir saudade", explica a psicóloga Ana Paula Nunes, 29, do Espaço Nelson Pires.

Como qualquer sentimento, a saudade é algo complexo e vivido por cada pessoa de forma particular. Além disso, ela se modifica a partir das experiências e das relações construídas ao longo dos anos. Viajante convicto, o jornalista Hailton Andrade, 29, perecebe que sua relação com o sentimento mudou de forma intensa nos três últimos anos e meio, quando passou por 19 países - em alguns, ele chegou a morar.

Hailton Andrade: "Falando em saudade, pensei nessa foto de quando estava viajando de carona pela Rota 40, na Patagônia Argentina, em novembro do ano passado"

"Sempre estou em outros lugares, conhecendo outras pessoas, fazendo novas amizades. Então, quando estou aqui na Bahia, ao lado da família e dos amigos com os quais cresci e convivi boa parte da vida, eu sinto saudade daqueles que estão em outros lugares, espalhados pelo mundo. Sinto saudade dos lugares que já passei e que dá vontade de voltar. Isso acontece obviamente do lado contrário também. É uma relação constante e de transformação porque sempre novas saudades aparecem no meu caminho", comenta sobre o sentimento que para ele já é rotina. Tanto assim, que não há momentos específicos para bater aquela lembrança com gostinho de quero mais.

A psicóloga Ana Paula Nunes explica que é assim que costuma acontecer: a saudade chega quando menos se espera, geralmente através de um estímulo que pode ser um cheiro, um sabor, uma música. "Há também algumas ocasiões ou datas que reativam essa lembrança das coisas boas vividas. Se uma neta tomava café com a avó todo fim de tarde é possível que depois ela associe o aroma do café ou mesmo o pôr do sol àquela pessoa, por exemplo. Esse estímulo está associado à vivência e ao que foi registrado na memória", explica.

Marilucia Leal (segunda, à esqueda): "Isso foi em março de 2018, quando comemoramos de uma só vez o aniversário de minha mãe, o meu, de meu sobrinho e do filho dele. Foi um momento especial porque a gente conseguiu reunir todo mundo: todos os irmãos, netos, primos, bisnetos. É uma foto que sempre olho e que lembro com uma saudade boa, com vontade de estar de novo com todo mundo junto em um dia bacana" (Foto :Acervo Pessoal)

Luto
Há também quem não consiga lidar muito bem com essa emoção, especialmente se ela está ligada a uma perda definitiva, como a morte de pessoas muito próximas e queridas ou o fim de um relacionamento amoroso. É quando a saudade se confunde com o luto e pode ser dolorosa, sufocante. 

"O luto é um sentimento universal, todas as pessoas vão sentir um dia. Ele é decorrente de uma perda e envolve uma série de reações físicas e emocionais, que são na realidade uma adequação a essa nova realidade. Algumas pessoas conseguem se adaptar melhor, outras nem tanto. A dor do luto é algo normal, que tem de ser vivida, e que está associada às lembranças do falecido. Isso permanece até o fim das vidas. As pessoas acham que vai passar, mas não passa, porque você não esquece as pessoas que amou e os momentos felizes e prazerosos que viveu", explica a psicóloga. 

Como para nem todas as pessoas lidar com o luto e a saudade é algo fácil e nem todo mundo tem clareza do seu próprio estado emocional, ela indica que quem esteja próximo de pessoas que estão sofrendo o paralisadas por qualquer tipo de perda, sinalizem isso e auxiliem na busca de um atendimento profissional. "Muita gente chega ao consultório médico a partir dessa indicação de um terceiro, mas às vezes chega também para tratar outros problemas e lá descobre que o que tem atrapalhado o desenrolar da vida é um luto não processado", detalha.

Foi o que aconteceu com a estudante Marilucia Leal. Aos 10 anos, ela viu a saudade de criança se misturar ao luto, com a perda precoce do pai. "Acho interessante falar dessa saudade porque por muitos anos ela  representou apenas a dor. E a dor é uma sensação que a gente quer esconder, fingir que não existe, que a gente diz que passa. Nos últimos tempos, quando uma série de questões emocionais afloraram, eu percebi o quanto essa saudade não vivida, sentida o tempo inteiro como dor, influenciava minha vida", recorda.

Quando teve de se mudar de Amargosa para Salvador, aos 17 anos, ela acabou associando a saudade que sentia dos familiares e da cidade natal à sensação de dor, sempre com muito peso e choro. "Posso dizer que agora, aos 30 anos de idade, estou começando a viver uma saudade da lembrança, uma sudade boa. As memórias continuam vivas, sempre em mim, enquanto eu quiser e permitir. A saudade da minha família hoje representa a expectativa de voltar, de reencontrar, de estar junto ao menos dois dias. Da mesma forma, tenho me educado para saudade dos amigos, que vivem na correria da vida, mas que são pessoas que quero bem e que faço de tudo para reencontrar e viver novas histórias, que vão gerar mais saudade depois", explica.

Tatiana Dantas (de amarelo): Essa foto foi na primeira sexta-feira de 2017, ano em que meu filho faleceu. Nós subimos a Colina Sagrada, eu, ele, minha mãe, minha filha, meu irmão e meu sobrinho. Foi um dos momentos de despedida, já que cerca de uma semana depois ele morreu. Eu lembro com muita saudade, mas também com muita gratidão desse dia, por termos ido à igreja juntos agradecer e depois da missa sentar na escadaria para tirar essa foto. Graças a Deus eu registrei esse momento, publiquei no Facebook e todo ano sou lembrada dessa foto. Foi um dia de agradecer, antes de pedir. E essa foto me remete muito a isso: gratidão! Todos os anos agora eu vou no Bonfim na primeira sexta do ano, até em memória dele (Foto: Acervo Pessoal)

Quem tem vivido intensamente a saudade misturada à dor no último ano é a professora Tatiana Dantas, 32 anos, que perdeu um filho adolescente. "É uma saudade singular, que aperta o peito, que dói às vezes, que me tira o sono. Às vezes você lembra e ri, às vezes você lembra e chora, chora muito. Acho que o luto é mais doloroso, mas essa é uma saudade diária", comenta. Ainda assim, para ela, fica mais difícil lidar com o sentimento em datas comemorativas, como Dia das Mães, Dia das Crianças e festas de fim de ano. "Não é só nessas datas, mas nelas também. Sempre penso muito quando vou dormir. O que alivia um pouco é compartilhar essas lembranças em família, rever fotos, lembrar das histórias e dar risada juntos", diz. 

Saudade mal processada
Há pessoas que tentam negar o sentimento quando, por exemplo, terminam um relacionamento amoroso. Isso porque para elas se torna difícil lidar com o distanciamento, sabendo que a pessoa está viva em algum lugar, mas fora de sua rotina. Assim, ela passa a evitar as coisas que lembram aquele antigo vínculo: deixa de usar perfumes, de frequentar determinados lugares, exclui fotos das redes sociais.

A psicóloga explica que mesmo após o fim de relações abusivas, a pessoa pode sentir saudade. "Isso acontece porque em agum momento foi prazerosos, houve um processo de conquista, o compartilhamento de coisas em comum", ressalta a psicóloga. Para ela, a esquiva aos estímulos não é algo funcional,  porque só reitera que você não esqueceu o que quer esquecer. "A forma de lidar com isso é a aceitação. Relacionamentos terminam e cada um pode seguir de forma independente ou quem sabe conhecendo uma outra pessoa".

Dentre as formas positivas de lidar com a saudade, está valorizar o presente e as pessoas que estão ao seu redor neste momento. "Sabemos que vivemos coisas únucas todos os dias, então, é bom valorizar isso, aproveitar as pessoas que amamos e demonstrar. A saudade dolorosa às vezes vem da culpa daquilo  que  não viveu, não fez, especialmente quando a perda definitiva", diz a psicóloga Ana Paula Nunes.

Olhar para fotografias antigas, repostá-las nas redes sociais, tudo isso ajuda a amenizar a saudade e é uma forma positiva de lembrar das pessoas. "É importante que cada pessoa encontre a melhor forma de lidar com isso", defende.

Para a estudante Carolina Carvalho, 26, tem sido difícil lidar com a "saudade do futuro", motivada pela situação política que o mundo atravessa. "Tenho muita saudade de imaginar um mundo sem fronteiras, diverso, humano. Isso tem sido um desafio diário e ainda bem que viver a realidade aos poucos ajuda. Um dia fui numa feirinha e encontrei a frase 'saudade do futuro' escrita.  Isso me arrebatou, porque era/é exatamente isso. Sem futuro nada faz sentido, parece que é tudo em vão", comenta.

Tradução
A saudade é tão familiar e recorrente, que parece universal. Há quem aposte que o sentimento nasça com o ser humano, seja algo que nutrimos ainda bebês. "O que seria a criança chorando pela ausência dos pais senão saudade? Acho que as primeiras experiências que todo mundo tem são nesse momento, quando notamos a ausência de alguém", questiona Hailton Andrade, ao lembrar que o português é a única língua capaz de expressar exatamente essa emoção, tomada como uma palavra intraduzível em outras idiomas. 

Na língua inglesa, a palavra saudade é demonstrada como sentir a falta (I miss you), no espanhol é a falta que provoca recordação (recuerdo) e no italiano uma recordação de afeto (rocordo affetuoso).

Associar a uma única palavra as sensações de ausência, carência, melancolia e até felicidade é coisa nossa. A história diz que o surgimento da expressão se deu na época da colonização do Brasil, quando os portugueses sofriam com a distância de sua terra, sua casa e seus familiares. Assim, saudade pode ser definida como uma nostalgia melancólica por uma pessoa, lugar ou coisa que está longe no tempo ou espacialmente.

Também nessa época, os negros escravizados no Brasil passavam por um sentimento parecido, definido como banzo (do quimbundo mbanza, "aldeia"), um estado de melancolia e tristeza por estar longe da terra natal forçadamente. Para as religiões de matriz africana, o sentimento foi perpetuado por gerações. Segundo a ialorixá Jaciara Ribeiro, do terreiro Ilê Axé Abassá de Ogum, em Itapuã, o banzo é um desejo vago por algo que você não chegou a conhecer, seja uma época ou um lugar. "Eu mesma sinto esse vazio, saudade de um lugar qeu eu não sei onde é. Quando estive no Benin, há três anos, eu vivi uma conexão com o lugar que parecia que eu já conhecia, era muito forte tudo aquilo em mim", recorda.

 A sambista Mariene de Castro, 40, diz conviver com esse sentimento desde a adolescência. "Quando eu tinha 16 anos e Roque Ferreira me disse que eu era sambista, eu falava: 'mas sambista é coisa para quem tem história'. Só que eu cantava com uma saudade, com uma melancolia, que eu não sabia de onde vinha, que uma menina de 16 anos não tem. Eu não tinha intimidade com os sentimentos de dor, de tristeza, de saudade, mas eu sentia aquele banzo, aquela saudade, aquela nostalgia. E o nome disso é ancestralidade. Só hoje percebo isso", comenta. 


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